Depois de ser Campeão Mundial em 2002 e antes de ter vencido a Taça das Confederações em 2013, Luiz Felipe Scolari registou com Portugal o seguinte palmarés: finalista do Euro 2004, semi-finalista do Mundial 2006 (perdeu 0-1 à tangente com uma das melhores Franças de sempre que só viria perder a final para a Itália por penalties e uma cabeçada de Zidane), quartos-de-final no Euro 2008 (perdeu com a finalista Alemanha por 2-3). Talvez Paulo Bento consiga semelhantes proezas, mas objectivamente até hoje ninguém atingiu resultados comparáveis. Todavia, por ter ofendido alguns interesses instalados, foi execrado pela indústria nacional de opinião futebolística.
Isto pode ser visto como uma eloquente parábola sobre os tempos que vivemos.

Eu sou dos que não gostaram de Scolari e continuam a não gostar dele. é verdade que teve alguns dos melhores resultados de sempre, mas também teve aquela que foi muito provavelmente (na minha opinião retiro o “provavelmente”) a melhor selecção de sempre. E mesmo assim coloco sempre a ressalva de ter sido segundo num Euro jogando em casa, perdendo duas vezes com a mesma equipa e jogando sempre da mesma maneira e tendo um saldo de 3 vitórias, 1 empate, 2 derrotas.
Nos outros torneios eu colocaria as minhas ressalvas, mas isso demora. Só dou uma ressalva extra: com Scolari, Portugal passou de uma das selecções mais admiradas e apreciadas para um dos vilões do futebol mundial. O jogo de atritos, simulações, contestação por tudo e por nada, faltas, etc (que fazem parte do MO de Scolari) abafaram o futebol de qualidade dos jogadores.
Quanto a Paulo Bento, com uma equipa consideravelmente inferior conseguiu estar a dois penalties de eliminar a (provavelmente) melhor selecção de sempre no último Euro. Poderá nem se qualificar para o próximo, é verdade, mas para já não está mal.
É mesmo isto João André: opinamos, dissertamos, especulamos, tendemos, argumentamos, discutimos, achamos, acreditamos, dissertamos, polemizamos, discorremos, mas o manto diáfano dos discursos só serve para ocultar (a nós próprios, sobretudo) a verdade nua dos factos. Donde a parábola.
A propósito do ‘factor casa’, argumento que tenho ouvido muitas vezes e o João André agora usa também para analisar a prestação da selecção portuguesa em 2004, gostaria de salientar que esse factor funcionou apenas três vezes em 15 (20%) Campeonatos da Europa. Ou seja, apenas três vezes as selecções anfitriãs conquistaram o troféu – e tudo isso já aconteceu há bastante tempo: Espanha, 1964; Itália, 1968; França, 1984.
Pode-se atacar Scolari por muita coisa, mas nem todos os argumentos são válidos.
E Dinamarca?
Pedro, eu nunca uso o “factor casa” isoladamente. Adiciono sempre outros factos: perdeu contra uma equipa contra a qual já tinha perdido, não mudou a táctica e os resultados não foram assim tão brilhantes (3 vitórias um empate e duas derrotas não deslumbra). E se formos a ver as exibições, só contra a Holanda jogaram de facto um futebol de alta qualidade.
Seja como for, isto é tudo de facto subjectivo. Aquilo que nele não me agrada é será sempre os estilo quezilento que nos angariou imensas antipatias internacionalmente, o estilo ditatorial (que os jornalistas desportivos aceitaram que nem ovelhas) e o desdém completo para com os portugueses (a hipocrisia dele nunca me convenceu).
E se vamos por resultados, para mim as meias-finais de 2000 e 2012 são muito mais impressionantes do que os outros resultados de Scolari. Pelas equipas, pelo estilo e pelos adversários. Mas OK, são preferências.
Scolari saiu de Portugal pelas mesmas razões, ao fim e ao cabo, pelas quais Mourinho saiu do Real Madrid: porque não era popular junto dos mídia.
Yep. (Quanto à parábola; ligo tão pouco a futebol que acerca das eventuais vicissitudes por que o Scolari passou não tenho opinião.)
É essa mesmo a parábola: não estar por dentro dos factos deveria implicar não ter opinião.
José,
Hierarquizemos prioridades: mesmo não sabendo a verdadeira versão dos factos, não podemos ter a singela opinião que esta crise política malbarata por inteiro dois anos de crescente credibilidade internacional e gigantesco esforço das famílias…? Melhor: interessa assim tanto saber quem tem razão quando o mal é substancialmente superior?
Tem toda a razão, Paulo. Por isso mesmo, porque devemos hierarquizar prioridades, não me parece que seja sensato ou inteligente (para não dizer intelectualmente decente) mergulhar na especulação abstruza e infundada.
“Isto pode ser visto como uma eloquente parábola sobre os tempos que vivemos”.
E já olhou bem para os factos?
2º em 2004, 4º em 2006, 8º em 2008 (e já com o apuramento que foi…)
Quer melhor do que dissertar sobre a decadência pura, simples, (então) visível e que nunca entra nestas discussões?
E qual é a coisa? Ganhar a Copa das Confederações? Nenhum que o conseguiu venceu depois o Mundial!
Se tal se repetir, como acha que Scolari será visto também no Brasiú?
No seu texto tem um exemplo muito mais próximo. O Sr. Paulo Jorge dos Santos Bento, que conseguiu o mais sólido conjunto de resultados do Sporting Clube de Portugal desde os anos 50, incluindo 4 tacinhas para o museu, sempre com orçamentos de miséria (num ano o SCP até deu lucro!), mantendo o SCP numa competição da qual nunca mais viu a cor (a Champions) e projectando craques como Nani, Veloso e Rui Patrício (e mais o “maçã podre”), tudo nos anos da “frutinha para dormir” (que em Itália deu despromoção para a Série B, mas em Portugal deu 6 pontinhos de multa) – e que, com a selecção já atingiu as meias-finais de um Europeu, perdendo nos penaltis contra a melhor selecção de todos os tempos -mas que foi “execrado pela indústria nacional de opinião futebolística” e forçado a demitir-se do SCP porque só conseguia segundos lugares, não se ria, não dava beijinhos, não aturava “primas donnas”, nem prometia amanhãs que cantam.
100% de acordo.
Algo que disse muitas vezes aos meus amigos (ou bloguistas) sportinguistas quando criticavam Paulo Bento. Muito gostariam eles de o ver de volta, imagino. Penso que nunca lhe perdoaram o ser sócio do Benfica (apesar de isso nunca lhe ter moderado o empenho).
Até se lembrar de utilizar a espinha dorsal do Porto de Mourinho na seleçao, a portuguesa nao jogava um caraças. Dava pena ve-los jogar ( como agora va). Scolari andou a inventar até ao primeiro jogo contra a grecia que perdemos. Depois, de um dia para o outro, opta pela estrutura do Porto mais o CR e nao paramos de ganhar.