Um estranho filme


fiodeprumo,

Num destes dias de “festas felizes” fui ver o filme dos manos Ethan e Joel Cohen. Por norma não perco nenhum. Têm sempre uma forma curiosa de abordar as histórias que contam e um humor quase trágico com o qual me identifico.

Este chama-se «Inside Llewyn Davis», e é difícil defini-lo. A branco e preto, de uma lentidão soberba, com um protagonista fabuloso na forma como canta e interpreta, narra uma semana de vida de um músico falhado. 
Em condições normais, este enredo seria suficiente para não pôr os pés no cinema. Dramas e miserabilismo já todos temos dose diária que chegue. Mas um filme dos Coen tem de ser bastante mais do que isto, e de facto é. É também uma narrativa sobre a mediocridade humana e a falta de consciência dela.
Claro que podemos perguntar-nos porque é que se faz uma película sobre este tema. Eu perguntei-me. Mas não encontrei resposta. E contudo, sinto que é um filme que deve ser visto.
Saí da sala um pouco perplexa, incapaz de dizer algo mais que não seja, “é lento, mesmo maçador, mas não pode deixar de se ver”.

Entendem? Eu não, mas é a verdade!

6 comentários em “Um estranho filme”

  1. É um filme interessante, mas longe de ser um dos melhores dos irmãos Coen. Muito longe mesmo. Quanto a mim, isso deve-se ao facto de nunca estabelecermos qualquer grau de empatia com o protagonista (mais depressa isso acontece em relação ao gato), um homem vazio de sentimentos e de expressão, que se limita ao vogar dos dias.
    O lado mais interessante do filme acaba por ser um pouco este: é um retrato de uma certa mediocridade existencial. Alguém que falha em todo os planos – artístico, afectivo, profissional, social.
    Um dos momentos mais interessantes do filme é o do longo frente-a-frente, quase em silêncio, entre pai e filho que no fundo nada têm a dizer. Tal como o protagonista não sente sequer a mais remota curiosidade em conhecer o filho de dois anos que sabe ter vindo ao mundo, inteiramente por acaso, da boca de um médico especializado em praticar abortos.
    Enfim, um “estranho filme”, como dizes. E bem.

    1. «alguém que falha em todo os planos – artístico, afectivo, profissional, social» – não há biliões de pessoas dessas?

      «longo frente-a-frente, quase em silêncio, entre pai e filho que no fundo nada têm a dizer» – não há mais casos destes do que o contrário?

      É só abrir os olhos. Fingimos que não vemos estas verdades, preferimos viver em ilusões. Talvez o filme seja desconcertante por causa disso: obriga-nos a enfrentar a verdade. E, no entanto, continuamos a não querer ver. No fim, dizemos: «é apenas um filme; um filme estranho».

      1. Cristina
        Enfrentar a mediocridade do dia a dia é já difícil. Não ter consciência dela é muito doloroso. É essa dor que o filme nos inflige, porque real e nossa conhecida. E é por isso que julgo que a obra deve ser vista!

        1. E eu fiquei curiosíssima. Confesso que ainda não vi o filme e escrevi o meu comentário baseada no seu post e nas afirmações do Pedro Correia. Além disso, também sou fã dos irmãos Cohen.

          1. Cristina, vá ver. Há filmes e livros que devemos ver – apesar de um pouco enfadonhos – porque detrás das imagens existem mensagens que são importantes, se quisermos compreender um mundo que, por norma, “nos passa ao lado”!

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