Ontem fui cortar o cabelo. Corto-o na terra onde nasci e onde os meus pais ainda vivem, num barbeiro tradicional – por hábito de décadas, falta de paciência para locais cujos donos julgam alcandorar-se a níveis monegascos de sofisticação fazendo luzir sobre a porta designações mais na moda («barbeiro» é termo não só antiquado como pobrezinho, capaz de suscitar em pessoas modernas imagens do período salazarista) e nenhuma predisposição para aceitar promessas vãs (salão de beleza? No que me diz respeito, nem com manipulação genética). O meu barbeiro tem uma hérnia e deve ser operado este mês. Já foi operado há cerca de um ano mas a hérnia reapareceu, desta feita um pouco mais abaixo, encostadinha aos testículos (ele desce a esses pormenores). Tem sessenta e dois anos e está admirado por isto lhe ter acontecido já depois dos sessenta. Um amigo havia-o convencido de que, passada incólume a fase dos quarenta e cinco aos sessenta, os homens estão livres de problemas sérios até aos setenta. «E é verdade», garantia o meu barbeiro enquanto me cortava o cabelo. «A quantidade de pessoas que a gente vê morrer de repente entre os quarenta e cinco e os sessenta… AVCs, ataques cardíacos… Está-se bem num momento e morto no seguinte. Vistas as coisas por esse lado, uma hérnia, mesmo com as dores horríveis que provoca, não é grave. Quando só este ano já morreu tanta gente mais nova, que era aqui cliente, inclusivamente. Conhecia o Manel, da loja de materiais de construção?»
Vinte e cinco minutos, durou o quase monólogo do meu barbeiro, satisfeito por poder contar-me tudo sobre a hérnia que lhe está a chegar aos testículos e elucidar-me com detalhe e exemplos abundantes sobre os riscos acrescidos enfrentados pelos homens na faixa dos quarenta e cinco aos sessenta anos de idade. Podia tê-lo mandado calar mas não quis estragar-lhe o desabafo. De resto, ele lá sabia que hoje eu chegava aos quarenta e cinco anos.

Esse “inclusivamente” é seu ou é do barbeiro?
Como não gravei a conversa e a minha memória já teve melhores dias, não garanto cada palavra – mas, em termos de sentido, é dele.
Já quase no final do dia, um beijo de parabéns.
Quanto à curiosa teoria do teu barbeiro, mesmo estando entre os 45 e os 60, penso que, como não sou homem, não tenho que me preocupar tanto…
Nah, ele foi muito claro: isto só se aplica aos homens. Desconfio – mas agora já sou eu a falar – que as mulheres funcionam é como factor de risco para os homens dos 45 aos 60 – por, tanto no caso das da mesma idade como das mais novas (embora de formas distintas: as primeiras, especialmente no caso da cara-metade, através de ataques auditivos; as segundas, mais através de ataques visuais), os levarem a ter consciência da idade e respectivos efeitos.
E obrigado.
Parabéns pelo aniversário.
Na qualidade de especialista em hérnias, permito-me aconselhar o seu barbeiro : — uma vez que a dita fica na zona testicular — a barbear* a zona pélvica… ( sem utilizar after.shaving. arde)
* (Portuguesmente falando) rapando a pintelheira. haverá uma diminuição da carga sobre os ditos e, consequentemente. um alivio das dores hernéticas.
Melhoras e parabéns
Er, OK. Não sei se terei oportunidade de lhe dizer (da próxima vez que o vir já terá sido operado) mas a sugestão proporcionou-me imagens inesperadas para uma manhã de sexta-feira.
E obrigado.
(tarde e a más horas, os votos de parabéns!)
Gabo-te a sorte, meu caro. Até ao início deste ano também ia à terra com regularidade mensal pelo mesmo motivo (e por outros). Infelizmente, o barbeiro lá da terra teve algo mais grave que uma hérnia, e após meses de baixa, reformou-se.
… ainda estou a tentar encontrar um bom em Lisboa. Aquele a que fui em duas ocasiões não é mau; mas fala tanto e demora tanto… é de exasperar um alentejano!
Entendo bem esse desabafo !
O meu ainda tem anos de actividade pela frente. E nem fala demais. Anteontem aproveitou o facto de ter a barbearia vazia (só no final apareceu outro cliente) e a minha pergunta sobre como é que iam as coisas para uma sessão de desabafo existencial. Compreensível – e, assim como assim, era ele quem tinha a tesoura na mão.
para mim ir ao barbeiro é como um acto de relaxe, ajuda a esquecer o stress. parabens pelos 45, prepare-se que agora é que elas moem
Pois eu, apesar de usar o mesmo barbeiro há décadas, não consigo relaxar-me com um tipo a manusear tesouras junto ao meu pescoço e aos lóbulos das minhas orelhas.
Obrigado. E não duvido.
Muitos parabéns. Melhor que desabafos emocionais de barbeiros só mesmo os dos taxistas. E não se inquiete que os 45 são os novos 35.
Obrigado, Helena. Pelos parabéns e pelo esforço. Mas aos 35 – essa idade de putos reguilas e pouco menos que imberbes – eu ainda nem sabia o significado de ‘dores nas costas’.
Parabéns JAA pelo aniversário.
Engraçado estava para aqui a pensar que afinal essa coisa de tanta conversa não é só nos cabeleireiros de senhoras.
Os homens afinal têm tanta coisa em comum com as mulheres, eh eh eh
Ei, eu só lhe perguntei como é que ia a saúde. Depois estive quase sempre calado. 😉
Obrigado, cr.
25 minutos???? Tinhas assim tanto cabelo????
Por acaso, apesar da avançada idade, ainda tenho uma quantidade muito razoável. E ele estava especialmente lento – sem outros clientes (excepto já perto do fim) e com vontade de desabafar.