Dia do livro e umas memórias


convite,

Preguiçosa que é uma vergonha, eu sei, não queria deixar passar o Dia do livro sem um texto sobre livros que é também um texto de memórias. Todas as minhas boas memórias têm livros por perto. O texto foi originalmente publicado aqui. Preguiçosa, sim, eu sei.

 

 

Conchas, pedrinhas pedacinhos de ossos

 

Na casa dos meus avós, entrando-se pela porta da frente, havia um cor­re­dor de onde, a meio, par­tia uma escada. Basta-me fechar os olhos e chego lá.  A memó­ria é a reco­nhe­cí­vel planta de uma casa para onde se volta repe­ti­das vezes. Eu, é sem­pre pela sali­nha do pri­meiro andar que começo, logo ao cimo das esca­das. Devia ter sido pen­sada como ves­tí­bulo mas era longa e tinha uma janela grande que dava sobre o alpen­dre onde cres­cia uma videira. É sem­pre Setem­bro na minha memó­ria e uma brisa coisa de nada faz ondu­lar o cor­ti­nado de renda que dese­nha som­bras góti­cas na parede. Quem pres­tar aten­ção ao que escrevo, verá que nunca saí de lá, da com­pa­nhia das gár­gu­las e dos gri­fos fei­tos per­fil na parede. Os anjos e os lobos vie­ram depois, mas isso já é outra his­tó­ria. Na sali­nha do pri­meiro andar, as minhas tias sentavam-se para cos­tu­rar ou coisa seme­lhante e eu, de tama­nhi­nha, ia para lá apu­rar o ouvi­do à con­versa. Fas­ci­nante mundo dos adul­tos, às vezes tão capi­toso como o outro mundo que os livros me tra­ziam. Li dema­si­ado cedo muita coisa e já disse e repito que não me deve ter feito bem à cabe­ci­nha. É demons­trá­vel. Pri­meiro os clás­si­cos, depois mui­tos poli­ci­ais. Fui cres­cendo, às vezes com as tias em fundo outras vezes sozi­nha, dei­tada que nem oda­lisca numas almo­fa­das que espa­lhava pelo chão. Os meus bisa­vós, que eram de Sil­ves, legaram-me uns genes árabes que irre­me­di­a­vel­mente me afei­ço­a­ram aos coxins e ao remanso quente. Houve um Verão em que che­guei aos sim­bo­lis­tas. Não sei que idade tinha, aliás, nesse tempo eu não tinha idade tinha ape­nas tempo que era muito e pela frente.  A Clepsy­dra de Camilo Pes­sa­nha tinha-me che­gado às mãos e em todos os balaús­tres cho­ra­vam as arca­das do vio­lon­celo. Deixei-me das pala­vras de ponta e mola e era só daquele encan­ta­tó­rio rumor do sig­ni­fi­cante que eu vivia. Era uma alu­ci­nada, nesse tempo. Melho­rei muito, mas não me curei. Aprendi das liga­ções e das refe­rên­cias entre­cru­za­das com a vaga Ofé­lia flu­tu­ando, /E, debaixo das águas fugidias,/ Os seus olhos aber­tos e cis­mando …  e da pre­ci­são da herál­dica feita lirismo … Tem de oiro num quartel/ Ver­me­lho, um lys; tem no outro uma donzela,/ Em campo azul, de prata o corpo, aquela/ Que é no meu braço como um broquel./ Tim­bre: rom­pante, a mega­lo­ma­nia …/Divisa: um ai, — que insiste noite e dia/ Lem­brando ruí­nas, sepul­tu­ras rasas … A minha natu­reza nefe­li­bata era con­forme às Ané­mo­nas, hydrângeas/ Silan­dras mas da perda eu sabia muito pouco. O cor­ti­nado de renda da sali­nha do pri­meiro andar ondu­lava e longe de mim pen­sar em quem poluiu, quem ras­gou os meus len­çóis de linho, só depois soube que é pró­prio do tempo espa­lhar a lenha e entor­nar o vinho. Umas par­ti­lhas difí­ceis divi­di­ram ao meio a casa dos meus avós e a sali­nha do pri­meiro andar desa­pa­re­ceu na cisão. Quando lá vol­tei, o cor­re­dor de onde, a meio, par­tia uma escada tinha tomado outra forma e antiga planta da casa só exis­tia no meu recordar. Con­chas, pedri­nhas, peda­ci­nhos de ossos, é disso que se faz a memória.

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