Acordar um dia


Ana Vidal,


Belíssimo e contundente, este texto de Nuno Camarneiro sobre uma Europa que é cada vez mais uma espécie de museu do mundo, cheia de preciosidades mortas e pó nas esquinas das salas, à espera de turistas que venham de lugares longínquos para admirá-las depressa e voltar para as suas terras onde se vive uma vida de vivos. A Europa está a morrer, orgulhosamente agarrada aos seus pergaminhos de rainha-mãe e sem perceber que eles hão-de ser a sua mortalha. Mas ainda tenho esperança de um dia poder votar moções de nuvem e eleger pássaros.

18 comentários em “Acordar um dia”

  1. Aninha, passado o rancor do erotismo e a sede vingativa já expressa em um seu anterior texto, hoje venho aqui um bocadidinho poeta.

    Ensinou-me a vil tristeza que a forma de a superar seria precisamente amar, amando a Sabedoria. Esta doida e luxuriante amante que se alimenta das hormonas da tristeza e nos escolhe nos momentos de provação, traz-nos sempre o temor, o pavor e a aprovação.
    Ela é sádica e amorosa; sádica, porque nos atormenta com sua penosa disciplina; amorosa, até que ela, depois de nos ter experimentado em nossos pensamentos, possa confiar em nós.
    Cumulando-nos de alegria, desvenda-nos seus segredos e enriquece-nos com tesouros de ciência, inteligência e justiça.
    A Europa transformou-se na puta da babilónia, e seus filhos e filhas, paridos nos leitos sombrios da vã luxuria, transportam os vícios desta Megera.
    Na mitoligia Grega, a Megera personifica o rancor, a inveja, a cobiça e o ciúme.
    Eu não quero ser filho desta puta; e não sou mesmo!

      1. Aninha,

        a narrativa bíblica sobre a torre de Babel revela-nos que os povos da terra foram dispersos e divididos pela diversidade de línguas (deixaram de se entender). Porém, mais tarde, a teologia cristã desvenda-nos que em Pentecoses caiu sobre todos (12, doze) quantos representavam as diversas nações do mundo uma chuva em forma de línguas de fogo (o Espírito Santo) e, não obstante a diversidade de línguas que se falava, todos quantos se encontravam no local, vindos das mais diversas regiões do mundo conhecido, se entendiam como se da sua própria linguagem se tratasse.
        Significa isto que a linguagem unificadora, ainda que na diversidade, é a que leva por nome Amor. Porém este Amor não é um mero sentimento, é algo que se deve conhecer, que é alvo de busca e que geralmente se encontra no deserto e no silêncio do Ser, para poder ser catapultado para uma outra realidade: a dois, lado a lado, sempre a dois e lado a lado.
        Este número, o dois (2), que já lhe dei conta num outro comentário, também reflecte a unidade e a perfeição, se acrescentramos mais 1 (o 1 é a Sabedoria – Deus -, que vivifica, cria e recria). Porquê dois? Porque ninguém se basta a si mesmo.

        Adulterar significa alterar, falsificar… Por isto mesmo quem altera ou falsifica prostitui-se e comete adultério. É nesta prostituição de valores que centrei meu comentário, porque a puta da babilónia estava mais empenhada em dividir que em unir.
        Eu também gosto da Europa, minha raíz, mas num gosto da prostituição. Num gosto mesmo.

    1. Ainda não li nenhum dos livros do Nuno Camarneiro, mas não admira que tenha sido premiado. Os textos do Acordar um Dia são excelentes, será o meu próximo “blogue da semana”.

  2. ignorância de quem nunca mais do que 15 dias como turista do seu país Europeu. Gostava de saber qual é esse paraíso de dinamismo fora do continente europeu em que a autora está a pensar.

    1. E eu gostava de saber quem é o anónimo que me chama ignorante, ou não era isso que queria dizer? É que a sua frase é nebulosa, tal como a sua identidade. Ou talvez seja eu que, ignorante, não a sei interpretar.

    1. Esse é um dos problemas mais sérios desta literalmente “velha” Europa. E ainda reclamamos da invasão de outros povos, quando são eles os únicos que renovam a população.

  3. A Europa continua ser a grande mãe de todas as ideias que dominam o mundo contemporâneo, as grandes e as pequenas, as boas e as más – corruptio optimi pessima. E ela vai ressurgir, se um dia voltar a ser fiel à sua fé, a fé na Cruz, a Cruz que venceu a morte e refundou a civilização.

  4. Um trecho bem pescado, Ana. Tira da lástima a nova prosa urbana. Li dele os pássaros que não lhe cabem no peito e gostei muito. E estou na fila cá em casa para ler o segundo. Quanto ao tema e como não sou céptico nem eurocéptico aposto na Europa que há-de vir.

    1. Quero muito lê-lo, Fernando. O que tenho visto dele em textos soltos é muito bom.
      E gosto de ver-te assim esperançoso numa Europa possível, em que (ainda) acredito também. 🙂

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