Como se quiséssemos o sol todo só para nós


Pedro Correia,

 

Queremos mudar o mundo, queremos mudar o sistema, queremos mudar a sociedade. Tudo seria mais fácil se começássemos por mudar a nossa relação com os outros. Se adquiríssemos o talento de unir o que vemos fragmentado, de congregar o que está disperso. Se soubéssemos ir ao encontro de quem nos rodeia. Às vezes basta um gesto apaziguador, uma palavra amável, um sorriso que se rasga na face sempre sisuda. “Na superfície das coisas vê-se a essência das coisas”, escreveu Saul Bellow em Ravelstein.

A sociedade, o sistema, o mundo não mudam se não começarmos por mudar também algo de essencial na nossa relação com os outros. Nos actos mais singelos do quotidiano.

Escrevo estas linhas enquanto o sol vem espreitar-me da janela: é quanto basta para sentir-me grato por este dia. Penso nos que sofrem sob o mesmo sol que me aquece e me inspira e me ilumina. E questiono-me o que poderei fazer para atenuar a angústia ou aliviar a dor de alguém. Não da Humanidade em abstracto, como me sugerem os demagogos de plantão, mas de uma pessoa em concreto.

Uma palavra, um sorriso, um gesto, um abraço, um olhar. Às vezes só isto é necessário. E somos incapazes de dar esse passo. Como se quiséssemos o sol todo só para nós.

18 comentários em “Como se quiséssemos o sol todo só para nós”

  1. Belíssimo post e não podia concordar mais. Estes sentimentos nobres que tantas vezes nos faltam só tornam o mundo num lugar bem mais feio. E sabemos que o sol, quando nasce… 🙂 Bom fim de semana, Pedro.

  2. Uma grande verdade, Pedro: mais vale tentar atenuar a angústia ou aliviar a dor de uma pessoa em concreto, do que da «Humanidade em abstracto».
    Vemos muitas desgraças na televisão e temos vontade de ajudar, por vezes, até nos sentimos culpados por estarmos a gozar um momento de felicidade, quando, à mesma hora, há crianças a morrer à fome. É claro que este pensamento incomoda muito. Mas a verdade é que não temos maneira de ajudar, a não ser fazer uma doação em dinheiro ou géneros (mesmo correndo o risco de que o doado não atinja o seu destino). Claro que podemos tornar-nos membros de uma organização que atua no local da miséria, mas nem todos temos estofo e/ou habilitações para tal. E que dizer das pessoas à nossa volta, que precisam de nós? Mesmo que não estejam a sofrer as consequências de uma guerra ou a passar fome, precisam de nós.

    Se, de facto, conseguirmos atenuar o sofrimento de alguém em concreto, que esteja ao nosso alcance, já estamos a contribuir para um mundo melhor. Ser um bom pai, ou uma boa mãe, filho ou filha, irmã/irmão, por exemplo, é um dos melhores serviços que podemos fazer à Humanidade (essa mesma, do sentido abstrato).

      1. Deixem-me discordar, só um pouco, da vossa opinião.
        Acontece, não raras vezes, que julgamos estar a fazer pelo bem, e estamos a alinhar por outro lado.

        Dou um exemplo simples.
        Há duas décadas atrás, no estrangeiro, dei com o desenho de um míssil no computador de uma amiga. Perguntei-lhe se ela se sentia confortável sabendo que o que fazia seria usado para matar pessoas, talvez civis.
        Ela, claro, argumentou a lengalenga defensiva, dissuasora, habitual. Se não fossem eles, seriam os outros, etc… nenhuma novidade.

        Ao fim de algum tempo, podemos concluir que o nosso trabalho, que pensámos servir a humanidade, será usado contra nós. Esse tem sido o drama de muita gente, ainda que a maioria se preocupe mais com a vã glória do mérito ou dos cobres.

        Por isso, antes de prosseguir o caminho, importa questionar o caminho.
        E, às vezes, abandoná-lo pura e simplesmente.

        Nas últimas décadas assistimos a um aumento tecnológico brutal, e no entanto a humanidade está a ser confrontada com uma regressão social.
        Portanto, o trabalho está a ser dirigido contra quem o executa, e é tempo de parar, de questionar.
        Caso contrário estamos a alimentar um monstro que nos está a destruir.

        Isto aplica-se também a muitas instituições “boas”, que são capas de coisas “menos boas”… ainda que isso não seja evidente à primeira vista.
        Ao fim de tantas doações para tanta causa, vemos sistematicamente que o dinheiro se perde, que o esforço de muitos se perde, e tudo fica na mesma.
        E quando é assim, não adianta persistir no engano.

        Por isso, e aí estamos de acordo, é muito mais importante a ajuda e simpatia local, com os colegas, com os transeuntes. Aí cada indivíduo conta mais.
        No global, a nossa contribuição principal é o alerta constante, através de opiniões e de ideias.
        Estes espaços de reflexão, como o Delito, são importantes porque confrontam as opiniões de pessoas muito diversas.
        Cada qual é influenciado como quiser, mas não deixa de ter aqui um espaço com variada iluminação, caro Pedro.

        1. Aplaudo esta sua reflexão, muito pertinente e muito bem sustentada. Mais uma, entre tantas que aqui tem deixado.
          Permito-me transcrever esta ideia, que merece reflexão atenta: «Antes de prosseguir o caminho, importa questionar o caminho. E, às vezes, abandoná-lo pura e simplesmente.»
          Certíssimo.
          E agradeço-lhe as linhas finais. Podemos não conseguir sempre aquilo que refere, mas pelo menos tentamos sempre. E era, no fundo, também esse o sentido do meu texto: é importante tentarmos aproximarmo-nos dos outros, sentirmos isso como um imperativo categórico. É muito mais fácil sermos solidários com a Humanidade em abstracto, com arroubos de retórica, do que com o ser humano em concreto.

  3. Certo, Pedro, e lembrei-me do Pessoa:
    – muitos males sociais vêm das muitas curas de muitos curadores.
    Não é bem isto que ele diz, mas tive preguiça de ir procurar… a ideia não se afasta muito, e podia ser mais uma auto-desculpa para a sua não intervenção política.

    A um revolucionário interessa o desconforto para motivar a revolução…
    Por isso, as soluções locais atrapalham a solução global do modelo.
    A estratégia partidária que visa o global é inimiga do acordo local.
    Como há muito menino com “visões globais”, há muito impecilho para resolver problemas imediatos.

    É nesse sentido que cada vez prezo mais o acordo local, simples, óbvio, sem perguntas desnecessárias.
    Um simples exemplo… já fui mais céptico no “dar a moedinha”, agora sou muito menos. Se pede é porque pede – não sou julgador da sua vida.

    – Escute lá, então isto é zona de parquímetro e você está a pedir!
    – Ó amigo, a esta hora eles já não passam!
    – Tem a certeza?
    – Claro, então ia pagar duas vezes? Pedimos, mas não somos animais!
    – Ok.
    – Muito obrigado, saúde e bom ano!

    E esta é a questão… o arrumador com ética!
    Quantas vezes o Estado e as empresas têm esta ética?
    Quantas vezes pagamos duplamente, sem receber um sorriso, votos de saúde e de bom ano?
    Se aquele arrumador não era nenhum “animal”, há muitos políticos, gestores, CEOs, etc… que se comportam como as mais primitivas bestas desumanas.

    1. Saibamos estar atentos ao que nos rodeia, da Maia. E a quem nos rodeia, sobretudo. Podemos e devemos contribuir para uma sociedade melhor. Mas nenhuma sociedade será melhor sem pessoas melhores. Cumprir uma grande meta, seja qual for, depende do cumprimento prévio de muitas pequenas metas.

  4. Tens razão, Pedro, tens razão, é nos gestos mais singelos do quotidiano que se pode ver a nossa relação com os outros. É nos seus interstícios que se encontra a felicidade. Mas isso dá muito trabalho nos dias que correm a quem só se preocupa em guardar só para si o seu pedaço de sol.

    1. Pois é, Sérgio: o egoísmo é uma doença endémica das sociedades contemporâneas. Tentemos combater isso, na medida do possível. Não com retórica, mas com gestos concretos.

  5. Pois é, caro Pedro.

    Devemos querer fazer isso tudo, depois de mudarmos. E só damos conta que mudamos quando distinguimos o que tem valor do que tem preço. O que vai sendo coisa rara em regimes que vivem com etiquetas de preço mesmo no que tem valor.

    Eu sei, Pedro, já é difícil ver alguém viver por uma causa custe o que custar. Por isto não nos admiremos por ver viver por qualquer preço.
    Abraço

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