Por estes dias as indignações propagam-se em fluxos sincopados, produzindo um inevitável efeito de banalização. São sempre de alta intensidade e de extrema volatilidade: extinguem-se com a mesma rapidez com que despontam. Exigem apenas a disponibilidade de um dedo polegar num smartphone. Seja para evitar o abate de um cão que molestou uma criança ou de um boi que escapou na rota para o matadouro. Seja sobre a co-adopção, as praxes, a deposição de famosos no panteão ou a venda de umas telas de Miró.
Estas indignações avulsas, a propósito de tudo e de nada, promovem uma cultura de mediocridade, onde as óptimas causas se equivalem às péssimas sem hierarquia aparente e a tentação dominante é sempre nivelar por baixo, a coberto do pseudo-vanguardismo das “redes sociais” onde parece ter razão quem mais se exalta no conforto do sofá.
Assistimos impávidos ao triunfo da irrelevância e da superficialidade que acaba por produzir o efeito de uma anestesia geral: na semana seguinte já ninguém se lembra da polémica da semana precedente. Much ado about nothing, como nos ensinou um profundo conhecedor da natureza humana.
Reproduzido aqui, onde a partir de agora passo a escrever também

Exactamente. E as doses industriais que durante uns dias temos de gramar sobre esses acontecimentos conseguem fazer-me deixar de ter a mais pequena dose de pachorra para ligar ao que se diz. E de zapar furiosamente à hora das notícias.
Nos últimos dias fomos bombardeados com peças sobre as praxes no Meco abrindo os telejornais e que pura e simplesmente nada adiantavam, presentemente é o caso das pinturas a dominar os noticiários (e a fazer correr tinta) como se mais nada tivesse acontecido. Perdão, deu-se o relevantíssimo acontecimento dos 29 anos de Cristiano Ronaldo.
Daí o efeito anestesia que refiro. Quando houver algo realmente importante quase ninguém ligará.
Meu caro Pedro,
talvez seja tempo de se mostrar o que é relevante. E o que é relevante mostrar é que hoje, de cima a baixo, se pretende transformar em irrelevante o que deveras é relevante.
Sobre as obras de Miró, o que vai de relevante nesta matéria é o facto das mesmas, com ilegalidade, terem sido exportadas para outros destinos. Mas há ainda outra matéria relevante, com estas atitudes, quebrando as leis e a transparência que tanto se apregoa, pretende-se mostrar que o que é relevante é a lei de cada um, sobrepondo-se a leis comuns.
Mas há mais, as obras de Miró foram efectivamente pagas por todos, sendo património comum e não de qualquer um. Património este que pode ser rentabilizado de duas formas: mantendo-o na posse de todos (esperando por mais valorização) e usando-o para exposições cujas entradas sejam pagas.
Quanto às praxes, o que é relevante nesta matéria é fazer-se das praxes matéria criminosa e não de integração. A cultura do crime e da transgressão é resultante de uma cultura do posso tudo só porque posso, e não da que posso fazer o que convém.
Sobre a co-adopção, é necessário que venham os que se encolhem, e isto é relevante, mostrar, através do sofá ou não, dizeendo que não é vergonha nenhuma e que não se é retrógado só porque se pensa que a adopção deve ser feita pelo que a regra revela ser normal e estável em matéria de educação de uma criança, isto é, por um casal e não por um par.
Mostrar que a diferença entre casal e um par é tão simples quanto isto: casal é a união de um homem e de uma mulher e par, nesta matéria, é uma união constituída por pessoas do mesmo sexo.
Mas também é relevante dizer que o facto da homossexualidade ser reconhecida não torna legítimo o reconhecimento da co-adopção. A vida de uma criança não é matéria de modas, tradição e desejos, e isto aplica-se quer aos hetero quer aos homo, mas de responsabilidade em ambiente próprio que é necessário estudar, aprofundar e reflectir.
Quanto ao panteão, convém dizer que era relevante que ele não existisse. A história é feita de matéria viva e não de túmulos. E olhe, meu caro Pedro, há tantos túmulos formosos e belos que por dentro só revelam ossos.
Mas há outra matéria relevante que convém discutir, a subida do desemprego em 2013 (assim de como se chega à brilhante conclusão de ele ter sido reduzido), o aumento da dívida e o empobrecimento de uma nação por razões que se prendem também – repito, também – com o facto de alguém pretender ir longe mas não querer fazer esse caminho por conta própria, arrastando tudo e todos.
Receba um cordial abraço.
Meu caro, descodificou parte do que eu pretendi dizer em tese geral. Que tanto vale para estes exemplos concretos como para muitos outros.
Lamento que os órgãos de informação andem cada vez mais a reboque das chamadas ‘redes sociais’, quando devia suceder o contrário. Isto não augura nada de bom para jornais e televisões.
Abraço retribuído.
muito bom
(em matéria de emprego e consequente qualificação/produtividade dos nossos assalariados, não se consegue perceber porque é que por um lado se “bate na tecla” de que vivemos acima das nossas posses e que devemos ser cumpridores, quando pelo outro temos um ordenado mínimo quase de terceiro mundo, num país onde a maioria, incluindo os bem formados, são empurrados para o desemprego, para a precariedade e para €490 mês, faz-se isto e depois querem aumentar a produtividade e o cumprimento. A tendência do actual mercado de trabalho tem como base o conceito empowerment, que essencialmente consiste em levar cada colaborador a se assumir como responsável pelo desenvolvimento positivo e sustentável da empresa de que faz parte, mas para se atingir e manter tal motivação é preciso também saber partilhar a merecida cota parte dos lucros, ao invés de fugir ou camuflar/optimizar os rendimentos obtidos, despendendo deles €490 que qualquer dia chegarão apenas para pão e água. Esta partilha é necessária para que esta atitude para com o trabalho possa crescer dentro das pessoas, fazendo de todos nós pessoas responsáveis não só pela nossa empresa, mas assim também pela nossa terra, pelo nosso mundo, pela vida.)
Toca num ponto importante. Aliás, num ponto fundamental.
uma cultura de mediocridade, onde as óptimas causas se equivalem às péssimas
Não vejo por quê. Há diversas pessoas que se indignam por diversas causas. Umas pessoas indignam-se por umas causas mas não se indignam pelas outras. Há pessoas que se indignam por causas boas e outras que se indignam por causas más. Na mente de cada um, não há equivalência entre as causas – para cada um, umas causas são boas e as outras são más. Há pessoas medíocres que se indignam pelas más causas, e pessoas elevadas que se indignam pelas boas causas. Não há “mediocridade” geral.
Faz-me alguma impressão que as excelentes causas e as péssimas causas produzam ecos equivalentes. E sobretudo que esses ecos se dissolvam mal soa a indignação seguinte.
Perdão…
Esqueceu-se da última “fratura” do BE. – “Mutilação genital feminina”.
….
A propósito do BE, ontem no Parlamento questionou o governo ( e bem) sobre o “amianto” nas escola e edifícios públicos. Não é que Luísa Apolónia ( dos Verdes) engasgou e nada disse sobre o assunto… nem uma palminha!
O ritmo a que se sucedem as indignações é tão estonteante que não consigo já acompanhá-las.
desabafos variados são muito uteis e ajudam a abrir horizontes ou desopilar. a enorme variedade de info que recebemos torna as coisas necessáriamente efemeras.mas felizmente que a web nos permite variar e não encucar sobre um unico tema, alem de que tambem nos permite aceder aos que acham que os miros devem ser nossos, devem ser deles, devem voltar, devem ir , deviam ter ido na mala, deviam ter ido no furgao.no meio disto tudo ainda há quem informe que há meses que se discutia se era melhor valoriza-los um a um ou de atacado.mas a canavilhas coitada foi apanhada de surpresa, tal como eu com a presença de tanto miro em londres.No caso dela valeu a surpresa um show debola que até parecia que não estava a mentir.no meu caso valeu um encolher de ombros.
Não ponho em causa a generosidade ou a boa-fé das pessoas que se indignam a propósito de qualquer coisa. Espanta-me é que estas indignações funcionem exactamente como as ondas do mar: batem ruidosamente na areia e dissolvem-se em espuma.
Há quatro semanas só se falava em co-adopção: deixou de se falar. Há três semanas só se falava no panteão: nunca mais se falou disso. Há duas semanas só se falava em praxes: da gritaria ao silêncio foi um curto passo. Agora só se fala no Miró: para a semana já ninguém falará nisto.
Espuma. Muita espuma.
Pão e Circo !
Á falta de Pão aumenta-se a dose do Circo !
É um clássico. Nada de novo debaixo do sol.
Soa a despedida e até mesmo a julgamento. Seja como for, será sempre com prazer, bem como uma honra, visitar os seus pensamentos, onde quer que os escreva.
Obrigado pelas suas generosas palavras, Manuel.
Tão bem, Pedro… É um cansaço muito grande.
Temos de ser mais a dizer isto, Laura.