Maus hábitos jornalísticos


joaomsandre,

No caso do acidente ferroviário em Espanha, aquilo que mais me incomoda é a forma como a vida do condutor tem sido completamente devassada pela comunicação social. Ainda antes de se saber o que tinha sucedido (além da existência de muitos mortos) já se sabia quem era o condutor, que idade tem, que tinha colocado uma foto na sua página do Facebook, etc. Perante o tratamento dado ao caso pela comunicação social, é normal que o público tenha reagido como uma turba raivosa com ganas de enforcar o condutor da árvore mais alta da Galiza.

 

Neste aspecto não seria de desdenhar o hábito que eu vejo na Holanda. Perante um acusado de um crime, a comunicação social dá habitualmente o primeiro nome e a inicial do apelido, desfocando sempre as fotografias em que ele (ou ela) apareça. A lógica é simples: se a pessoa for considerada inocente (ou mesmo que cumpra pena e depois saia em liberdade), é importante que possa voltar a ter uma vida normal. Como tal, faz sentido que a sua identidade seja mantida em segredo.

 

Não sei se é um compromisso dos media ou uma determinação legal. Para bem da justiça, no entanto, seria bom que fosse adoptado (pelo menos) em Portugal.

18 comentários em “Maus hábitos jornalísticos”

  1. Já deixei instruções expressas para apagarem o meu perfil do Feicebuk no caso de cometer alguma alarvidade pública.

    1. O melhor é ser previdente. Seja como for, no caso de os media serem rápidos, o ideal é anunciar que a vai cometer, para que o perfil seja apagado ainda antes (e mesmo assim…)

  2. Em Portugal talvez nunca venha a ser assim, porque não interessa nem à justiça nem a partidos. Nem mesmo o que é segredo permanece como tal. Dito isto, o segredo de justiça deve ter uma determinação qualquer para divulgação. Se isto um dia destes se aplicasse a um cidadão também se aplicaria a todos os outros, mas não podemos esperar demasiado de uma justiça que se pretende somente justiceira.
    Entenda-se esta justiça pelas leis feitas, e pela possibilidade que estas oferecem para que a aplicação das mesmas dependa tão somente da convicção de alguém.

  3. O maquinista ter possibilidade de ir a 150Kmh numa zona de 80Kmh é o crime a ser investigado, e que as entidades espanholas tentam varrer, porque há a lógica da falha humana que satisfaz a vontade de culpar alguém em especial, e não toda a segurança da ferrovia.

    Infelizmente vivemos numa cultura que facilmente cria heróis e vilões, e ninguém se apercebe que isso só nos deixa mais frágeis, porque os erros querem-se sempre individuais… e assim o indivíduo está sempre rodeado de potenciais grupos de apedrejamento.

    1. É normal o recurso ao bode expiatório, isso não é só de português. Não tenho dúvidas que a actuação do maquinista deve ser investigada, mas como diz e bem, as falhas no sistema (possivelmente ao nível do conceito geral) têm que ser correctamente avaliadas. É também assim que se aumenta a segurança.

  4. Por outro lado (ou pelo mesmo) constatei uma vez que um jornal referia a condenação de um réu num tribunal pubicando apenas o cargo de instituto público que ocupava, sem adiantar o seu nome. Publicita-se assim os nomes dos presumidos inocentes mas esconde-se o nome dos condenados.

    1. Pessoalmente sou a favor também de manter o anonimato de condenados. Por um lado podem sê-lo em primeira instância e ser libertados em recurso. Por outro, o crime na maior parte das vezes não é tão grave que faça com que a pessoa passe os próximos 20 anos na prisão. Nesse caso deve ser permitida a reinserção na sociedade, o que é algo dificultado se tiver sido publicitado o nome do condenado. Claro que deve haver excepções, mas seriam isso mesmo, excepções.

  5. Aquilo que mais me incomoda é a forma como as autoridades espanholas estão, com a cumplicidade (normal em Espanha, onde os jornais são altamente subservientes ao poder político) dos mídia, a procurar fazer do condutor o bode expiatório, quando deveriam em primeiro lugar reconhecer que as suas vias férreas utilizam um sistema obsoleto, que permite que o maquinista conduza o comboio à velocidade que lhe apetecer.
    A culpa deste acidente é em grande parte da RENFE. Comboios modernos, tal como aviões modernos, são em gande parte auto-conduzidos. Não estão sujeitos aos caprichos do maquinista.

    1. Bem verdade Luís. Especialmente no caso dos comboios que possam viajar a velocidades altas (como este). Deve haver não só sistemas de controlo mas também vários níveis de redundância para evitar desastres. Nem sempre podem ser evitados (imprevistos acontecem sempre), mas este é um caso em que parece que poderia ser evitado.

      Atenção, não nos desviemos de algo fundamental: até se pode concluir que o condutor não teve culpa, mas a sua conduta tem que ser investigada. Raramente há um único factor a causar estes acidentes.

      1. Claro que o maquinista teve culpa e deve ser condenado por isso.
        Mas não foi o único culpado, porque é inaceitável que as linhas férreas de um país avançado como a Espanha não tenham sistemas automáticos que impeçam o maquinista de acelerar o comboio à sua vontade, e que travem automaticamente o comboio quando ele vai depressa de mais.

  6. Eu, que sou leitora assídua do Correio da Manhã online, considero por acaso que Portugal é dos países que conheço com maior contenção nesse aspecto.

  7. Bem vistas as coisas, o mal está na falta de respeitinho.
    Ainda há quem diga “O respeitinho é uma coisa muito bonita”, mas são poucas as pessoas que sabem o que é “ser bonito”.
    Já nem se diz às criancinhas “Isso não se diz, não é bonito”, ou a um adulto “Não devias ter feito isso, não foi bonito”.
    Se se pretende respeitinho, é preciso que se saiba o que é ser bonito e o que é ser feio – e já estamos há algum tempo a navegar num pavoroso mar de total ignorância do que isso é.
    Fernando M. Pinheiro

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