Há dias difundi aqui um anúncio de jornal que me impressionou. Logo alguns comentadores se apressaram a insinuar que a história não parecia crível. Duas pessoas cultas, com tantas habilitações e a oferecerem-se para caseiros? Soa a demasiado desespero para quem – e agora insinuo eu – aprova esta austeridade musculada mas não gosta de se expôr à informação sobre os seus efeitos adversos na sociedade.
Pois a SIC decidiu e bem ir à descoberta do casal e ontem, no Jornal da Noite, divulgou a sua história. Pormenor não dispiciendo: os autores deste insólito anúncio garantem que nunca viveram acima das suas possibilidades. Tiveram apenas um azar, ficaram os dois desempregados na casa dos 50.

E, já agora, quanto custa meia página de publicidade no Espesso?
Pesquisando no Google, chega-se facilmente à conclusão de que andará entre 9890 e 13310 euros. Nada mau.
O anúncio, se é o que vi, está longe de ser de meia página (ainda assim não deve ser barato). Por outro lado, não me chocaria nada vê-lo (ao anúncio) no Herald Tribune ou no Figaro. O estranho é que tenham escolhido o Expresso (ou talvez não, porque já deu para aparecer no Jornal da Noite). Desejo-lhes muito boa sorte, penso que a terão porque fizeram por isso.
É ver a reportagem da SIC ATÉ AO FIM.
Eu vi, do princípio ao fim. Ao minuto 00.33 vê-se uma página de jornal com o anúncio, que será de 1/8 de página, no máximo. O facto de a jornalista dizer que se trata de um anúncio de meia página não quer dizer nada: o que os jornalistas dizem não se escreve (ou não devia escrever).
A reportagem tem 7 minutos e 38 segundos e vê-la até ao fim não é vê-la até ao segundo 33.
Insista, insista…
Mmmm… Apesar dos resultados do PISA, as competências de leitura parecem estar mesmo muito por baixo… Eu disse que vi a reportagem do princípio ao fim. O facto de ao minuto 7.30 (obrigou-me a abrir o link outra vez só para pôr aqui o número exacto!) a jornalista dizer que vão pôr um anúncio de meia página não impede que ao minuto 00.33 mostrem um anúncio de 1/8. Uma das duas coisas é uma invenção jornalística. Eu tendo mais a ver para crer do que a emprenhar pelos ouvidos, mas isso sou eu.
IsabelPS tem razão e eu estava errado, reconheço-o sem rodeios. O que sucede é que a peça induz em erro ao apresentar um anúncio que notoriamente não é de meia página no Expresso e ao acabar a falar de um anúncio de meia página no Expresso.
Quem não tenha lido o Expresso (jornal com que cortei relações há muito) fica com a ideia de que se trata de 2 coisas distintas: aquele seria um anúncio numa publicação qualquer e o tal espampanante anúncio no Expresso viria a ser a “última cartada” do casal (pessoas que obviamente não conheço, nem de vista).
Afinal foram só 500 euros 😉
http://www.ionline.pt/artigos/portugal/r ui-maria-investiram-os-ultimos-500-euros-n um-anuncio-emprego-0
Muitíssimo bem jogados, aliás, espero que resulte.
A reportagem da SIC deixou bem claro, nas declarações do homem, que ambos se tinham despedido aos 40 anos (não ficaram desempregados aos 50), vendendo tudo em Portugal e lançando-se num empreendimento turístico no Brasil (Fortaleza, salvo erro), que depois abandonaram. E quando regressaram (penso que ele disse que foi em 2009) já estava tudo a correr mal por cá. O erro, ou um dos principais erros, terá sido o deslumbramento da aventura brasileira. O resto, de facto, é chato mas não são primariamente vítimas da crise (ou da Crise).
E é errado para quem tanto elogia o regime liberal alguém deixar o emprego aos 40 para se lançar no empreendedorismo? Quando corre mal o empreendedorismo (agora tão bem visto) passa a ser designado por “deslumbramento” e “aventura”?
Sim, em rigor “estão sem trabalho na casa dos 50”, o que na prática vem a dar no mesmo.
Não há mal nenhum em arriscar se for feito com cabeça e como não sei os detalhes não os posso criticar, antes um elogio moderado ao risco.
À autora deste post só há criticas a fazer. Mais uma vez a demonstrar como gosta do endividamento chegando mesmo ao ponto de usar um caso onde não está demonstrado qualquer relação com uma subida menos acentuada da dívida que a cultura da autora chama de “austeridade”.
Embirrar com esta austeridade desenfreada e inútil não é o mesmo que louvar o endividamento. Quando é que deixa de ver a realidade a preto e branco, Lucky?
Se o défice é de 5% e pensa que tal valor é austeridade então a única alternativa é querer um défice maior. Preto e Branco.
Ou seja uma subida ainda maior da dívida da que já faz este pobre Governo.
Talvez quando o défice estiver próximo dos 10% – o que quer dizer que o Estado pede emprestado 20% do que gasta – já fique contente. Ou talvez não…
Sócrates chegou aos 12% mais o que escondeu nas EP’s e muitos ainda queriam mais…
Quer o passado que nos levou onde estamos.
Claro que isto é tudo académico, já ninguém nos empresta dinheiro para pagar 20% do estado. É só o choro da aristocracia de esquerda.
Menos austeridade e mais economia não é uma receita exclusiva da “aristocracia de esquerda”, longe disso.
Teresa, a primeira coisa que me ocorreu quando li o seu post foi “Estamos a ficar muito americanos”.
Permita-me que lhe diga que escolheu mal o alvo. Infelizmente, há muitos casais que tiveram “esse” azar de ficarem desempregados numa altura em que é difícil voltar a encontrar trabalho, mas este não é o caso. Por acaso (no sentido de que é raro eu ver TV) vi a reportagem e o sr. disse textualmente que se decidiu pela “auto-reforma” aos 40. A esposa era chefe de estação dos CTT e decidiu deixar o emprego.
Não quero julgar ninguém, apenas opinar que o sentido do seu post não corresponde aos factos evidenciados na reportagem.
P.S. Quando se diz que “vivemos acima das possibilidades”, não se refere um indivíduo ou família em particular, mas a economia como um todo. As famílias que não se endividaram beneficiaram do influxo de capital que veio financiar o consumo das endividadas, através de maiores rendimentos (do trabalho, do património, do capital). Permita-me sugerir-lhe a leitura do Boletim de Inverno do Banco de Portugal – eles deram-se ao trabalho de explicar para leigos o significado desta expressão
Caro Beijokense, desempregado em sentido lato significa estar sem emprego. Se a situação do casal é dramática é porque actualmente neste país mesmo os mais qualificados não encontram trabalho compatível com as suas habilitações. O facto de já estarem os dois na casa dos 50 só vem dificultar ainda mais as coisas. Chegarem ao ponto de considerar trabalharem como caseiros para assegurar um tecto e um ordenado pareceu-me um bom exemplo do que é uma decisão ditada pela desespero e falta de perspectivas para gente qualificada. Não percebo, pois, o que é que no seu entender não faz sentido no meu post ou induz as pessoas em erro.
Dizer que “vivemos acima das possibilidades” quando a intenção é deixar no ar a ideia de que a culpa e a irresponsabilidade foi de todos, desde os governantes que assobiaram para o lado, os bancos que encorajaram até à náusea o endividamento das famílias até aos mais humildes e incautos cidadãos é uma indignidade. A ideia, como sabe, tem sido mil vezes repetida e ao mais alto nível, portanto faz sentido neste contexto ressalvar que apesar do que se diz acerca da responsabilidade partilhada da dívida, o casal do anúncio não vivia acima das suas possibilidades.
Há coisas que me fazem alguma confusão, como sejam:
A renda mensal de uma MORADIA NA BICUDA, de contrato iniciado em 2009, são 800 euros?!
Um casal sem filhos que vendeu COM MAIS VALIAS o património herdado e paga 800 euros de renda de casa e não paga empréstimos nenhuns como é que rebentou com tudo o que tinha em 4 anos?!
Pormenores que não são explicados em detalhe, nem era suposto. Facto é que vão ter que deixar tudo, casa e carro, daí a ideia de se proporem para caseiros e assegurarem de uma assentada tecto e sustento.
Porra para os portugueses:
Vêem em tudo maldade, vigarice e segundas intenções!
Invejosos! Principalmente os que não passam da mediocridade!
Emigrem!
ERRADO! Aqueles emigraram e deram-se mal.
E disse
O
foi para o comentário do am, que subscrevo. O sapo é que me trocou as voltas.
Não vi a divulgação deste caso, mas casos como esse é o pão nosso de cada dia neste país. Se as pessoas não arriscam são malandros se arriscam é porque não sabem fazer as coisas. É muito mau, quando todos nós nos devíamos unir em prol do bem comum, mas não, somos bons é em destruir o outro. Aqueles que acreditam que esta austeridade é positiva, um dia quando acordarem da hibernação onde estão mergulhados, vão ver que afinal estavam errados, pois o país está morto e para que ressuscite vai ser duro. O mal de tudo isto, é que tanto sofre o justo como o pecador.
“Se as pessoas não arriscam são malandros se arriscam é porque não sabem fazer as coisas” -tal e qual, Ana. São dois pesos e duas medidas. É que os exemplos de empreendedorismo mal sucedido não servem a ideologia reinante.
Faz-me uma confusão do caraças que um casal que vive das poupanças e não tem fontes de rendimento continue a viver numa casa que custa 800 euros mensais, quando facilmente se arranjam, noutros pontos do país, casas por um terço desse preço.
Também me faz confusão que o mesmo casal continue a ter um carro e a utilizá-lo para coisas tão fúteis quanto seja deslocar-se a um paredão para andar a pé.
Finalmente, como já um comentador acima disse, este casl não ficou desempregado aos 50 anos de idade, antes decidiu, muito antes disso, abandonar os postos de trabalho que tinham, por conta própria, no Brasil por considerarem esse país muito inseguro.
Como decidiram arriscar num negócio e emigrar depois dos 40 – atitude tão bem vista pelas bem pensâncias do momento – tiveram o que mereciam. É isso, Lavoura? Quanto à casa e o carro, como percebeu, vão ter que largar, por isso não se enerve.
tiveram o que mereciam. É isso, Lavoura?
Não, não é isso.
Apenas fiz notar que a sua descrição da situação não está correta. Eles não ficaram desempregados, eles decidiram abandonar a empresa que detinham.
Desempregados, em sentido lato é estarem sem trabalho.
Meu caro Luís Lavoura: pela sua lógica, ninguém que queira optar por outra vida, o poderá fazer e tem de se acomodar. Todos, mas todos, temos direito um dia a tentar algo que nos realize mais e se der errado, o nosso país terá de nos acolher, tal como um dia acolhemos os vindos do ultramar. Será que nesta vida, só resta ao comum mortal trabalhar sofrer cortes e engordar as fortunas de outros, com o suor daqueles que vão perdendo tudo. Sejamos razoáveis e humanos ao ponto de nunca acusar o outro que utilizou um carro para se deslocar a um paredão porque acima de tudo eles são seres humanos e como tal têm direito a ter alguma coisa que um dia tiveram e hoje por ironia do destino perderam. Nunca nos devemos esquecer que hoje são eles, amanhã poderemos ser nós.
a SIC decidiu ir à descoberta do casal
Olha que grande descoberta! Pertencendo a SIC à mesma empresa que o Expresso, era só questão de procurar os dados do anunciante na porta ao lado…
Mixed feelings, muito mixed mesmo. Não sei o que pensar deste casal entre o arrogante e o patético, entre a coragem e o exibicionismo. Porque há de tudo isto no anúncio de jornal e na reportagem televisiva, pela boca dos próprios.
Exibicionismo ou marketing pessoal? Eu que até embirro com o conceito, neste caso percebo a sua pertinência.
hoje vi-os a pedir no Rossio.
Não sei se se tornaram sem-abrigo, mas parecia.