As redes sociais são uma forma de comunicação social (CS) muito “democrática”, assim como os blogues. Todos temos acesso e dizer o que queremos.
A CS “institucional” devia ser mais séria, referir fontes, não deturpar declarações nem deturpar estatísticas. Deveria, mas não é.
Esta NOVA REALIDADE obriga (apenas) o consumidor a estar atento. Se não está, problema dele. Não me parece democrático que haja uma elite que sabe o que deveremos ler e engolir.
É claro que há uma grande diferença no volume de informações falsas e deturpadas, mas existem nos dois casos (a institucional e a informal).
Quanto às falácias da “institucional”, vamos, por vezes, sabendo delas, e não deixa de haver declarações aberrantes sobretudo nas entrevistas e nos comentadores políticos (que afinal são membros de partidos e dizem o que lhes apetece). Depois resta ao consumidor ter sentido crítico, alinhar ou não.
Sem querer dar mais valor (ou menos) a Cavaco ou a Sócrates, li uma notícia (não refiro a fonte porque já não me lembro dela) em que afirmava (e era verdade!) que o aumento (matematicamente é uma 1ª derivada) da dívida portuguesa foi maior nos governos de Cavaco que nos de Sócrates. Mas isso em termos percentuais. Em valores absolutos o de Sócrates foi muitíssimo maior. Isso não estava esclarecido.
Portanto, a comunicação social está mal. As redes sociais (e alguns blogues) são piores na boatagem mas são mais acessíveis a qualquer um.
São circuitos paralelos, eventualmente até complementares, mas que não podem nem devem confundir-se. Claro que a comunicação social está mal. Por causas próprias, muito variadas, muito específicas. Tenho-me referido várias vezes a esse problema – que não é só um problema dos jornais e dos jornalistas, mas dos cidadãos e da própria democracia. Uma dessas causas é a progressiva e constante tabloidização dos conteúdos informativos por influência crescente das redes sociais. O culto da irrelevância, por exemplo. Todos nos lembramos, por exemplo, do imenso tempo de antena dado ao polvo Paul no último mundial futebolístico, havendo jornalistas credenciados que atestavam as capacidades divinatórias do referido bicho, capaz de prever os resultados de todos os jogos… Pior que isso é a evidente preocupação de difundir “notícias” ao segundo, antes que estoirem num twitter qualquer. Isto tem contribuído para o descrédito dos meios de informação tradicionais. E como o melhor é citar exemplos, menciono dois – um português, outro estrangeiro. Exemplo português: na recente mini-remodelação governamental, dois órgãos de informação credíveis – em competição acelerada com as redes sociais – apressaram-se a garantir ao País, nas suas edições em linha, que Paulo Portas ficaria como vice-primeiro-ministro. Não ficou, como todos sabemos. Exemplo estrangeiro, muito mais grave, totalmente inaceitável: em Janeiro, o El País publicou em largo destaque na primeira página uma suposta foto de Hugo Chávez moribundo, entubado no hospital. Pequenos problemas: a foto não era actual, nem era de nenhum moribundo… nem era de Chávez. Tinha sido pescada numa rede social sem o devido controlo de rigor e qualidade, obrigando o jornal a multiplicar-se nos dias imediatos em mil pedidos de desculpa que não apagavam a dimensão descomunal da falha cometida. Nas redes sociais, lapsos destes não importam: diz-se agora o que se desdiz cinco minutos mais tarde. O anonimato e a irresponsabilidade imperam, ninguém está obrigado a cumprir preceitos éticos, deontológicos e até tecnicamente indispensáveis à produção de uma notícia (como a auscultação prévia de todas as partes interessadas ou mencionadas). Num órgão de informação tradicional, o não cumprimento destas normas paga-se muito caro. Por vezes até em dinheiro, mas sobretudo em credibilidade: quando parte, raras vezes regressa.
É curioso, mas isto precisamente suscita o debate.
Curioso porque tenho sempre a impressão de que, “sacando” as notícias, a Imprensa tradicional não sabe tratar delas, parecem órgãos em corpo estranho. E quanto a comentá-las, tá quieto…
De resto, são seguramente mais as vezes em que os “jornalistas” negam aceder às redes sociais do que o contrário. Lembro em tempos a Judite reagir a Medina Carreira quando este alertara para várias críticas dirigidas por blogues e a jornalista, impávida: “ó dr. Medina Carreira, tenho lá tempo para ler blogues!…”
Pois é assim, ainda que o grosso dos fait-divers que fazem a CS, em particular a tv, seja tirado da net de alguma forma, ou veículos de notícias tradicionais ou meramente reflexos de acontecimentos narrados nas redes sociais. E muitos fait-divers são precisamente tirados da net e das redes sociais: a festa do miúdo que caiu no bolo (e já não a gaja a sair do bolo), a vaca que se deita com o leãozinho, o barbecue que não sei quê, os tais virais que fazem notícia por muito estúpidos que sejam. Aqui é que a CS tradicional alimenta-se e morre do vírus em que se torna, amiíude, a rede social.
Exactamente, Zé Luís. Daí eu concordar com aquelas duas linhas que citei. Os órgãos de informação tradicionais recorrem demasiadas vezes a material ‘em bruto’ nas redes sociais sem o submeterem ao indispensável crivo analítico e ao contraditório com outras versões, igualmente ponderáveis. O culto da irrelevância, do ‘fait divers’, vem também muito deste circuito. E também – ou talvez deva escrever sobretudo – daí deriva o tom com que muitas notícias são divulgadas: privilegia-se a emoção fácil em vez da reflexão, dá-se com maior facilidade tempo de antena a quem berra mais alto do que a quem tem o discurso mais persuasivo e racional. As consequências estão à vista. E acabam por virar-se contra os próprios órgãos de informação, que ficam prisioneiros da irracionalidade destes ‘públicos’ que acabam por criar.
Um número muito significativo de pessoas acreditam que a notícia X ou a notícia Y são verdade “porque disseram na televisão” ou “porque veio no jornal” , entidades que por princípio não estão ali para enganar ninguém , os jornalistas até são “profissionais” .
E um número muito significativo de pessoas ou não frequenta blogs ou , frequentando-os , parte do princípio de que aquilo são os senhores A ou B a inventarem histórias que lhes convêem porque por princípio é para isso que lá escrevem , os bloggers até são “amadores” .
Quando estes dois números significativos de pessoas coincidem em grande parte , como é cada vez mais o caso , temos o caldo entornado .
Pelos comentários que se seguiram aclarei as minhas ideias. Para mim foi útil.
Fiquei com seguinte ideia: As redes sociais são uma espécie de conversa de café, entre conhecidos, dizendo o que lhes apetece, inventando ou deturpando conforme lhes convém. Nada que já não conhecessemos, excepto pelo nº de ouvintes e faladores.
A CS Institucional é que está mal. Se calhar está em fase de adaptação. Já agora devo dizer que há muito tempo que não compro jornais; leio-os por vezes no café. Digo isto porque também pode ser a agonia do jornal impresso. Talvez se lembre do sucesso do “Jornal do Incrível”, todo ele feito com uma máquina de escrever, uma mesa e muita imaginação disparatada, aquela que não deveria servir para nada. Neste caso deu muito dinheiro (creio que ao Vilhena, mas posso estar enganado). Talvez a agonia dê para a “Incrivelização” dos jornais.
O problema é que a crise do jornalismo conduz à crise da cidadania. Uma democracia sem jornais é, em última análise, uma democracia sem escrutínio. E uma democracia começa a perverter-se quando deixa de ser escrutinada.
Sem ofender. Há na sua resposta uma afirmação que me parecem dogmática: -“a crise do jornalismo conduz à crise da cidadania”
Outra também poder ser: -“uma democracia começa a perverter-se quando deixa de ser escrutinada” Nesta última, pode ter razão, tenho de pensar. Por exemplo se a boa CS é essencial para a sociedade “escrutinada”, pois a má CS não o é certamente.
Além disso os exemplos de boa CS: investigações que me pareceram sérias e com referência a fontes sobre o BPN, o caso Sócrates e o Free Port, a pedofilia na Casa Pia; resultaram em nada notoriamente por pressões políticas. Era engraçado pensar em “como resolver isto”.
Em 2004 ouvi uma espécie de “aula de sapiência” dada pelo ex-reitor da Universidade do Porto Alberto Amaral em que ele referiu a dependência do jornalismo sob o poder político, em parte devido ao financiamento estatal directo e indirecto. Depois continuou que nas sociedades (mais) liberais e com menor peso do estado, a dependência existe mas subordinada ao poder económico.
Isto a propósito da “abertura às empresas” e o patrocínio delas à investigação científica, que, por analogia, também condiciona os resultados ou a sua isenção.
Isto é: a própria comunicação científica, dada como exemplo de isenção, também começa a vacilar.
Julgo que estaremos de acordo no essencial pois também eu considero que o escrutínio deve ser feito pela “boa CS”: a outra ou não escrutina ou escrutina de forma deficiente. Não sou é daqueles que dizem que toda a comunicação social é má. Isso não é verdade. Há de tudo: bom e mau.
Pois eu já tenho dúvidas.
As redes sociais são uma forma de comunicação social (CS) muito “democrática”, assim como os blogues. Todos temos acesso e dizer o que queremos.
A CS “institucional” devia ser mais séria, referir fontes, não deturpar declarações nem deturpar estatísticas. Deveria, mas não é.
Esta NOVA REALIDADE obriga (apenas) o consumidor a estar atento. Se não está, problema dele. Não me parece democrático que haja uma elite que sabe o que deveremos ler e engolir.
É claro que há uma grande diferença no volume de informações falsas e deturpadas, mas existem nos dois casos (a institucional e a informal).
Quanto às falácias da “institucional”, vamos, por vezes, sabendo delas, e não deixa de haver declarações aberrantes sobretudo nas entrevistas e nos comentadores políticos (que afinal são membros de partidos e dizem o que lhes apetece). Depois resta ao consumidor ter sentido crítico, alinhar ou não.
Sem querer dar mais valor (ou menos) a Cavaco ou a Sócrates, li uma notícia (não refiro a fonte porque já não me lembro dela) em que afirmava (e era verdade!) que o aumento (matematicamente é uma 1ª derivada) da dívida portuguesa foi maior nos governos de Cavaco que nos de Sócrates. Mas isso em termos percentuais. Em valores absolutos o de Sócrates foi muitíssimo maior. Isso não estava esclarecido.
Portanto, a comunicação social está mal. As redes sociais (e alguns blogues) são piores na boatagem mas são mais acessíveis a qualquer um.
São circuitos paralelos, eventualmente até complementares, mas que não podem nem devem confundir-se.
Claro que a comunicação social está mal. Por causas próprias, muito variadas, muito específicas. Tenho-me referido várias vezes a esse problema – que não é só um problema dos jornais e dos jornalistas, mas dos cidadãos e da própria democracia.
Uma dessas causas é a progressiva e constante tabloidização dos conteúdos informativos por influência crescente das redes sociais.
O culto da irrelevância, por exemplo. Todos nos lembramos, por exemplo, do imenso tempo de antena dado ao polvo Paul no último mundial futebolístico, havendo jornalistas credenciados que atestavam as capacidades divinatórias do referido bicho, capaz de prever os resultados de todos os jogos…
Pior que isso é a evidente preocupação de difundir “notícias” ao segundo, antes que estoirem num twitter qualquer. Isto tem contribuído para o descrédito dos meios de informação tradicionais.
E como o melhor é citar exemplos, menciono dois – um português, outro estrangeiro.
Exemplo português: na recente mini-remodelação governamental, dois órgãos de informação credíveis – em competição acelerada com as redes sociais – apressaram-se a garantir ao País, nas suas edições em linha, que Paulo Portas ficaria como vice-primeiro-ministro. Não ficou, como todos sabemos.
Exemplo estrangeiro, muito mais grave, totalmente inaceitável: em Janeiro, o El País publicou em largo destaque na primeira página uma suposta foto de Hugo Chávez moribundo, entubado no hospital. Pequenos problemas: a foto não era actual, nem era de nenhum moribundo… nem era de Chávez. Tinha sido pescada numa rede social sem o devido controlo de rigor e qualidade, obrigando o jornal a multiplicar-se nos dias imediatos em mil pedidos de desculpa que não apagavam a dimensão descomunal da falha cometida.
Nas redes sociais, lapsos destes não importam: diz-se agora o que se desdiz cinco minutos mais tarde. O anonimato e a irresponsabilidade imperam, ninguém está obrigado a cumprir preceitos éticos, deontológicos e até tecnicamente indispensáveis à produção de uma notícia (como a auscultação prévia de todas as partes interessadas ou mencionadas).
Num órgão de informação tradicional, o não cumprimento destas normas paga-se muito caro. Por vezes até em dinheiro, mas sobretudo em credibilidade: quando parte, raras vezes regressa.
É curioso, mas isto precisamente suscita o debate.
Curioso porque tenho sempre a impressão de que, “sacando” as notícias, a Imprensa tradicional não sabe tratar delas, parecem órgãos em corpo estranho. E quanto a comentá-las, tá quieto…
De resto, são seguramente mais as vezes em que os “jornalistas” negam aceder às redes sociais do que o contrário. Lembro em tempos a Judite reagir a Medina Carreira quando este alertara para várias críticas dirigidas por blogues e a jornalista, impávida: “ó dr. Medina Carreira, tenho lá tempo para ler blogues!…”
Pois é assim, ainda que o grosso dos fait-divers que fazem a CS, em particular a tv, seja tirado da net de alguma forma, ou veículos de notícias tradicionais ou meramente reflexos de acontecimentos narrados nas redes sociais. E muitos fait-divers são precisamente tirados da net e das redes sociais: a festa do miúdo que caiu no bolo (e já não a gaja a sair do bolo), a vaca que se deita com o leãozinho, o barbecue que não sei quê, os tais virais que fazem notícia por muito estúpidos que sejam. Aqui é que a CS tradicional alimenta-se e morre do vírus em que se torna, amiíude, a rede social.
Exactamente, Zé Luís. Daí eu concordar com aquelas duas linhas que citei. Os órgãos de informação tradicionais recorrem demasiadas vezes a material ‘em bruto’ nas redes sociais sem o submeterem ao indispensável crivo analítico e ao contraditório com outras versões, igualmente ponderáveis.
O culto da irrelevância, do ‘fait divers’, vem também muito deste circuito. E também – ou talvez deva escrever sobretudo – daí deriva o tom com que muitas notícias são divulgadas: privilegia-se a emoção fácil em vez da reflexão, dá-se com maior facilidade tempo de antena a quem berra mais alto do que a quem tem o discurso mais persuasivo e racional.
As consequências estão à vista. E acabam por virar-se contra os próprios órgãos de informação, que ficam prisioneiros da irracionalidade destes ‘públicos’ que acabam por criar.
Um número muito significativo de pessoas acreditam que a notícia X ou a notícia Y são verdade “porque disseram na televisão” ou “porque veio no jornal” , entidades que por princípio não estão ali para enganar ninguém , os jornalistas até são “profissionais” .
E um número muito significativo de pessoas ou não frequenta blogs ou , frequentando-os , parte do princípio de que aquilo são os senhores A ou B a inventarem histórias que lhes convêem porque por princípio é para isso que lá escrevem , os bloggers até são “amadores” .
Quando estes dois números significativos de pessoas coincidem em grande parte , como é cada vez mais o caso , temos o caldo entornado .
Acontece. Infelizmente, com demasiada frequência.
Pelos comentários que se seguiram aclarei as minhas ideias. Para mim foi útil.
Fiquei com seguinte ideia:
As redes sociais são uma espécie de conversa de café, entre conhecidos, dizendo o que lhes apetece, inventando ou deturpando conforme lhes convém. Nada que já não conhecessemos, excepto pelo nº de ouvintes e faladores.
A CS Institucional é que está mal. Se calhar está em fase de adaptação.
Já agora devo dizer que há muito tempo que não compro jornais; leio-os por vezes no café. Digo isto porque também pode ser a agonia do jornal impresso. Talvez se lembre do sucesso do “Jornal do Incrível”, todo ele feito com uma máquina de escrever, uma mesa e muita imaginação disparatada, aquela que não deveria servir para nada. Neste caso deu muito dinheiro (creio que ao Vilhena, mas posso estar enganado).
Talvez a agonia dê para a “Incrivelização” dos jornais.
O problema é que a crise do jornalismo conduz à crise da cidadania. Uma democracia sem jornais é, em última análise, uma democracia sem escrutínio. E uma democracia começa a perverter-se quando deixa de ser escrutinada.
Sem ofender. Há na sua resposta uma afirmação que me parecem dogmática:
-“a crise do jornalismo conduz à crise da cidadania”
Outra também poder ser:
-“uma democracia começa a perverter-se quando deixa de ser escrutinada”
Nesta última, pode ter razão, tenho de pensar. Por exemplo se a boa CS é essencial para a sociedade “escrutinada”, pois a má CS não o é certamente.
Além disso os exemplos de boa CS: investigações que me pareceram sérias e com referência a fontes sobre o BPN, o caso Sócrates e o Free Port, a pedofilia na Casa Pia; resultaram em nada notoriamente por pressões políticas. Era engraçado pensar em “como resolver isto”.
Em 2004 ouvi uma espécie de “aula de sapiência” dada pelo ex-reitor da Universidade do Porto Alberto Amaral em que ele referiu a dependência do jornalismo sob o poder político, em parte devido ao financiamento estatal directo e indirecto. Depois continuou que nas sociedades (mais) liberais e com menor peso do estado, a dependência existe mas subordinada ao poder económico.
Isto a propósito da “abertura às empresas” e o patrocínio delas à investigação científica, que, por analogia, também condiciona os resultados ou a sua isenção.
Isto é: a própria comunicação científica, dada como exemplo de isenção, também começa a vacilar.
Julgo que estaremos de acordo no essencial pois também eu considero que o escrutínio deve ser feito pela “boa CS”: a outra ou não escrutina ou escrutina de forma deficiente.
Não sou é daqueles que dizem que toda a comunicação social é má. Isso não é verdade. Há de tudo: bom e mau.