Bacelar Gouveia – homem que, nos idos de 1990s, trabalhou em Maputo com evidente garbo e reconhecida competência – foi agora eleito para a direcção do “meu” Sporting. Saúdo isso. Talvez influenciado por esse momento refere-se ao ministro das finanças utilizando o “futebolês”, algo que não gosto mas posso assim entender. Diz que Vítor Gaspar recebeu do Tribunal Constitucional um “duplo cartão amarelo” equivalente a um “cartão vermelho”. Repito, não gosto do “futebolês”, pacote de metáforas quase sempre empobrecedoras, mas tenho que concordar. O governo e o ministro das finanças repetem um comportamento desajustado, perdão, medidas inconstitucionais e elas são sancionadas. Ou o membro do governo não teve capacidade para imaginar medidas outras ou essas seriam, no quadro actual legal, inimagináveis, inaplicáveis. Em ambos os casos a opção possível parece-me única. A demissão. Pois ou não tem espaço de manobra política (legal, que seja) ou não tem alternativas intelectuais.
Miguel Relvas sai do governo. Por causa da sua biografia. E para satisfação muito alargada. Por causa da impopularidade do governo, em muitos casos. Mas também por causa da sua biografia ministerial: as tropelias com os serviços de informação, o maçonarismo esconso, as afrontas ao jornalismo, são as coisas mais evidentes.
Fica Passos Coelho frágil com isto tudo. Com o evidente insucesso do seu governo. Mas também (fundamentalmente?) por ter a imagem ligada a Relvas, pelo seu empenho na via de Vítor Gaspar, o que implica que PC não surge no governo acima dos seus ministros mais importantes mas sim com eles co-ligado. Do seu destino dependente.
Em Lisboa o sábado é para renovação, azáfama de telefones. Mas o governo já acabou. Mesmo mudando pessoas o seu primeiro-ministro já não o é.
Como fazer avançar o governo de Portugal, em tempos tão difíceis? Este morto, ainda que talvez embalsamável? O PSD não tem alternativas. Desde José Manuel Durão Barroso que o PSD não consegue apresentar a si próprio e ao restante país uma alternativa consistente. Teve uma hipótese aquando da última vitória de Sócrates, e quão danosa foi esta, mas suicidou-se. Agora mesmo os textos “voluntaristas” que chamam Silva Peneda a alternativa de poder são de uma irrealismo inacreditável. É um partido decepado, e porventura sê-lo-á pelos efeitos da partidocracia que o conquistou desde o tempo de Cavaco Silva no poder.
Procurar soluções no Presidente é outro irrealismo. Não pela sua concepção minimalista dos poderes presidenciais, como refere quem lhe lê os prefácios aos discursos. Mas porque Cavaco Silva é fonte de problemas. Não será o momento de procurar no seu consulado tantas das causas do populismo consumista que levou o país ao estado em que está, a idolatria dos grupos financeiros e comerciais, o demencial elogio do improdutivismo, a colonização do estado pelos interesses mais canibais. Mas é com toda a certeza o momento de lembrar o seu conúbio, mesmo que pessoalmente ingénuo, com as forças e os indivíduos que assaltaram a sociedade portuguesa. Em Cavaco Silva não habitam alternativas aos procedimentos políticos – ainda para mais sempre se auto-apresentando como “não político” – nem nunca habitou qualquer visão verdadeiramente desenvolvimentista do país.
Vamos então a eleições, propõe então António José Seguro, como se o seu partido não tivesse governado durante tantos e tantos anos, até este cenário actual. Se o PS dos últimos vinte anos tem sido o cúmulo do populismo, se o pinamourismo e o socratismo resultaram no que resultaram, que poderemos esperar agora? E como se não viesse anunciar que se candidata mas não para resolver problemas, como deliciosamente lembra Rui Rocha aqui abaixo.
É óbvio que o modelo de austeridade, puro e duro, não chega, não é eficaz. Mas o modelo do contrato social populista, o “europeísmo” se se lhe quiser dar um nome “flat”, também já tem não espaço para se continuar a reproduzir, o mundo mudou. Disso reacção é surgir o próprio Tribunal Constitucional a aconselhar o governo a fazer reformas estruturais no estado (julgo que algo inédito, os juízes a ditarem políticas aos políticos).
Urge repensar e reformar o país, urge repensar as relações com o(s) exterior(es) e, se necessário, afrontá-lo(s). Sopesando argumentações e práticas.
Ou seja, é urgente a política. E o desenvolvimento.
Para isso é notório que é preciso mudar o governo. “Já”, como se dizia antes, em momentos convulsos. Como de convulsões é este. Como mudar?
No quadro “político” actual só vejo uma solução, deixada pela constituição, apesar da nossa prática tradicional ser outra. (Pigarreio …)
Portas a primeiro-ministro. E a ver vamos.


Que provocação, JPT.
Só vejo uma hipótese naquele elenco: Paula von Hafe Teixeira da Cruz.
Não é uma provocação, é uma hipótese que a nossa tradição política obscurece, isto do partido minoritário escolher o PM. E Portas tem um passado político bem mais consistente numa altura que exige política, além das iniciais pirraças com o europeísmo (que dariam algum jeito agora, matizadas pela idade).
Dito isto, é uma provocação, também.
Rui Rio, no seio do PSD talvez fosse um caminho. Ainda que o moribundismo político dos dois maiores partidos exija uma “chicotada psicológica” (para ir ao futebolês)
PTC talvez, mas não tenho ideia formada.
Não tem ideia formada porque a senhora não faz alarde dos seus méritos e da sua contribuição para o País. Anda há mais de 20 anos a aturar a corja sem se exaltar, sem fazer intriga, sem as ânsias costumeiras de poder.
O Portas faz-me lembrar o Santana. Têm tudo para a coluna se manter direita mas deslumbram-se de tal modo consigo próprios e vergam-se à vaidade a uma velocidade tão alucinante que chapam invariavelmente com as ventas na água. Não têm arcaboiço para liderar uma Nação.
Estou de acordo, Gui. A PTC seria provavelmente uma boa escolha, se (logo para começar) o mulherio todo não começasse logo a pôr a casa em ordem e … a fazer-lhe a cama 😉
Mas seria um bom teste, até por isso.
É possível. O meu “não tenho ideia formada” não tem subtexto, deriva mesmo de falta de informação.
Quanto às características pessoais de Portas, enfim. É por demais subjectivo para eu ter uma ideia tão forte como a que apresenta.
Gostei de ler.
Mas não acredito nessa via. Só se fosse para, depois dela, ver reerguer com toda a pujança o bloco central, com a “esquerda do centrão” (ressuscitada 30 anos depois), toda de mãos dadas…
Que cenário dantesco.
Acho que Portugal ainda tem lugar para Rui Rio. Impoluto, CV indefectível, resiliente e sem medos. Quisera ele.
Também gostava, mas não sei se Rui Rio tem dimensão nacional — e com isto quero dizer que não fosse capaz, mas porque, precisamente porque é muito mais independente do que os seus correligionários, não tem coorte. O caminho para o poder está bloqueado pelos partidos.
Tem razão, Vasco. Pena é que a nosso conceito de ‘dimensão nacional’ dos políticos seja esse. O de serem, antes, devidamente entronizados em cada loja partidária. r.aspx?content_id=3147678&seccao=Viriato%20Soromenho%20Marques&tag=Opini%E3o%20-%20Em%20Foco
Um sistema que já não funciona mas que parece não nos largar, o que me devolve a esta crónica…
http://www.dn.pt/inicio/opiniao/interio
Dimensão é o assunto? Então sou maximalista. O que diria Constant (se pudesse) de um doutorado em filosofia, professor da universidade pública, a quem o estado dá um grão-colar da grande ordem do infante, a quem o quase estado gulbenkian entrega um sector (do ambiente) e que escreve uma tétrica pantomina comparando (tornando comparável) a atitude face às medidas tomadas com a banca cipriota com a atitude face aos campos de concentração alemães?http://www.dn.pt/inicio/opiniao/i nterior.aspx?content_id=3130003. Diante de um nojo intelectual e moral destes diria com toda a certeza que as sociedades industrializadas deixaram de atribuir importância às universidades, às condecorações e até às fundações deixando que anões micro-Relvas, bandoleiros da palavra, por aí andem colhendo dividendos.
Ou seja, por favor, soromenhos marques não!
Chipre? Isso fica bem longe,não? Qual será o significado da palavra Indiferença ?
Independentemente do que se possa considerar sobre as medidas relativas a Chipre (eu não considero, que não percebo o contexto, quanto muito “acho” mal, pobres cipriotas) o texto de VSM é selvagem.
“Um sistema que já não funciona mas que parece não nos largar”. Nem mais. E pela primeira vez começo a ter a sensação de que isto, de facto, vai acabar mal… Nem que seja por termos os cofres vazios.
Talvez acabasse nisso (no “bloquismo”). Ou, sonhando, na fragmentação. Explícita ou implícita. Rio é um bom exemplo. Coexiste com os delerues e os menesses. E é a isso que chamo bloco central, como gente eficaz e capaz estão nos mesmos partidos com quem devorou o país. Não será altura de rearranjar os tais partidos?
Mas claro, está mais do que na altura. Mas como é que se mobiliza uma sociedade estruturada nessa ‘disciplina’ dos compartimentos ideológicos? Muito difícil.
Como? Essa é “uma pergunta de um milhão de meticais”.
Não sei. Houve um tempo em que, ingénuo, pensei que o bloguismo punk pudesse ajudar nisso. Não me parece …
Parece-me que nada do que seria certo e correcto fazer será feito.
Já se perderam quase 2 anos e tudo continuou na mesma , perdão , evoluiu para pior.
Das pessoas que actualmente fazem parte do executivo só vejo uma capaz de liderar e bem : Paulo Macedo , tem curriculum , sabe dialogar , não está ligado a lobbys e mais que tudo não suporta comissários políticos apesar de lhe terem posto um secretário de estado que o é .
Obviamente nada disto passará e o PSD e PPC farão a inevitável fuga para a frente pois sabem que ainda têm mais 2 anos pela frente e que as sondagens ainda são favoráveis pois apesar da memória curta dos Portugueses penso que jamais o PS ganhará umas eleições agora.
“Deus não o ouça!”
Porquê ?
Então não disse “Parece-me que nada do que seria certo e correcto fazer será feito.”? Esperemos que isso não aconteça…
Ah ok !
Pensava que se referia á minha sugestão .
Mas como sou Português , sou pessimista (REALISTA) por natureza por isso não acalento grande esperança.
Infelizmente, PP tem-se revelado mais calculista do que corajoso. Tinha 15% dos votos e não os fez valer em questões cruciais (que estavam no programa eleitoral do CDS e que garantiram esse resultado fora do vulgar. Um sinal mal interpretado): remodelação autárquica ao nível dos concelhos e não das freguesias, remodelar a função pública, suspender os contratos com as PPP’s, etc, etc. 15% dos votos não é brincadeira e é um motivo de força e pressão na coligação. Todas as “causas” do CDS se esfumaram por detrás dos objectivos de tesouraria. Não cumprir com esses desideratos numa altura destas vai afastar muita gente das urnas nas prox. eleições. Por mim falo.
Não está mal dito. Lamento em particular a inexistência de uma varridela autárquica, que me parece mais-do-que-necessária, para além das poupanças
Discordo !
Está muito bem dito !
Quem esquece também não pode depois ser lembrado.
O PP fez o mesmo que a esquerda radical mas com mais marketing e resultou melhor.
Não é só nas autarquias , verdadeiros viveiros de carreiristas e relvas , de desperdício , de pppzinhas e empresas municipais falidas.
O pessoal anda ai entretido com a banha da cobra dos cortes de 4.000 milhões e as PPP fraudulentas mantêm-se , os gastos de empresas municipais mantêm-se , as empresas do estado continuam sem rei nem roque, os isaltinos deste País continuam a fazer gato e sapato da justiça.
As fundações da treta criadas nos últimos 15 anos para acederem a benefícios fiscais riem-se , as empresas monopolistas fazem os preços que querem.
E depois a culpa é da constituição ?
Haja mais coragem , haja mais cojones dos políticos mas isso é pedir um milagre por isso para o povo perceber e se perceber de quem o rouba é melhor que tudo pare e o povo tenha mais tempo para se informar e comece a Pensar algo terrível para quem acha que manda.