O Governo em ruínas.


Luís Menezes Leitão,

 

O problema deste Governo foi desde o início um e apenas um: uma estrondosa falta de liderança. Tal resulta do óbvio défice de competências que Passos Coelho tem para Primeiro-Ministro, uma vez que lhe falta simultaneamente capacidade política e competência económica. Precisamente por isso o Governo que formou assentava em dois pilares principais: Miguel Relvas para a área política e Vítor Gaspar para as finanças. Um dos pilares ruiu hoje e o golpe no Governo é de tal ordem que Passos Coelho nem foi capaz de indicar o substituto. O outro pilar, já muito esboroado, pode cair amanhã se o Tribunal Constitucional trucidar o orçamento de Estado.

 

Miguel Relvas teve habilidade política suficiente para fazer Passos Coelho chegar a Primeiro-Ministro, mas no Governo tomou decisões completamente erradas. Contratou António Borges como consultor, com carta branca para as privatizações, que se revelaram um desastre. Reduziu a reforma das autarquias a uma extinção de freguesias à vontade dos fregueses. De caminho deixou-se enredar em casos pitorescos como espiões, ameaças a jornalistas, licenciatura, etc. No fim ainda conseguiu pôr as candidaturas autárquicas do PSD em combate com os tribunais, para gáudio dos adversários. Era manifesto que já não trazia qualquer vantagem política ao Governo, pelo que deveria ter saído há muito tempo. Sai agora na pior altura possível nas vésperas da decisão do Tribunal Constitucional, ao que se diz por causa de um relatório sobre a Lusófona que já estaria na posse do Governo há meses. A ser assim, é provável que arraste igualmente Nuno Crato na queda.

 

Vítor Gaspar é igualmente um caso perdido como Ministro das Finanças, como aliás se viu desde o seu primeiro discurso, quando anunciou impostos extraordinários em lugar de cortes de despesa, tendo prosseguido nessa senda, contra tudo e contra todos. Amanhã se verá se o Tribunal Constitucional lhe permite manter um mínimo do inacreditável Orçamento de Estado que concebeu, ou se o caso já não tem remédio, tendo que arrumar igualmente as pastas.

 

A ruína deste Governo tem, no entanto, apenas um culpado: Passos Coelho. Foi o seu défice de coordenação e supervisão que deu carta branca a Gaspar para inventar as medidas económias mais loucas possíveis, como a TSU, e permitiu a continuação de Miguel Relvas no Governo até ao limite do insustentável. Um Primeiro-Ministro que coordenasse efectivamente os Ministros nunca teria deixado as coisas chegarem a este ponto. É por isso que não me alegra nada a demissão de Miguel Relvas, aliás substituído pelo vazio absoluto. Ficaria satisfeito era com a demissão de Passos Coelho. É tempo de a maioria arranjar outro Primeiro-Ministro. Se não, será a oposição a fazê-lo. 

5 comentários em “O Governo em ruínas.”

  1. “…Gaspar para inventar as medidas económias mais loucas possíveis, como a TSU,…”
    “Medidas económicas mais loucas”?! A redução da TSU?! Recordo que a redução da TSU é precisamente um dos poucos instrumentos que se podem utilizar para reduzir os custos do trabalho num país que tem de competir no comércio internacional, sem baixar os salários, em ambiente de moeda única (não desvalorizável por opção do Governo)!

  2. Creio que o tempo indica a favor de sua afirmação, “é tempo da maioria arranjar outro Primeiro-Ministro”. Afirmo isto porque o PR deve ter isso em mente. Todavia, a bem da transparência, e evitando golpes de estado para que tudo fique na mesma, o PR devia respeitar a nação, que lhe conferiu a dignidade de a representar, para convocar novas eleições. Eu sei que mesmo que o PS ganhe só poderá governar com os verdadeiros Sociais Democratas. Pois então, que regressem estes à cena política, a começar por Silva Peneda.
    Em tudo o mais que produziu em seu texto só posso dizer que subscrevo, porque se algo mais dissesse seria para rasgar a manta. Em período Pascal convém fazer algum jejum.

  3. A política sempre se confundiu com a pulhítica, ou seja a confusão entre o ataque às ideias e aos seus portadores.
    O problema é que quando não há ideias políticas, ficamos reduzidos à pulhítica – a arte de transformar o outro num pulha.

    Após a consolidação dos partidos, das suas opções políticas, desapareceram os políticos e apareceram os pulhíticos.
    Pior, quando os partidos já nem ideias políticas representam, quando ficam reduzidos a clubes de filiação a cargos de poder, então a política reduz-se por completo à pulhítica.

    – O PS é quem mete mais dó, porque há décadas que não se vê vivalma naquele partido que tenha esboçado um projecto político.
    Hoje em dia, é confrangedor olhar para aquela bancada.
    – O PCP tem o projecto político de Cunhal, presumo que o original, manuscrito na prisão de Peniche.
    – O BE deve ter umas linhas escritas em guardanapos de papel, no primeiro encontro. A palavra Trotsky aparece repetida e sublinhada, logo o pessoal da UDP guarda isso no cofre.
    – O CDS tem o projecto político na cabeça de Paulo Portas, nunca foi bem escrito, e por isso o próprio não sabe se sabe que sabe o que é.

    Acho que a última tentativa de escrever um projecto político veio mesmo de Passos Coelho.

    Portanto, ou Passos Coelho seria o único com projecto político, ou o único sem projecto político. Por unanimidade dos restantes, tem-se optado considerar que ele é o único sem projecto político.

    Bom, se ao contrário de Cavaco, ele tem dúvidas, ficou evidente que também não tem projecto político, pois já teve tempo para perceber que a sua vaga dissertação precisaria de revisão profunda, perante a realidade.

    Chegámos ao ponto de não ter um único projecto político adaptado à conjuntura actual. Nem dentro, nem fora dos partidos. Ninguém já arrisca a escrever nada… excepto trivialidades pontuais, sem uma visão sistemática.
    Olhando em redor, só vejo pulhíticos… procurando uma frase de ocasião, a retórica, o ataque ao carácter.

    É claro que Relvas era o pulhítico de serviço, que permitiria a Passos a aura de político. Mas como não havia política, reduziu Passos a zero.
    Agora Passos tem que redefinir o seu espaço. Dificilmente o deixam ser político, porque a política nacional é escrita em Bruxelas e balbuciada pelo emissário Gaspar.
    Resta-lhe ocupar o lugar de Relvas, ser ele o intermediário com os ministros, porque o “governo que nos deixam ter” é o da “gestão corrente”.

    Qualquer queda de governo, etc… seria apenas uma presunção de que a pulhítica resolve alguma coisa da nossa política.
    Para pensar em política é preciso ser independente, e para isso é preciso sair dos espartilhos.

    Não se pode ser poder ensanduichado entre os curto-circuitos do sistema, que ligam directamente os senhores locais aos senhores de Bruxelas, e ignoram olimpicamente o governo local.
    Tão simples e complicado quanto isso…

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