Sem ilusões de que o atraso seja de algum modo fashionable, ando a ver The Wire (vou na quinta e última série de episódios e, sim, trata-se provavavelmente da melhor série televisiva de todos os tempos*). No início da terceira temporada, a polícia não consegue obter resultados das escutas porque, para além de trocarem de telemóvel com regularidade, os traficantes de droga, em especial nos níveis médios e elevados da organização, são extremamente cuidadosos acerca do que dizem ao telefone. Numa tentativa de contornar o problema, a polícia arranja forma de prender uma chefia intermédia, na esperança de ver promovido ao seu posto um familiar de um tipo importante, com tendência para falar demais. Quando o plano é apresentado, um dos polícias pergunta: «Mas porque hão-de eles promover um incompetente?» A resposta é: «Porque não? Nós fazemo-lo todos os dias.»
O plano acaba por não dar certo porque os traficantes são afinal mais espertos do que a hierarquia da policia (ou das muitas outras organizações onde a cunha vence o mérito) e não promovem o idiota. Mas, para mim, este nem é o ponto mais curioso. O ponto mais curioso é eu contar isto à frente de chefias e elas esboçarem trejeitos de compreensão e rirem-se com um prazer que parece genuíno.
* O início do primeiro episódio, para quem nunca tiver visto (ou, tendo visto, quiser relembrar):

Sem desmerecer esta que v. aceita ser a melhor série de sempre sublinho uma ideia que se me implantou na mente que é a seguinte: quase todas as série made in USA são boas histórias, muito bem interpretadas e de méritos roçando a excelência.
Os exemplos são variados e a prova é proliferação de EMMYs que anualmente são distribuidos.
O defeito é os “cámones” não saberem parar a tempo prolongando a “coisa” para lá do entendiamento (não tenho a certeza de que esta palavra exista). E também nesta caso os exemplos são variados.
Porque as situações se vão repetindo, e o cansaço de quem actua só é comparado com o cansaço de quem vê, quando assiste para além da 5ª.
Se tenho visto a série? Sim, porém não em contínuo para não enjoar.
Cumprimentos!
§-para que o meu nickname não lhe cause stress: são 7 ésses, 5 no início e 2 no final. Ajuda?
ssssstress (obrigado pela dica):
Os emmys dizem-me relativamente pouco. Creio, aliás, que The Wire não ganhou um único. Concordo consigo quanto à tendência excessiva para ‘fazer render o peixe’ dos produtores e argumentistas das séries americanas. Mas há excepções e The Wire é claramente uma delas. As cinco temporadas (enfim, faltam-me seis episódios da última mas creio poder afirmá-lo já) são uma longa história que vai abordando questões específicas (a zona do porto e dos sindicatos na segunda, o sistema de educação na quarta, o declínio dos jornais na quinta, a política – mais em detalhe, porque está presente desde o início – a partir da terceira) mas mantém uma lógica e uma coerência quase inatacáveis. E é de tal forma complexa e pouco dada a levar o espectador pela mão que me surpreende esse propósito de a ver pausadamente. Fazendo demasiadas pausas, eu acho que teria perdido o fio à meada.
Nunca vi “The Wire”, ainda que esteja tentado há já alguns anos (idem para “The Sopranos”… sim. eu sei.). Mas agora meti-me em “The Newsroom”, e está visto que só sairei de lá quando acabar o último episódio da segunda temporada. Entretanto regressa “Homeland” e “The Walking Dead”… e tenho o caldo entornado em frente à televisão.
(quanto a isso de as séries americanas se prolongarem demasiado, “Dexter” e “House” são exemplos perfeitos de excelentes séries que descarrilaram com estrondo. E “Dexter” já nem era do tempo dos vinte e tal episódios por temporada…)
Eu também só vi uns quantos episódios de “The Sopranos”, por alturas da primeira e segunda séries. Mas planeio dedicar-lhe um par de meses em breve. Ainda assim, por fabulosa que “The Sopranos” seja, a abrangência e realismo (mesmo incluindo uma ou duas personagens ligeiramente off) de “The Wire” são quase inacreditáveis.
“Newsroom” está em lista de espera. Assim como “The Walking Dead”, de que só vi a primeira temporada completa, mais o primeiro episódio da segunda.
“The Newsroom” apanhou-me mesmo. É uma série notável. Já “The Walking Dead”… gosto, mas tem os seus momentos. A banda desenhada é infinitamente superior.
Muito bem, JAA. Qualquer dia havemos de fazer aqui uma série colectiva sobre as nossas séries de TV preferidas. É capaz de ter piada.
(e obrigado pela surpresa)
É uma ideia. Mas não sei se conseguirei escolher séries recentes, ainda que muitas sejam fenomenais, sem sentir estar a trair obras míticas como “The Twilight Zone”, “Hitchcock Presents”, “”The Avengers”, “All In The Family”, “Get Smart”, “The Singing Detective” ou “Heimat”.
“The Wire” é um verdadeiro tratado social.
Para descomprimir, aconselho um episódio de Shameless US entre cada dois de The Wire.
Yep, e de que maneira. Quanto a Shameless, obrigado pelo conselho (seria uma táctica interessante) mas vi a primeira série de episódios há uns meses – William H. Macy e os olhos de Emmy Rossum (Fiona) são irresistíveis – e ainda não tenho a segunda.