12 comentários em “Duas horas no nevoeiro (19)”

  1. Lá estão eles…
    guardiões de memórias
    Dos tempos em que os homens
    arriscavam a vida, Douro a baixo
    Douro a cima.
    Desde a Régua, Barca Dálva, Pinhão
    Trazendo o néctar a Gaia.
    Esse vinho de refinado bouqué,
    Criado nas encostas de xisto
    Rasgadas em sucalcos,à força de músculo,
    com ferro de aluvião, como quem rasga o ventre
    da mãe, em que foi gerado e, na ânsia de se dar,
    se solta, encosta a cima, às costas do homem,
    em cestos de vime, até ao lagar.
    Depois, encosta a baixo, em carros de bois ronceiros,
    chiadores, que é preciso ir calçando amiúde,
    não vá a carga despencar-se, ribanceira a baixo.
    Lá estão eles…
    testemunhos de uma luta de anos; o homem contra os elementos, contra a pobreza, sempre com a coragem ao seu lado.
    Depois, chegando à foz, Gaia, descarregava os pipos.
    Seguiam até à ribeira onde o mestre recebia, de barrete na mão, a parca paga pelo transporte e a distribuia pelos da campanha.
    Tostões que nos bolsos eram guardados, só o tempo de chegar à primeira taberna, e depois de uma parte se gasta num meio-quartilho de verde tinto, a outra se gastava num recanto entre as pernas de moça.
    Um néctar tão inebriante, quente e doce, quanto o que nas pipas viajaria para inglaterra…

    1. Ah, Badalamenti… Excelente banda sonora, sem dúvida. Mas tenho de confessar: quando vi o Mulholland Drive pela primeira vez fiquei tão entretido a olhar para as duas actrizes que nem me apercebi da música.
      (Quem diz a verdade não merece castigo.)

  2. Ficaram bem bonitos 🙂

    E a ponte, senhores, a ponte que tantas vezes atravessei, desde os dois ou três anos de vida. Ambos os tabuleiros, a pé, de autocarro, de trólei, de carro… E também, hélas, de metro de superfície, numas férias, há uns anos (o tabuleiro superior, claro).

    1. É preciso ser muito mau fotógrafo para os conseguir tornar feios, Cristina. 🙂
      E – nha nha nha nha nhaaam – eu ainda atravessei a ponte – a pé, pelo tabuleiro inferior – na Quinta-Feira passada.


      1. O tabuleiro inferior é mais indicado para atravessar a pé. Acho o corrimão do superior muito baixo, houve uma altura na minha vida que tinha medo de tal caminhada. Era na altura em que havia um movimento louco de carros e autocarros, durante todo o dia. E tudo tão estreito… E a ponte abanava que se fartava… Admira-me nunca ter havido um acidente grave! (Ainda bem que não houve).

        Já agora, e correndo o risco de tornar este comentário longo, com banalidades, lembrei-me de uma história:
        Acordei, há cerca de dez anos, uma manhã, aqui na Alemanha, com o rádio/despertador a dar as notícias. Ainda estremunhada, ouvi a jornalista germânica falar de um acidente grave em Portugal, uma ponte que caíra, arrastando um autocarro e alguns carros consigo, na cidade do Porto!!! Ela disse mesmo na cidade do Porto!!! Levantei-me com o coração aos pulos. Pensei logo na Ponte de D. Luís, fiquei muito angustiada e não descansei, enquanto não telefonei à minha mãe, que me disse que tinha sido uma ponte em Castelo de Paiva (o que não minimiza o acidente, mas, enfim, não era a D. Luís). Pois, para uma locutora alemã, Castelo de Paiva e Porto eram a mesma coisa! Uma ponte, continuou a minha mãe, onde passámos tantas vezes… Não te lembras?
        Não, não me lembrava (nem lembro). É que, na verdade, nasci em Castelo de Paiva e morei lá até aos 4 anos. Até mudarmos para Vila Nova de Gaia.
        Já agora: o jaa conhece a Rua 1º de Maio? (Não fica longe do local destas fotografias)

        O tabuleiro superior da D. Luís, agora, é bem mais sossegado, só com o metro 😉

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