Este é um livro que eu gostaria de ter escrito. Um livro que nos devolve ao convívio com algumas das mais fascinantes personagens da literatura portuguesa. Um livro que não se confina ao chamado cânone consagrado, recuperando obras e autores que costumam estar arredados da análise crítica, condenados à pior das marginalizações – a que opera através do silêncio.
Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral, é um livro de quem gosta de ler e de quem sabe ler. “Não há nenhuma fórmula para os grandes livros e não há nenhuma fórmula para as grandes personagens. O efeito de uma personagem sobre o leitor depende, por vezes, de minúsculos pontos de ligação que criam empatia, que facilitam a tarefa de imaginar como será aquela vida”, assinala o autor na nota introdutória.
Estamos no reino da ficção, mas convictos de que esta se entrelaça muitas vezes com o real, enquanto testemunho de uma época ou reflexo de um avassalador impulso existencial. À semelhança do que Steiner disse sobre Hamlet, como sublinha também Vieira Amaral, “as grandes personagens de ficção são mais reais do que nós”.
Partilhei inesquecíveis horas da minha vida com algumas delas que aqui reencontro de forma inesperada – e, até por isso, ainda mais gratificante. A dilacerada Clarisse de Domingo à Tarde (Fernando Namora, 1961), recriada por Isabel de Castro na magnífica adaptação cinematográfica de António de Macedo, expoente do efémero ‘Cinema Novo’. A irresistível Léah, do conto homónimo de José Rodrigues Miguéis, um dos meus autores de eleição, tão injustamente esquecido. A esfuziante Madalena d’ A Morgadinha dos Canaviais (Júlio Dinis, 1868). Há quanto tempo as não via…
Desfilam aqui algumas das personagens consideradas obrigatórias da literatura portuguesa – a Joaninha dos olhos verdes, d’ As Viagens na Minha Terra (Almeida Garrett, 1846), Tomás Manuel da Palma Bravo, o Delfim (José Cardoso Pires, 1968) e o par Baltasar Sete-Sóis/Blimunda Sete-Luas, do Memorial do Convento (José Saramago, 1982). Mas também – e a justificar aplauso – o Benito Prada, de Fernando Assis Pacheco (1993), o Viriato, de João Aguiar (A Voz dos Deuses, 1984), o Rapaz, de Dinis Machado (O Que Diz Molero, 1977), e o inapagável Gineto, de Soeiro Pereira Gomes, um dos melhores retratos infantis da nossa ficção (Esteiros, 1941).
Adivinharam, certamente: o escritor aqui mais representado é Eça de Queirós. Com o padre Amaro, João da Ega, o Raposão d’ A Relíquia e esse prodígio digno de figurar no quadro de honra das figuras literárias portuguesas que é a eterna criada Juliana, d’ O Primo Basílio (1878). Cardoso Pires, Júlio Dinis e Camilo Castelo Branco surgem representados com duas obras cada. E há vários autores já do século XXI: Dulce Maria Cardoso (O Retorno, 2011), Miguel Real (A Ministra, 2009), Ricardo Adolfo (Mizé: Antes Galdéria do que Normal e Remediada, 2006), Miguel Sousa Tavares (Equador, 2003) e Francisco José Viegas (Um Crime Capital, 2001), por exemplo.
O desfile não surge por ordem alfabética ou cronológica, como eu teria preferido, até para efeitos de consulta recorrente, e há lapsos muito ocasionais que poderão ser corrigidos em edições posteriores – Mau Tempo no Canal, de Vitorino Nemésio, surgiu em 1944 e não em 1949, a obra mais antiga aqui representada é Eurico, o Presbítero (Alexandre Herculano, 1844) e não Viagens na Minha Terra. Mas é notável a capacidade de inclusão revelada por Bruno Vieira Amaral, crítico literário que foi conquistando leitores em blogues como Circo da Lama e acaba de estrear Atentado ao Pudor – prova evidente de que a blogosfera, ao contrário do que alguns juram, também pode ser um viveiro de talentos.
Proeza digna de registo é igualmente o modo como o autor, de forma subtil mas inegável, adapta o seu próprio estilo ao dos escritores nas personagens que destaca. Isso é evidente, para mim, nas notas sobre António Malhadinhas (Aquilino Ribeiro, 1922), o Calisto Elói, d’ A Queda dum Anjo (Camilo, 1866), a Quina, de Agustina (A Sibila, 1954), e o Ricardo Reis, de Saramago (1984), entre outros.
E não há aqui romancistas “menores”: todos são maiores na capacidade de inventar figuras capazes de perdurar na memória de quem lê. Este é um dos méritos mais evidentes de um livro que nos envia ao reencontro de Clara Pinto Correia (Adeus, Princesa, 1985), Mário Zambujal (Crónica dos Bons Malandros, 1980), Baptista-Bastos (Cão Velho Entre Flores, 1974) ou José Rentes de Carvalho (A Amante Holandesa, 2003).
Cada nota é sucinta, nunca excedendo duas páginas. Mas é também de uma precisão cirúrgica: Vieira Amaral consegue ir ao nervo, ao osso e à alma de cada personagem com louvável concisão e um requinte literário sem o qual esta resenha estaria condenada ao fracasso. Leiam as notas sobre Clara, d’ Uma Abelha na Chuva (Carlos de Oliveira, 1953), Bento, da Seara de Vento (Manuel da Fonseca, 1958), e Tomás da Palma Bravo para confirmarem o que digo.
O título ilude: são afinal 55 personagens aqui retratadas – 50 de romance e apenas uma de conto (Léah). E quatro surgem emparelhadas (Y e Fernão, Renato e Marlene, Baltasar e Blimunda, Simão Botelho e Teresa de Albuquerque). Ainda assim, um número que acaba por nos saber a pouco. Em futuras edições talvez surjam outras. O Conde de Abranhos, Jacinto ou Dâmaso Salcede, da pena inesgotável de Eça. Eusébio Macário ou qualquer outra saída da imaginação trepidante de Camilo. O João Semana, d’ As Pupilas do Senhor Reitor – tão marcante que até passou para o vocabulário comum como sinónimo de médico. O Barão, de Branquinho da Fonseca. O Mariano Paulo, de Casa na Duna (Carlos de Oliveira). O jovem seminarista António Lopes, de Manhã Submersa (Vergílio Ferreira). O Alberto d’ A Selva (Ferreira de Castro). A Eva Lopo, d’ A Costa dos Murmúrios (Lídia Jorge).
Tantas histórias que cada uma destas personagens nos narra. E tantas outras que nós pudemos viver através delas…
Guia para 50 Personagens da Ficção Portuguesa, de Bruno Vieira Amaral
Guerra & Paz, Lisboa, 2013. 229 pp.




Obrigado, Pedro. Tem toda a razão nos lapsos que menciona: não sei onde fui buscar o 1949 porque na edição que tenho de Mau Tempo no Canal a data da primeira edição é 1944. Quanto à referência ao livro mais antigo, foi falta de atenção da minha parte.
abraço.
Mau, mais despesas ….
(estava eu a pensar “então e o Dâmaso…?” e tu o referes!)
Belo postal (e belo comentário do autor, tão raro assim …)
Raro mesmo. A condizer com o livro, raro também.
Sao meros pormenores que em nada deslustram o conjunto da obra. Votos de sucesso para este livro, que bem o merece, caro Bruno. Um abraço.
Obrigado, Pedro.
abraço lampião.
Abraço, Bruno (e boa sorte na segunda mão da meia-final).
Facebooko, em intento de memeísmo
E eu te agradeço o gesto solidário, camarada.
Ena, que bela crítica e que grande dica literária me dás. A comprar amanhã mesmo, este livro.
(safaste-te à risca: estás perdoado do deslize, nas tuas belles toujours, com esta belle jamais de quinta categoria. sol a mais, com certeza, mas a invernia infindável deste ano justifica tudo) 🙂
São as curvas da literatura;)
Bah. Aposto que a pequena só sabe ler um livro de cheques.
O Luís Lavoura remeteu-me, e com razão, para esta estrada de Damasco. Em boa hora o fez: vi a luz. Não a Luz (embora o BVA seja lampião).
Ora, ora, quem te salvou foi o Da Maia com a sua preciosa filigrana interpretativa. Até a Luciana me pareceu mais interessante.
Fui rever, Ana. Também desta vez me pareceu mais interessante.
🙂
Um livro de cheques é um clássico.
Um clássico, sim. Das mil e uma noites, livro onde não faltavam xeques.
Eheheheh. Bem visto, Zé.
A verdade é que às vezes é mesmo uma Odisseia…
Já está no topo da lista.
Gostarás, Zé, gostarás.
Tens toda a razão, Pedro, este livro é excelente. Muítissimo bem construído. Para quem gosta de personagens como nós gostamos, é o melhor que se pode ler. Que o Bruno Vieira Amaral tenha o sucesso que merece.
E que a tua série sobre personagens não desfaleça, Ivone.