Nem sei bem porquê mas a verdade é que nunca tinha lido, até agora, uma obra de Agustina Bessa-Luís. Talvez tenha sido o ano passado ou no ano anterior que, na Feira do Livro, resolvi comprar os Contos Impopulares. As duas palavras despertaram-me a atenção. Eram contos, género que, se não é o meu preferido, está entre os meus preferidos, e eram impopulares o que, à partida, os afastava das histórias mais clássicas com um final ligado a alguma moral. É desta que vou ler Agustina, pensei.
Não resisto a deixar aqui o mais pequeno destes contos que diz tanto, mas tanto…
O CORTEJO
– Quando passará? – perguntava a si próprio. Em vão arredava a fímbria da cortina, e olhava. A vidraça, onde aderiam as pequenas moscas dos estábulos, era baça, como que porosa e penetrada de bolhas de ar. E a rua era excêntrica, isolada, poeirenta, com margens de terrenos baldios onde cresciam, como abetos ponteagudos em miniatura, arbustos calcinados; as múltiplas flores bravias rompiam das valas, fulgurantes e apenas perceptíveis. Quando passará, quando virá o cortejo? – perguntava. Ali estava desde a madrugada, procurando divisar o cortejo que desceria das bandas da cidade, com as suas flâmulas brilhando e voando, enchendo o horizonte de cores inesperadas e palpitantes. Alongou-se o dia, as sombras mudaram de lugar; os cães de pastor trotavam circundando os campos, vigiando os rebanhos. A rua, deserta, com as suas velhas paredes que se desmoronam, mantidas ainda pelas garras das heras e a aglomeração dos silvados. «Quando virá o cortejo, quando será?» Cansado, ele inclina um momento a cabeça sobre o parapeito, e adormece. Não por muito tempo, não por muitas horas. Quando volta a arredar a orla da cortina, a olhar pela janela a rua desamparada que se perde na distância entre arbustos calcinados e flores apenas perceptíveis, ainda que fulgurantes, ele, perplexo e inquieto, indaga de si próprio: «Já teria passado o cortejo, quando teria passado?!» Abre a janela, e os vidros, mal seguros pelo betume ressequido, caem no chão, sem ruído, sobre a poeira. Todo o sol parece revolto, e um rasto de pegadas como que ondula e se entrecruza e se perde, por fim, varrido nos turbilhões de pó. Ele experimenta na boca, ao respirar, o sabor áspero e absurdo desse pó. Depois, fecha a janela, e, por detrás das vidraças partidas, continua a esperar.
in, Agustina Bessa-Luís, Contos Impopulares, Guimarães Editores, 2004, pág. 25-26
E agora que vou iniciar as Últimas Entrevistas a Roberto Bolaño gostava de saber o que andas tu a ler, Ana Vidal?


Gostei muito deste grande microconto da Agustina, Ana. Esta nossa série colectiva tem piada também para trocarmos uns com os outros pequenas experiências literárias, como agora sucedeu.
Eu também gostei muito, Pedro. E sim, estas “trocas” são sempre enriquecedoras. 🙂
Gosto muito da Agustina e já li muitos livros dela.
Devo ter lido estes Contos Impopulares em 2004, data em que comprei o livro.
No Natal passado, ‘tropecei’ num livrinho delicioso, na secção para crianças, e resolvi comprá-lo.
Chama-se «Dentes de Rato», tem belas ilustrações da filha Mónica Baldaque e é para todas as idades.
Se puder/quiser, dê uma espreitadela.
Boas leituras!
Antonieta
Obrigada pelo comentário e pela sugestão, Antonieta. Por acaso já tive o livro nas mãos numa livraria. Mas não o comprei.
Ana, permita-me um comentário fora de contexto: parece que agora é que a barca do «Tempo Contado» atracou de vez, o que é mesmo uma pena…
🙁
Antonieta
🙁 Ainda não tinha dado conta. Resta-nos esperar que ainda volte a largar…
A Agustina é uma escritora surpreendente, e isso está bem patente neste pequeno-grande conto.
Em breve darei conta do que ando a ler (outra grande escritora, de uma geração diferente).
A mim, Ana, que tomei contacto agora com a sua escrita, deu-me vontade de a conhecer melhor.