O comentário da semana


Pedro Correia,

«Boa noite Marta,

Devo dizer que este post que aparentemente seria para descrever o que lhe ia na alma acaba por ser o reflexo de muitos dos leitores deste blog. Inclusive de mim próprio. Estando desempregado, tenho lido muitos textos acerca deste estado de coisas esquisito em que nos encontramos, mas a verdade é que o seu texto reflecte, quase na perfeição, os meus sentimentos e vivências diárias.
No meu caso tenho 31 anos, quando fiquei desempregado tinha quase 30 anos, e já não me roubam os 6% (terminou o subsídio de desemprego a que tinha direito). Ingenuamente, confesso, cheguei a pensar não pedir o subsídio de desemprego por pensar conseguir empregar-me rapidamente e no entanto já passou mais de um ano e o subsídio terminou.
A situação é de tal maneira incrível que ficamos reféns do computador e do e-mail, às vezes de forma compulsiva, e são tão raras as empresas que nos respondem, bastava dizerem “(…) não se enquadra no nosso perfil. Obrigado.” Isto bastava e eu agradecia.
Uma das situações mais estranhas que se passa comigo é a rotina. Poderia dormir mais, mas acordo como se fosse trabalhar e não vou, poderia ver televisão e filmes durante a manhã e a tarde e não consigo, tenho de estar ocupado nem que seja a estudar temas novos para mim, e a sexta-feira mantém-se sempre como a venerável véspera de fim-de-semana e ainda assim não tenho motivação anímica (palavra da moda) nem vontade de esbanjar dinheiro para sair, e vendo bem os dias agora são sempre iguais de 2ª a Domingo, mas para mim não faz sentido que assim seja.
Deveria tentar acabar este comentário de uma forma positiva ao melhor estilo de Miguel Gonçalves (e que tal irmos vender pipocas?) dizendo-lhe que o “futuro será risonho”, que se “uma porta se fecha abre-se logo uma janela”, mas não consigo. Só lhe posso desejar muita sorte, igual àquela que desejo para mim próprio.»

 

Do nosso leitor João Paulo Silva. A propósito deste texto da Marta Spínola.

2 comentários em “O comentário da semana”

  1. Descrição muito realista e aproximada do dia-dia de 1.5 milhões de Portugueses , havendo muitos que já só sobrevivem da caridade.
    O grande pormenor de as empresas nem sequer se dignarem a ter email AUTOMÁTICOS de resposta mostra bem como estamos destruídos Moralmente , os valores não se cultivam apenas servem de chavão quando nos são favoráveis e na minha humilde opinião é essa falta de valores que corrói diariamente os precários alicerces da sociedade no geral.
    Esta crise é uma tempestade perfeita em que se conjugam inúmeros factores que nos impedem que dela saia-mos. A falta de dinheiro junta-se a muito pior falta de animo para mudar de paradigmas de governação que potenciem a saída deste turbilhão , estamos no Limbo sem poder voltar atrás ou rumar em frente.

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