Sempre me fez urticária aquele riso escarninho, trocista, de quem julga ter o mundo aos pés. Não exagero: as pretensões políticas dele foram, em tempos, de uma megalomania tal que roçava o ridículo, e sem que alguma vez se tenha apercebido (era egótico de mais para sequer imaginá-lo), era gozado por toda a gente por causa disso. Enfim, fraquezas só perdoáveis a quem tenha qualidades que as suplantem. Mas não era o caso. Foi toda a vida um marido e um pai déspota, intratável, que humilhava em público os filhos com exigências e exibições de autoridade absolutamente descabidas e expunha a mulher (que era muito bonita, por sinal) como um troféu de sua exclusiva propriedade, merecidamente ganho numa qualquer mesa de jogo. Porque era um jogador inveterado, também. E dos que têm mau perder. Lembro-me bem de assistir a exibições deploráveis do seu proverbial mau feitio, sempre que o jogo não lhe corria de feição.
A vida não o poupou, é verdade: primeiro, a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca o teve. Mas nunca se recompôs dessa “injustiça”, nem tanto orgulho ferido alguma vez o levou a tentar provar o seu valor de outra qualquer maneira. Ficou enclausurado num ódio primário, irracional, que remoeu o resto da vida numa espécie de vingança cega, aplicada a eito em todos os que lhe estavam mais próximos. Depois, muito mais grave do que a humilhação profissional, a vida familiar foi cruelmente atravessada por uma tragédia arrasadora. Nessa altura toda a gente teve pena dele. Mas nem assim se tornou mais humilde ou aprendeu alguma coisa de útil com esse terrível acontecimento. Pelo contrário, dir-se-ia que o desgosto refinou tudo o que ele tinha de pior, e o azedume começou a corroê-lo por dentro, por inteiro, como um ácido letal.
Eu já não o via há alguns anos, felizmente. Encontrei-o um dia, por acaso, na Bertrand do Chiado. Ainda tentei disfarçar, mas foi inútil: ele tinha qualquer coisa para ensinar-me, como sempre, porque veio lá do fundo para me falar, num gesto magnânimo sublinhado pelo insuportável sorriso de superioridade. Estava com um amigo mais novo que, percebi logo, o bajulava. Enorme erro, pensei. Apresentou-nos e trocámos algumas palavras de circunstância. Quis ver o que eu estava a comprar e preparava-se para dissertar sobre a minha escolha quando eu lhe disse que estava cheia de pressa porque estava de partida para férias e tinha passado por ali, à última da hora, para comprar aquele livro que me fazia falta para as minhas pesquisas.
E pronto, eu acabara de dar-lhe o mote para uma aula de português correcto. O tal amigo tinha-se afastado para o fundo da livraria e não nos ouvia, mas havia por ali clientes suficientes para compor uma plateia que lhe parecesse valer a pena. Rasgou um sorriso sardónico e disparou, bem alto para conseguir o máximo efeito: “Não sabes que não se diz à última da hora, mas sim à última hora? E és tu uma pessoa que vive da escrita?! Francamente, menina!!”.
Tenho de abrir aqui um parêntesis, para explicar que teria aceite a correcção de bom grado se ela tivesse partido de qualquer outra pessoa. Não tenho nenhuma pretensão de escrever ou falar um português sem falhas, e todos os dias aprendo alguma coisa sobre a minha língua que não sabia antes. Mas aquilo irritou-me. Aquela criatura tinha sempre de dar lições a toda a gente, sobre todos os temas. Apanhou-me numa falta, não tão grave que justificasse todo aquele chinfrim, e aproveitou logo para fazer o seu brilharete. Subiu-me a mostarda ao nariz, às vezes também tenho mau feitio. Olhei-o nos olhos e fiz o meu sorriso mais cândido, para ganhar tempo. E depois, quase sem pensar, saiu-me isto, enquanto compunha um ar blasé: “Engana-se. Diz-se à última da hora e a expressão significa à última badalada da hora. Vem do tempo dos antigos relógios de sala, que cantavam as badaladas, e quer dizer que o tempo está a esgotar-se. Olhe, é o meu caso, peço desculpa mas tenho mesmo de me ir embora.”
Deixei-o plantado, sem lhe dar oportunidade de resposta. Sou mazinha: aquilo fez-me ganhar o dia. Ainda vi, por cima do ombro, o amigo aproximar-se dele e fazer-me um adeus com a mão. E seria capaz de jurar que foi aquele desgraçado quem pagou as favas pelo meu atrevimento. Pelo menos não deve ter-se livrado de ouvir uma lição acabadinha de aprender e totalmente falsa: “Sabes qual é a origem da expressão À última da hora?”…


http://www.ciberduvidas.com/perguntas/ge t/297232
Obrigada pela dica do Ciberdúvidas, que também consulto muitas vezes. A explicação que dei ao senhor da história foi inventada naquele momento, mas também acho que o uso continuado de uma incorrecção (desde que não seja grave, como é o caso) acaba por fazer a norma, com o tempo. E não há grande mal nisso. 🙂
Quando o voltar a encontrar, agradeça-lhe: deve-lhe a motivação para este excelente texto.
Obrigada, José Catarino. A verdade é que se aprende sempre qualquer coisa sempre, nem que seja só um teste à capacidade de improviso e à imaginação. Mas eu sei que se tivesse ficado lá a coisa não teria acabado assim, ele não reagia bem aos atrevimentos. Muito menos de mulheres, e mais novas. Enfim.
Escreveu que “a revolução de Abril atirou-o para uma insustentável prateleira na empresa em que trabalhava, onde contava chegar longe devido ao nome que lhe coroava o cartão-de-visita. Não por mérito próprio, que nunca teve.”
Mas isso foi nos primeiríssimos tempos, por que, logo a seguir (e agora), os apelidos constantes do cartão-de-visita (e do BI) estão com cotação elevada. Infelizmente, digo eu.
Acho que no fundo sempre foi e sempre será assim, e ainda mais nos países latinos. Infelizmente, digo eu também.
Apesar de tudo, se a entrada é facilitada pelo nome ou pelos conhecimentos, a responsabilidade de provar o que se vale é maior ainda, ou pelo menos devia ser…
E obrigada pela (subtilíssima) correcção dos hífenes em falta na palavra cartão-de-visita. Já vou emendar. 🙂
Tem é que agradecer ao corrector ortográfico que instalaram na minha máquina…
🙂
A irritação nem sempre é má conselheira. Às vezes concentra a mente e aguça a língua de uma forma extraordinária!
No meu caso costuma funcionar, lá isso é verdade. Tenho geralmente bom feitio, mas não me piquem muito que me transfiguro…
Safa, ainda bem que não me lembrei de me meter consigo quando era caloira lá por Santarém !!
Ah, Fanas, nessa época transfigurava-me com muito mais facilidade! 🙂
“Última hora” e “última da hora” não me parecem referir-se sempre à mesma ideia (e já vi que a sua justificação deste texto, passados cinco anos, até ganhou adeptos!).
A descrição do personagem parece inscrever-se bem num conto de Dickens. Ou seja, há muito que essas partículas foram previstas pela teoria, e são muito detectadas em meios propícios ao seu desenvolvimento. Esse meio precisa delas, e elas vivem desse meio… um bocadinho como as moscas!
Há um ponto importante sobre os “erros”, e lembro a questão da “quadratura do círculo”.
Durante dois milénios, a obsessão da Geometria, sagrada ou consagrada, de “esquadro e compasso”, procurou esse ponto G, pelo “rigor”.
Durante dois milénios baniram-se as aproximações, por estarem contaminadas de profanos “erros”…
Porém, dois mil anos depois, aceitando e trabalhando com esses “erros”, dois séculos bastaram para concluir rigorosamente a impossibilidade.
Ainda hoje não se concebe outra maneira de o provar.
No entanto, os perfeccionistas continuam por aí, como críticos de serviço, está claro… porque justificam a sua inútil postura apontando as imperfeições alheias.
Porque não aceitar erros não torna ninguém mais perfeito, torna apenas o seu juízo menos humano… entrando em contradição com a própria natureza do seu pensamento.
Dou um outro exemplo linguístico engraçado – “há-des”.
Impôs-se “hás-de” em vez do popular “há-des”, excepção que atravessou gerações, por incógnitas razões… quem sabe, se Hera ou não era do Hades?
Desse “haver”, só ficou o “a ver”… navios!
Aí onde foram os defensores da evolução na tradição fonética? Ficaram aquartelados em regras gramaticais ou numa qualquer etimologia?
– Foram no “ir” da cantiga do Romance latino, não foram de “ser”.
Sempre excelentes os seus comentários, Da Maia. Mas confesso – mea culpa, mea massima irritação – que o único deus que me vem ao pensamento quando ouço “há-des” é Marte, o da guerra. O que não impede que lhe dê razão, até porque a fonética neste caso favorece o erro, é mais fácil dizer assim do que correctamente.
Ui, que irritação, conheço o estilo. Pobre diabo… digamos assim 🙂
Foi muito bem achada a tua resposta mas parece-me que o indivíduo nem tinha razão, porque. primeiro, a oralidade permite a adopção de formas menos rigorosas de expressão. E depois, alguns desvios ao figurino configuram os chamados “enfatismos” e não são exactamente um erro. É o caso do “há dias atrás”…
😉
Claro que sim, Laura. Um pobre diabo, como dizes. Com ele era sempre a descer para baixo… 😉
Aninha, estive por aqui cogitando e cheguei à seguinte conclusão: à última badalada o gajo parece-se com um badalo sem freio.
Vão muito bem esgalhadas essas palavritas.
Obrigada, Anoniminho. Um Dâmaso Salcede, mais coisa menos coisa.