João, pessoalmente achei-o excelente. Mas creio que depende do gosto de cada um. Em grande medida, é uma sátira às características e, mais especificamente, aos defeitos da humanidade, aproveitando as tensões e os medos (justificadíssimos) da década de trinta do século passado (mas, ainda assim, bastante actual em quase todas as áreas – políticas, sociais, filosóficas – que aborda). Não tem aquilo a que se possa chamar protagonistas, sendo um relato em três partes de como uma nova espécie de salamandra marinha é descoberta, de como as suas capacidades de aprendizagem e velocidade de reprodução a tornam muito útil aos humanos e de como, inevitavelmente, por razões friamente lógicas (as mesmas que levam os humanos a prejudicar outras espécies), as coisas descambam em tensão e violência. Possui também uma grande dose de pós-modernismo e alguma metaficção. Por exemplo, a segunda parte é toda ela uma análise, com recurso a notas de rodapé que incluem excertos de livros e de notícias (com fontes tipográficas variadas e até com alguns textos em línguas distintas da original, como o japonês), a qual relata a evolução da relação dos humanos com as salamandras: as experiências médicas a que são submetidas, o debate sobre os direitos que devem ser-lhes conferidos, as questões de propriedade e de responsabilidade legal pelos seus actos, etc., etc. (até o debate sobre se é ou não aceitável que andem nuas). Pessoalmente, achei-a um tour de force incrível, recheado de pormenores deliciosos (por exemplo, na parte sobre saber se as salamandras terão alma, há citações de gente famosa, entre as quais uma de Mae West segundo a qual elas não têm sex appeal, logo também não têm alma).
Ah, e já agora: considerando que as salamandras são muito mais fortes do que os humanos na água (e os navios não alteram a relação de força porque são facilmente afundados) mas que não subsistem muito tempo fora dela, a guerra, que apenas surge mesmo no final do livro, está longe de ser tradicional…
Mais uma coisa: suponho que a edição que te emprestaram seja a da Caminho, em formato de bolso e com capas azuis (há vinte e tal anos cheguei a ponderar comprá-la). Verifica pelo menos se tem os diferentes tipos de letra. Esta edição da Penguin é recente mas, segundo li, a tradução nem por isso. Há quem a considere mecânica e quem diga que está de acordo com o estilo de Capek e da época – como não sei checo, não posso comentar mas, globalmente, não lhe encontrei grandes problemas.
Ainda estou é irritado com Capek por ter metido na troika (oooooops) de advogados que a certa altura representam as salamandras um português…
Do Brunner só li “O Enciclopedista” (“Polymath”) – e tive de ir pesquisar porque deve estar em casa dos meus pais e já não me lembrava do título nem, para ser franco, de grandes pormenores sobre o enredo.
O “Polymath” não conhecia – mais um para ver se arranjo. Dele li um conto soberbo (“Judas”) e “Stand on Zanzibar”, considerado a sua obra-prima. Gostaria imenso de obter mais livros dele, mas infelizmente a maior parte da sua obra encontra-se fora de publicação – e mesmo nas ofertas em segunda mão da Amazon não é fácil encontrar alguns exemplares (ou encontram-se a preços elevados).
Mas “Stand on Zanzibar” é formidável – ainda que não seja habitualmente reconhecido como tal, diria que merece um lugar entre as grandes distopias literárias. Não o poderia recomendar mais.
O “War with the Newts” é bom? Emprestaram-me o livro há muitos anos, mas más experiências com traduções portuguesas fizeram-me evitá-lo.
João, pessoalmente achei-o excelente. Mas creio que depende do gosto de cada um. Em grande medida, é uma sátira às características e, mais especificamente, aos defeitos da humanidade, aproveitando as tensões e os medos (justificadíssimos) da década de trinta do século passado (mas, ainda assim, bastante actual em quase todas as áreas – políticas, sociais, filosóficas – que aborda). Não tem aquilo a que se possa chamar protagonistas, sendo um relato em três partes de como uma nova espécie de salamandra marinha é descoberta, de como as suas capacidades de aprendizagem e velocidade de reprodução a tornam muito útil aos humanos e de como, inevitavelmente, por razões friamente lógicas (as mesmas que levam os humanos a prejudicar outras espécies), as coisas descambam em tensão e violência. Possui também uma grande dose de pós-modernismo e alguma metaficção. Por exemplo, a segunda parte é toda ela uma análise, com recurso a notas de rodapé que incluem excertos de livros e de notícias (com fontes tipográficas variadas e até com alguns textos em línguas distintas da original, como o japonês), a qual relata a evolução da relação dos humanos com as salamandras: as experiências médicas a que são submetidas, o debate sobre os direitos que devem ser-lhes conferidos, as questões de propriedade e de responsabilidade legal pelos seus actos, etc., etc. (até o debate sobre se é ou não aceitável que andem nuas). Pessoalmente, achei-a um tour de force incrível, recheado de pormenores deliciosos (por exemplo, na parte sobre saber se as salamandras terão alma, há citações de gente famosa, entre as quais uma de Mae West segundo a qual elas não têm sex appeal, logo também não têm alma).
Ah, e já agora: considerando que as salamandras são muito mais fortes do que os humanos na água (e os navios não alteram a relação de força porque são facilmente afundados) mas que não subsistem muito tempo fora dela, a guerra, que apenas surge mesmo no final do livro, está longe de ser tradicional…
Mais uma coisa: suponho que a edição que te emprestaram seja a da Caminho, em formato de bolso e com capas azuis (há vinte e tal anos cheguei a ponderar comprá-la). Verifica pelo menos se tem os diferentes tipos de letra. Esta edição da Penguin é recente mas, segundo li, a tradução nem por isso. Há quem a considere mecânica e quem diga que está de acordo com o estilo de Capek e da época – como não sei checo, não posso comentar mas, globalmente, não lhe encontrei grandes problemas.
Ainda estou é irritado com Capek por ter metido na troika (oooooops) de advogados que a certa altura representam as salamandras um português…
A edição que me emprestaram não é da Caminho; é ainda mais antiga.
A ver se arranjo um dia destes. Metaficção não me assusta, ou não fosse “Stand on Zanzibar” um dos meus livros preferidos… 🙂
Do Brunner só li “O Enciclopedista” (“Polymath”) – e tive de ir pesquisar porque deve estar em casa dos meus pais e já não me lembrava do título nem, para ser franco, de grandes pormenores sobre o enredo.
O “Polymath” não conhecia – mais um para ver se arranjo. Dele li um conto soberbo (“Judas”) e “Stand on Zanzibar”, considerado a sua obra-prima. Gostaria imenso de obter mais livros dele, mas infelizmente a maior parte da sua obra encontra-se fora de publicação – e mesmo nas ofertas em segunda mão da Amazon não é fácil encontrar alguns exemplares (ou encontram-se a preços elevados).
Mas “Stand on Zanzibar” é formidável – ainda que não seja habitualmente reconhecido como tal, diria que merece um lugar entre as grandes distopias literárias. Não o poderia recomendar mais.
Errata: “troika”…”representa”.
Saudações leoninas, JAA.
Saudações leoninas, Pedro. Olha que não é fácil arranjar livros verdes. É muito mais fácil arranjar vermelhos ou azuis…