A cabeça. Não se pensa na cabeça. Há o cabelo, a cara, os dentes, o sorriso, o pedaço de alface que ficou no dente. A cabeça? Não. Talvez quando se compra um chapéu, para saber que número temos, qual o que nos cai melhor. Seja como for, dou comigo a pensar na minha cabeça pela simples razão de estar há três dias em dor permanente. Sim, uma queixa lamecha, peço desculpa.
Mas isso não é o mais relevante. O que importa é saber a quantidade de coisas que se conseguem fazer, apesar de uma dor de cabeça contínua, sem que seja perceptível se estamos em esforço. Será que as pessoas ainda se olham nos olhos? Ainda reconhecem no outro um possível desconforto? Não faço ideia. O que posso dizer é que falei com muitas pessoas hoje, atendi telefones, andei de carro, entrei numa loja cujo alarme gritava de tal forma que julguei enlouquecer, almocei e jantei, li e revi, fui e expliquei. Não deixei de trabalhar. No fim, uma mulher disse-me
As dores aguentam tudo.
Fiquei a pensar nisso e na minha cabeça. As dores aguentam tudo? Então, vi-me como uma dor ambulante e quase que tive uma noção do que é ser infeliz. Imaginei – fácil, numa pessoa como eu – como seria a minha vida sem dor de cabeça. Acho que tudo se mantinha. Dito isto, não é um drama, são dores que vão e vêm. Para me lembrar, quem sabe?, que a dor aguenta o resto da vida. Mesmo sem cabeça.

E também nos doem partes do corpo que nunca pensámos que podiam doer, partes de dentro que conhecemos dos livros, das aulas de ciências, da televisão. Partes sem as quais não podemos viver. Como a cabeça. Que não têm transplante. Como a cabeça. As dores vêm de dentro e só quando nos dói o pé, porque partimos um dedo, desaparecem um bocadinho, mas não desaparecem de vez. Ficam a pairar, em suspensão. E continuam a existir com a dor no pé. No dedo que partimos. Ficam duas dores: uma de dentro, outra de fora. Quase o poema do Pessoa, mas sem rima, nem métrica. Sempre a par dos nossos dias. Sempre cá dentro. Sempre.
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Grande final, Patrícia.
Patricia, minha querida
Se escreves esta prosa com dor de cabeça o que não terias escrito sem ela?!
Cada vez gosto mais da tua prosa. Estás como o vinho do Porto. Melhoras com a idade. Nem todos têm essa sorte. Nem todos se esforçam por isso!
Título:
Deambulações existenciais
Muitas vezes, as dores de cabeça são o acumular de várias dores, isto é, quando se está com uma dor de cabeça, muitas vezes, é-se tntado a dar uma cabeçada, julgando que a cabeçada tira a dor. Assim não é, porque acrescenta-se somente outra dor àquela já existente.
Terapia:
Dar um coice ao que provoca a dor e não mais cabeçadas.
Um mezinha Helder/Leão para estremecer a cabeça. s4&feature=share
http://www.youtube.com/watch?v=3IwEkkom8
Vou experimentar a mezinha e o coice:)