Algo de novo à esquerda


André Couto,

Há um novo Partido à esquerda, o Livre.

Não sei se o Rui Tavares tem envergadura política para conseguir ocupar o espaço que reclama, um espaço cada vez mais vazio, fruto de um percurso errático do PS e da indisfarçável inconsequência do BE. Sozinho não conseguirá, mas não me surpreenderia que figuras com mais peso se juntassem nesta cruzada, vislumbrando-se, já, José Sá Fernandes e Joana Amaral Dias. Basta ver que a papoila, símbolo do Partido Livre, é o mesmo do Manifesto Para uma Esquerda Livre, onde participaram insuspeitas figuras, como testemunham os registos. Ao tempo, assinei esse Manifesto, por concordar com as suas premissas, mas a criação de um partido não era uma delas.
A verdade é que há espaço para um CDS à esquerda. Um Partido que radicalize o discurso com parcimónia, que proponha alternativas viáveis, que aponte caminhos e, acima de tudo, que não assobie para o lado chegado o tempo de governar. Sim, “governar” não pode assustar a esquerda além PS. Chamar-lhe-ão uma muleta do PS, talvez, mas se for para o pôr em sentido, influenciar positivamente a sua governação e ajudar na viabilização de soluções, a democracia e a governabilidade País sairão a ganhar. É por isso que a resposta a esta pergunta do David Dinis deve ser afirmativa: é um passo atrás, fomentando a divisão, sim, mas para criar possibilidades de união no futuro.

21 comentários em “Algo de novo à esquerda”

  1. “…figuras com mais peso se juntassem nesta cruzada, vislumbrando-se, já, José Sá Fernandes e Joana Amaral Dias.” – LOL

    1. Caro Vasco, José Sá Fernandes é Vereador da CML há muitos anos e Joana Amaral Dias foi Deputada à Assembleia da República. Podem questionar-se os seus perfis, pode gostar-se, ou não, da sua postura, mas não são irrelevantes no quadro político.

      1. Tirando o inusitado patrulhamento de costumes de Fernandes, não me recordo de nenhuma singularidade (ou relevância política particular) em nenhum deles.

          1. Retribuo o abraço, mas não percebo o que ” devolver a cidade às pessoas” possa querer dizer, se calhar é a luz verde para as pessoas e para os automóveis ao mesmo tempo no Saldanha, precisamente quando os transeuntes estão de costas para o tráfego.. 🙂

          2. Eu explico, Vasco! Refiro-me aos inúmeros quiosques plantados por toda a cidade, às zonas exclusivamente dedicadas a peões, como o Terreiro do Paço, à Ribeira das Naus, à conclusão das obras paradas em múltiplos miradouros, entre muitas outras coisas… Lisboa é hoje uma cidade para as pessoas e amiga das pessoas. É recuar 7 anos no tempo e comparar, saber avaliar o bom, e não pegar apenas no mau, que existirá sempre! Um abraço!

          3. Não partilho desse entusiasmo, lamento. Acho que actual gestão da câmara é manifestamente inútil e inexistente e todas essas melhorias que indica (2 ou 3) não eram projectos de Costa & Co. mas obras que se arrastavam há anos por incompetências sucessivas. Algum dia tinham de terminar, calhou agora que veio o dinheirito do Aeroporto. Das únicas boas ideias que apareceram durante a gestão de Costa (o Terreiro do Paço e trocar o piso dos passeios), a primeira não lhe pertence —pertencia antes a arquitectos e muitas sugestões ligadas à substituição dos ministérios por lojas, cafés e espaços culturais e artísticos são ideias que apareceram fora do Brainstorming vertiginoso do gestores municipais; quanto à segunda ideia —tão boa que duvido que seja mesmo do Costa—, vai ser um sururu dos diabos para convencer as pessoas de que a calçadinha não tem interesse nenhum e provavelmente vai andar nas Calendas até o neto do Costa chegar à Câmara porque isto normalmente é de ‘família’. De resto, a cidade está tão tristonha e esburacada como estava nos anos 80. Minto, agora há mais mendigos a dormir nos jardins e já lá estavam antes da troika, se quiserem saber.

    1. Um Partido só de jovens não iria a lado nenhum, nem seria saudável. Não vejo mal no facto de os mais velhos transmitirem o testemunho aos mais novos e orientarem a sua acção. Vamos ver quem serão os rostos…
      Obrigado pelo seu testemunho.

  2. “e, acima de tudo, que não assobie para o lado chegado o tempo de governar”. Alguma vez a esquerda PCP ou BE tiveram hipótese de governar para assobiarem para o lado? Nunca, porque a mensagem que os comentadores e políticos transmitem é que eles são muito maus e personas não gratas, mas o mais caricato é que presentemente ninguém tem medo da esquerda da China e é tão boa que os negócios com eles proliferam. Não sou simpatizante nem do PCP nem do BE, mas penso que chegou a hora de dizer basta a PSD,CDS e PS é que até hoje foram eles que lá estiveram e levaram o país a este estado degradante. Que venha alguém sério que ponha ordem nesta desordem e que se dê oportunidade de outros mostrarem que vale aquilo que os outros dizem que não valem

    1. Cara Luísa, a esquerda já foi chamada várias vezes a governar, seja o País, sejam várias cidades, quase sempre com a mesma reposta. Este parece-me ser um facto demasiado recente para ser contestado. Quer que lhe relembre o discurso do “nós só aceitamos se o PCP também aceitar”?
      Obrigado pelo seu testemunho.

      1. Caro André, quer queiramos ou não, as câmaras do PCP são as melhores do país. Isto é um facto indiscutível. Não tenho nada a ver com o PCP, nem BE, que fique claro, mas também sei que PSD, PS e CDS, nunca quis, nem quer, coligações com os referidos partidos, mas também eles esqueceram as suas bases, as quais estão destroçadas. Estou a pensar livremente sem pensar se é esquerda ou direita, mas se formos correctos, sabemos que é a pura realidade. Pergunto: se os partidos que nos têm governado nos levaram a este estado, estamos à espera de quê? Que continuem a fazer mais do mesmo? Provavelmente somos masoquistas, se não somos masoquistas venham eles, livrem-nos deste pesadelo que nunca mais acaba e nos levam à penúria.

        1. Luísa, não leve a mal uma pequena provocação que lhe vou fazer: os Partidos são feitos de pessoas, se faz esse diagnóstico, com o qual não me atrevo a discordar, é porque as boas pessoas deixaram de se preocupar com a acção política, ficando sentadas nos sofás. Todos são culpados, os que estão nos partidos e os que deixam as suas vidas nas mãos dos outros sem tentarem fazer diferente.
          Obrigado pelo seu testemunho.

          1. Não me fez provocação nenhuma, antes pelo contrário. Claro que somos culpados, por isso mesmo, eu escrevi que provavelmente somos masoquistas…….

  3. Não nos espantemos portanto, André, que perante a possibilidade de uma impossibilidade de uma união futura, surja nesse futuro um outro partido unionista para concretizar o que os clássicos e mais o PL entretanto não conseguiram… Dito de outra maneira: será este o caminho? O eleitorado parece-me céptico. Abraço

    1. Compreendo a sua pergunta, Fernando Sousa. Não tenho a certeza que seja este o caminho, mas tenho a certeza que com os players do costume, BE e PCP, seria impossível qualquer acordo com o PS… No futuro será importante que a esquerda possa formar maiorias de governo e, estando o voto cada vez mais disperso, o PL pode ter um papel importante. Também eu estou céptico, mas simultaneamente curioso. Um abraço!

      1. Tarde cheguei a este debate, talvez por não ter tempo e disponibilidade de uma temporada a esta parte e, dependa de almas caridosas para me fazerem chegar as novidades.
        Confesso que acho deliciosos os argumentos e asserções do André Couto, especialmente quando diz que um entendimento seria impossível com PCP ou o BE.
        Quanto ao último não posso, obviamente, falar, mas quanto ao PCP o André saberá tão bem como eu que o que impede um entendimento é a recusa da ideia em se trabalhar numa base programática comum e de esquerda a ser executada depois de eleições. É que Governos não se fazem em torno de quantos votos tivemos e quantos tiveste e quantos assentos temos somados. Fazem-se em torno de qual é o programa que vamos implementar e o que visa este programa. Daí a dificuldade, até porque o PS não parece querer demarcar-se das políticas que vem implementando enquanto Governo nas últimas três décadas e meia, e nas quais o PCP não se revê ou entende positivas para o nosso país e o nosso povo, como aliás parece evidente.
        Se pôr o PS em sentido como o André diz é trazê-lo a uma política mais à esquerda, não é necessário nenhum outro partido, bastaria que essa fosse a vontade dos militantes do PS, que creio são ainda os detentores do poder dentro do partido.
        Quanto a um partido para obter eleitorado para viabilizar as políticas levadas a cabo até hoje, sob uma retórica mais à esquerda, medrando no descontentamento do eleitorado nestas políticas e na desconfiança induzida e alimentada em relação ao PCP, seria, do meu ponto de vista trágico a dois níveis: Um quando as pessoas se sentissem enganadas e traídas nas suas expectativas; dois, numas próximas eleições quando este partido se esvaziasse, o PS perdesse eleitorado, a abstenção aumenta-se e os partidos à direita do PS ganhassem mais ainda com menos votos.
        Pode dizer o André, bem como os demais leitores, que o PCP ganharia com isso. Mas ganharia exactamente o quê? Mais votos? Mais deputados? Mas de que serviria isso numa correlação de forças extremamente negativa, para o nosso povo? É que o poder não serve apenas para o deter, serve para cumprir um programa elaborado e sufragado pelo detentor da soberania de acordo com a Constituição de 1976.
        Dito isto fica claro que não é ao PCP que cabe a recusa de Governar com PS, com BE ou outro partido de esquerda
        (Que o seja em actos) mas na incapacidade de o PS se propor a elaborar à sua esquerda um programa que sirva a uma governação conjunta, que rompa com as práticas e políticas do seu passado recente, com ou sem listas comuns para legislativas.

  4. começar qualquer alternativa ao panorama partidario com esquerda/direita consceitos que alem de já não quererem/atrairem ninguem com raciocinio de eleitor é prova de que querem ser um bloquinho para um dia virem a ser como os grandes; que como se verifica subiram até ali e nunca mais vão fazer nada que não seja uma copia reles dos que tentam dizer mal.Claro que a liberdade é excelente e vai com tempo fazer que a cortiça suba superficie e se possa conferir.

    1. Caro cristof, compreendo a sua dúvida. Acho, contra a maioria da doutrina actual, que o conceito de esquerda/direita nunca foi tão pertinente e importante como hoje. É a aparente falência desses conceitos, e destrinças, que faz com que o PSD possa actuar como o actual governo faz, ou o PS, um partido social democrata, possa deixar cair o Estado Social quase sem lutar, seja em Portugal seja na Europa. Vamos ver o que nos traz o tempo.
      Obrigado pela sua opinião. Um abraço.

    1. Compreendo o que quer dizer, cristiana fernandes. Acho que essa é uma dúvida pertinente, tal como será importante verificar se se mantém activo no pós-Europeias, seja qual for o resultado.

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