Entretanto, algures na Nazaré, à espera de uma vaga de fundo


Rui Rocha,

– Então pá, já se vê a vaga de fundo?

– Deixa ver… não… espera aí, vem ali uma, vem ali uma! Ah, bolas…

– O que foi?

– O McNamara apanhou-a.

– Pulha, bandalho, filho da m…

– Tem calma, Zéeeee! Tem calma, Zéeee! As pessoas ouvem-te assim e depois irritam-se contigo. Aproveita e vai ler o tal texto do Voltaire que te vai ajudar muito. Aquele pequeno texto que fala de um velho filósofo e de uma jovem senhora, ela numa grande infelicidade por causa de um amor não correspondido. Aquele que disseste à Clarinha que tinhas lido. Que sacana…

– Pá não, não me apetece. Vou antes ler o texto do Ascenso Simões sobre o meu regresso.

– Se fosse a ti não fazia isso…

– Então? O gajo não apela ao meu regresso? Não descreve este tempo histórico como uma imensa manhã de nevoeiro que só a minha luz própria, natural e incandescente pode dissipar? Eu, eu, eu, a estrela maior do firmamento!

– Olha, Zé. Eu bem te disse que o gajo era um bocado trapalhão. Ou a ligação telefónica estava manhosa e o gajo não percebeu, não sei… O certo é que confundiu firmamento com parlamento e eu, eu, eu com europeu. Para ajudar ainda te puseste a falar de estrelas…

– Então…

– É, o Ascenso propôs o teu regresso para o Parlamento Europeu. É uma espécie de vá para fora cá dentro. Mas ao contrário.

– Bandalho, pulha, filho da m…

– Ihihih…

– Han?

– Nada, nada. Ocorreu-me uma coisa tipo Ascenso e Queda. Nada, nada, deixa lá.

– Então e o livro?

– Fraquito. As vendas não arrancam.

– E aquela coisa do Zorrinho no twitter não ajudou?

– Olha, Zé… francamente, acho que o caminho não é por aí. Já pareces o Maduro da Venezuela. Cara de Chávez aparece em parede do metro. Livro de Sócrates aparece em mão de taxista. Naa, não me parece.

– Então…

– Pá não sei, deixa-me pensar um bocadinho. Temos que inovar. Não sei, não sei… talvez um jogo de tabuleiro. Depois do livro, lançavas um jogo de tabuleiro. Sócrates, o jogo de tabuleiro.

– Tipo gamão?

– Naa. Deixa lá. Não é boa ideia. Podia ser um livro de colorir. Ou um porta-chaves. Ihihih…

– Han?

– Nada, nada. Ocorreu-me uma coisa tipo porta-chávez. Nada, nada, deixa lá.

– Bah! Assim não vamos lá…

– Podias vender cuecas, como o Ronaldo. Mas depois daquela conversa de ter lido quatro livros do Freud a coisa pode descambar.

– Bah! O Freud é um pulha.O Kant é um bandalho e podem ir todos com o Santana para o…

– Calma, Zéeeee! Calma, Zéeee! Ou ainda acabas a dar palestras sobre a síndroma de Tourette financiadas pelo Lula.

– Pois, pois. Eu gostava era de ouvir soluções. Isso é que era.

– Deixa-me pensar, Zé. Deixa-me pensar. Olha lá… Tu sabes fazer twerking?


14 comentários em “Entretanto, algures na Nazaré, à espera de uma vaga de fundo”

  1. Um poema inspirado pela vaga:

    O mar tem vagas e vagalhões,
    as vagas chegam-me aos calcanhares
    e os vagalhões aos joelhos

    P.S. Claro está que o poema não pode rimar, porque a maré anda baixa.

      1. Mermão. muito obrigado pelo cuidado. Felizmente não me afoguei. Como disse, a maré anda baixa e a água não me chegou aos orelhões.

  2. Segundo notícia de hoje, o livro de Sócrates vendeu 18 000 exemplares em duas semanas. Dizer que “as vendas não arrancam”, como se faz neste post, é pois um total disparate. As vendas arrancaram, pelo contrário, muito bem.

    1. O texto não é sobre a “vaga ideia”, é sobre a “vaga de fundo”.

      Milhares de exemplares vendidos, são muitas vezes “comprados” pelos pais do ensino básico e secundário. Os Ministros da Educação, serviçais das editoras, injectam assim dinheiro nas editoras, que podem patrocinar estes lançamentos de amigo. Depois, há manobras editoriais clássicas, para promover um livro – por exemplo, comprar os livros que se vende, e voltá-los a colocar nas prateleiras… no máximo isso custaria o preço do IVA.

      Porém, no caso em apreço, 18 mil exemplares dá uns 60 por autarquia.
      Ora, deve bem haver ainda mais manos que achem dar jeito levar o livro às reuniões da concelhia. Isto já para não falar nas bibliotecas municipais, e outras formas de ser o contribuinte a pagar tais “proezas literárias”.

      1. Correcto, da Maia. Já para não dizer que 50 000 60 000 euros compram 4 ou 5 mil exemplares. Nada que não esteja ao alcance de uma mãe extremosa e com posses que pretenda dar uma alegria a um filho. Nada que o Tony Carreira não faça com os seus próprios discos.

        1. Rui, surfaste bem a onda!
          Pensei acrescentar que para sucesso da vaga só faltava querer se socorrer da Maya… (não da Gabeira), mas há que ter respeito pelo canhão.
          As previsões não estão nas cartas passadas, nem na visão de astros caolhos… estão no final, já dizia o grande filósofo, João Pinto. Afinal, a espada de dois legumes parece que só cortou os tomates, e para tenor o Kant é Caruso, “quer uso”, útil, do utilitarismo.
          Será que ainda há Ascenso na queda de um marmanjo?

      2. As razões pelas quais as pessoas compram o livro de Sócrates não interessam para o caso. Já se sabe que há muitas pessoas que compram muitos livros só para enfeitar estantes e não para os ler. O que interessa é que os compram. Isso é que faz as vendas crescer.
        Quanto às bibliotecas municipais (e outras entidades públicas), essas, por motivos burocráticos, não conseguem comprar nenhum livro em menos de um mês. De certeza que em duas semanas o livro de Sócrates ainda não pôde ser comprado por nenhuma delas.

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *