O declínio francês


escafandro,
Aviso prévio: No texto que se segue não será abordada a vida amorosa de qualquer presidente francês, por muito normal que seja este e anormal que seja aquela. Em contrapartida, o texto inclui muitas percentagens.

Durante séculos, o Portugal que se imaginava culto ambicionava ser francês. França era o exemplo e a inspiração. Hoje somos bastante mais influenciados pelo universo anglo-saxónico mas a velha ligação ainda tem consequências. Já mencionei isto no blogue um par de vezes mas repito-o: num debate das últimas eleições presidenciais francesas, Hollande referia a cada cinco minutos como a França perdera terreno para a Alemanha; a certa altura, Sarkozy atirou-lhe: «Mas a Alemanha fez há dez anos aquilo que o senhor ainda recusa que se faça em França.» Bingo. Nem por isso Sarkozy venceu as eleições. E, como seria de esperar, desde a eleição de Hollande a França continuou basicamente a fazer o oposto do que a Alemanha fez há mais de uma dúzia de anos (e do que os países nórdicos fizeram há cerca de uma vintena). Os resultados? Comecemos por um número curioso. Se olharmos apenas para o PIB, pouco mudou. Em 2001, o PIB francês representava 73,6% do PIB alemão. Em 2012 (último ano do qual existem estatísticas razoavelmente definitivas), mantinha-se nos 73,1% (com uma ligeira vantagem de oito décimas para o lado da Alemanha, ambos cresceram cerca de 12% nesses onze anos). Por trás do crescimento quase igual, há no entanto diferenças enormes na evolução da competitividade das duas economias. Tome-se o sector automóvel como exemplo. Em 2001, a Renault tinha acabado de comprar uma posição maioritária na Nissan e o grupo PSA começava a multiplicar gamas. Actualmente, a Renault compensa prejuízos com os lucros da Nissan (e da Dacia) e a PSA procura desesperadamente convencer o grupo chinês Dongfeng de que seria um cônjuge útil e leal. Em 2001, na Alemanha que ainda suportava os custos da reunificação e começava  a reformar as leis laborais e o sistema de segurança social, BMW e Daimler iam-se apercebendo de que teriam de deixar cair a ideia de tornar lucrativas Rover e Chrysler, respectivamente. Hoje, as marcas alemãs dominam a Europa e o objectivo do grupo VAG de atingir o número um mundial em 2018 parece não apenas realista como inevitável. Mas talvez seja preferível que nos concentremos nas estatísticas. Em 2001, a partir de uma população representando 72,0% da população alemã, as exportações francesas de bens e serviços representavam 61,1% das exportações alemãs. Em 2012, tendo a população – que aumentou em França e diminuiu ligeiramente na Alemanha – passado para os 77,4% da população alemã, limitavam-se a 46,8% (se excluirmos os serviços, a evolução é ainda mais reveladora: de 56,6% para 40,4%). No que a volume de exportações diz respeito, Hollande poderá até reclamar um prémio (e, se quiser ser justo, partilhá-lo com o antecessor) pela anedota fonética de ter visto a França ser ultrapassada pela Holanda, um país com 26,4% da população francesa. (Por habitante, a Holanda consegue a proeza de exportar mais do dobro da Alemanha: 47,1 versus 20,4 mil dólares, quedando-se a França pelos 12,3 – e Portugal pelos 7,8.) Sem surpresas, a taxa de desemprego acompanhou estes números. Em 2001, era de 8,2% em França e de 7,9% na Alemanha; em 2012, subira para 10,3% em França e descera para 5,5% na Alemanha. Tudo isto – será conveniente relembrar – quando, em percentagem, o PIB francês subiu sensivelmente o mesmo que o alemão (ou que o holandês) nos onze anos desde o fim do euro. Ou seja, a economia francesa, antes ligeiramente menos competitiva do que a alemã, fechou-se sobre si mesma, derivou para sectores não exportadores e em grande medida apoiou-se no Estado (percentualmente, a despesa pública francesa é a mais elevada da zona Euro; entre 2001 e 2012, subiu de 51,7 para 56,7% do PIB enquanto a alemã desceu de 47,6 para 44,7%). No fundo, salvaguardando a diferença de escala, que a torna too big to fail (escrever isto em inglês é provocação suplementar), a França tem exactamente o mesmo tipo de problemas e a mesma mentalidade vigente que Portugal. Permanecer agarrado à ideia da defesa do Estado Social, em vez de o defender efectiva e realisticamente, dá nisto. E as velhas influências demoram a morrer.

Notas

1. Encontra-se implícito mas, de modo a que não restem dúvidas, acrescente-se que dificilmente se poderá culpar o euro pela totalidade dos problemas franceses. As situações de partida não eram assim tão diferentes.

2. Nas exportações, o problema de Portugal nem foi de ter registado uma queda – no período 2001-2012 desceram de 5,0% para 4,9% das alemãs – mas de serem demasiado baixas logo à partida e não ter conseguido fazê-las subir pelo menos ao ritmo da Holanda.

3. Dos quatro países constantes dos gráficos, França e Portugal foram os únicos que nunca apresentaram receitas superiores às despesas durante os vinte e dois anos considerados e foram também os que mais fizeram crescer a diferença entre umas e outras na sequência da crise de 2008 (ver gráfico abaixo).

4. Certas más-línguas poderiam apontar como factor-chave na diferença de capacidade de reforma entre França e Alemanha o facto de, em 2001 como hoje, a fatia da população dependente do Estado (ver despesa pública em relação ao PIB) ser maior em França. Acrescentariam (as tais más-línguas) que os privados protestam menos, têm sindicatos mais disponíveis para estabelecer compromissos e dificilmente conseguem paralisar o país em que vivem.

5. Hollande promete agora aumentar a competitividade da economia francesa através de um alívio da carga fiscal recaindo sobre as empresas, a ser compensado por cortes de cinquenta mil milhões de euros na despesa pública. Veremos se a medida avança. Prova da falta de juízo que grassa em França (e da importância excessiva das aparências que grassa um pouco por todo o lado) é a intenção de criar uma comissão pública para avaliar se as empresas não estão a abusar da benesse.

6. Como os dados das exportações de vários países revelam e ainda que se desconte o efeito da valorização do euro, o tremendo pessimismo que muitos europeus mostram perante os resultados da globalização é exagerado. Sendo difícil, pode continuar-se competitivo pagando salários altos (mesmo em sectores onde tal pareceria improvável; exemplo: mais de 20% das exportações dinamarquesas de bens vêm do sector agro-pecuário). Já o peso do Estado (e, por conseguinte, das prestações sociais pagas por este) não pode continuar a subir ao ritmo a que subiu nas últimas décadas, até por pressões demográficas que apenas uma gigantesca dose de imaginação permitirá atribuir aos chineses ou ao sistema financeiro.

Fontes: Organização Mundial do Comércio para os dados relativos às exportações, Fundo Monetário Internacional (World Economic Outlook Database, Outubro de 2013) para os restantes.

 

(Clicar nas imagens – e depois uma segunda vez – para aceder a versões maiores. O ano de 1991 foi escolhido para permitir obter um retrato da situação na época imediatamente após a reunificação alemã. A Base do FMI não inclui os dados da despesa e da dívida da Holanda para os anos anteriores a 1995.)

10 comentários em “O declínio francês”

  1. Então e a percentagem de noites, das 23h às 11h do dia seguinte, que o presidente passou nos últimos tempos fora da residência oficial?

    1. Por incrível que pareça, acho que não consta nem dos dados do FMI nem da OMC. De qualquer modo, seria mais interessante saber:
      1. A percentagem das vezes que saiu satisfeito da residência paralela. (No caso dele, diria perto de 100%; já no caso da Gayet… bom, sabe-se lá – há talentos escondidos e o coração feminino é uma coisa tão estranha…);
      2. A percentagem de vezes que, ao regressar à residência oficial, cumpriu escrupulosamento TODOS os seus deveres (incluindo os… er, como ele não é casado, digamos paramatrimoniais);
      3. A percentagem de vezes em que, ao regressar à residência oficial, tomou melhores decisões (o que permitiria aferir se o efeito da felicidade se sobrepõe ao das noites mal dormidas).

  2. Gosto de opiniões bem fundamentadas, que contrariam esse desporto nacional que é o “achismo”, tão propício às inócuas conversas de café. Ora cá está uma tese bem sustentada, com números e factos: é daqui que nascem os debates mais proveitosos. Uma tese pela qual te cumprimento, JAA.

  3. Um bom post, bem fundamentado e a merecer uma leitura atenta.

    Tenho dificuldade (por preconceito ideologico, reconheço) em aceitar já as conclusões, mas acho que merece uma leitura atenta.

    Não era má ideia convidar os “ladrões de bicicletas” a pronunciarem-se.

    Aproveito para felicitar a apresentação fundamentada de ideias. É tão pouco frequente no debate mediático alguém fundamentar com números o que está a dizer…

    1. Obrigado, JP. As questões ideológicas são importantes mas às vezes inquinam as ideias e o debate. Por exemplo, eu prefiro a ideia de um Estado relativamente pequeno com forte poder regulatório mas não digo que um Estado gastando na ordem dos 50% ou 55% do PIB é necessariamente mau. Para mim, as questões fundamentais são como lá chegar (não pode ser começando por aumentar a despesa, à espera de que a economia vá atrás) e, nos momentos de ajustamento (independentemente do sistema político, económico e financeiro, surgirão sempre crises), conseguir ser realista e agir atempadamente.

  4. jaa adota um ponto de vista alemão: o sucesso exportador é bom e o sucesso empresarial melhor. Mas a pergunta que conviria fazer é, como é o nível de vida das pessoas? E elas estão satisfeitas ou não com as suas vidas?
    Eu digo isto porque, segundo julgo saber, por detrás do sucesso exportador da Alemanha se esconde muita miséria, muitas pessoas a dormir na rua, muita pobreza.
    De que serve sucesso exportador se o dinheiro adquirido com as exportações se acumula nalgumas empresas e é mal reinvestido no estrangeiro, por exemplo é investido na compra de títulos de dívida pública portuguesa?
    As exportações não são o fim de uma economia, elas devem ser apenas um meio para atingir o fim, que é que as pessoas sejam ricas.

    1. Está a pretender dizer que os franceses estão mais felizes que os alemães? Não se nota. E claro que a Alemanha não é um paraíso. É apenas mais realista que a França e isso traz-lhe, apesar dos problemas que também tem (e que provavelmente se agravarão com as medidas exigidas pelo SPD para estabelecer a coligação governamental), alguns benefícios claros. As exportações são um indício de competitividade e, sem esta, ainda por cima com os problemas demográficos de que a Europa sofre (a Alemanha muito particularmente), é quase impossível garantir seja o que for. Quanto à sua última frase, inteiramente de acordo.

      1. As exportações são um indício de competitividade e, sem esta, ainda por cima com os problemas demográficos de que a Europa sofre (a Alemanha muito particularmente), é quase impossível garantir seja o que for.

        Desculpe jaa, mas esta frase parece saída de uma cassete, similar à que o PCP usa mas com uma música distinta.

        Há que compreender que o dinheiro que entra num país volta imediatamente a sair dele, pois nenhum país absorve dinheiro. A Alemanha ganha dinheiro com as exportações, e o que faz com esse dinheiro? Acumula-o, em grande parte, sob a forma de títulos financeiros de valor dúbio, como as tais obrigações de dívida portuguesa.

        Eu diria que a Alemanha é tão pouco saudável como os EUA. Os EUA são pouco saudáveis porque têm um défice sistemático, que financiam através da entrada constante de dinheiro estrangeiro em troca de títulos de valor dúbio. A Alemanha é pouco saudável porque tem um excedente sistemático, o que faz com que tenha que estar continuamente a comprar títulos financeiros estrangeiros de valor dúbio.

        Um país saudável tem uma balança externa mais ou menos equilibrada (uns anos deficitária, outros anos excedentária), não uma balança externa sistematicamente superavitária nem sistematicamente deficitária.

        1. Cassete? OK.

          Há quem critique a Alemanha e outros países lá da zona por terem adoptado políticas para aumentar a competitividade quando já eram mais competitivos que os países do Sul. Primeiro, é preciso ver que, em grande medida, o fizeram em consequência de dificuldades que sentiam (crise dos países nórdicos, reunificação alemã). Em segundo lugar, é irónico que se critique quem se preparara para um mercado mundial cada vez mais competitivo (a União Europeia não está sozinha no mundo) em vez de quem arrasta os pés. Finalmente, é duvidoso se estaríamos melhor se eles estivessem pior.

          Dê-me um segundo para mudar de lado.

          De qualquer modo, claro que os excedentes crónicos colocam problemas. Resta saber quem prioritariamente deve resolvê-los. Num mundo razoavelmente aberto, devem ser os mais competitivos a baixar de nível? Especialmente quando também têm contas públicas relativamente desequilibradas e enfrentam ameaças sérias (a demografia)? E quando os outros recusam fazer o que eles fizeram (quando aceitaremos um sistema de Segurança Social à imagem do sueco e/ou um sistema de Justiça à imagem do holandês e/ou um sistema laboral à imagem do dinamarquês?) A nós, pelo menos num primeiro momento, dar-nos-ia muito jeito que eles lançassem programas de obras públicas ou aumentassem salários (e, de certa forma, vão fazê-lo; segundo a The Economist, um em cada seis alemães ganha menos do que o salário mínimo previsto para vigorar a partir de 2015, o que deverá ter efeitos no custo do trabalho – e na taxa de desemprego.) Mas o que devíamos estar a fazer era a procurar aumentar a competitividade global da UE. E aí temos muito mais trabalho de casa do que eles.

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