«As casas que habitámos ainda nos habitam"
José Mário Silva, Luz Indecisa
Passo junto à porta da primeira casa onde vivi – um terceiro andar na principal avenida de Almada. Parece-me que nada mudou no prédio onde morei nos primeiros três anos de vida. De lá me vêm as mais remotas recordações que guardo de uma infância feliz. Tenho inúmeras fotos – todas a preto e branco – lá tiradas pelos meus pais.
Ponho-me a pensar em todas as casas onde vivi até hoje em diversas paragens. Santo Tirso, Viana do Castelo, Barreiro, Cova da Piedade, Díli, Fundão, Hereford, Tercena, Corroios, Charneca da Caparica, Macau, Lisboa.
Vinte e duas casas. Uma vez por outra, quando calho, passo por uma delas e miro-a com atenção. Como se procurasse reviver um pedaço de mim que por lá ficou.
Há quem more toda uma vida no mesmo sítio, entre as mesmas quatro paredes. Eu já tive o destino repartido por muitas terras, por muitos tectos – incluindo em casas de familiares e amigos – em Londres, Tóquio e Nova Iorque, no Alentejo e nos Açores.
Fixo o olhar no primeiro prédio onde morei, na Avenida D. Nuno Álvares Pereira, parece que foi ontem. E não cesso de me espantar: ia jurar que está exactamente como quando o deixei.
As pessoas deviam envelhecer ao mesmo ritmo que as casas, com um vagar de muitas décadas, desafiando de pé as inclemências do clima e a traiçoeira erosão do tempo.


Excelente.
Obrigado, Leonor. Cada vez penso mais assim.
Faço essa retrospectiva muitas vezes: Porto, Baltar, Famalicão, Tavira, Setúbal, Bissau, Bafatá, Macau, Matosinhos, Madeira, Lisboa, São Miguel, Terceira. Em casa de familiares e amigos também: Bruxelas, Lisboa, Valongo, Charneca da Caparica, Coimbra, Viana do Castelo, Vila Real, Viseu, Monsanto (Beira Baixa), Leiria, Caldas da Rainha, Figueira da Foz, Quiaios, Torres Novas (ou Vedras, nunca sei), Aveiro, Setúbal, Lagos, Praia da Rocha, Hong Kong, Paris.
Somos uns ‘globe-trotters’, compadre. Sempre com a casa às costas.
E eu a achar que já tive muitas casas… vocês batem-me aos pontos, e olhem que eu já mudei bastante! Gosto de mudar de casa, aliás: cada uma é um novo desafio, até torná-la numa parte de mim ou eu numa parte dela. Mas já vou ficando cansada do jogo, confesso. As mudanças dos tarecos são muito cansativas.
A tua frase final é linda, Pedro, e eu subscrevo-a totalmente. Que bom seria.
Livra! A minha vida tem sido de caracol: devagarinho e com a casa às costas. E cada vez mais coisas. Ando a precisar de uma casa só para os livros e as colecções. Também já vou ficando cansado.
Pois, Ana. Quando me pus a pensar que já vivi em 22 casas até eu próprio fiquei surpreendido.
É isso mesmo, Pedro Correia.
Já agora, nunca se sentiu a percorrer a casa no seu interior ?
Tantas vezes, meu caro.
A minha vida de andarilho também já me levou a viver em quase três dezenas de casas, em mais de uma dezena de países. Ainda recentemente , em Londres, estive parado mais de meia hora em frente à primeira casa onde lá vivi ( na Queensway) a recordar os tempos da minha estadia em Inglaterra. Revivi algumas das emoções que então vivi e tive uma sensação agradável.
Felizmente ainda posso desfrutar, regularmente, da casa do Porto onde (quase) nasci. O regorgitar de emoções desse tempo não é tão intenso, talvez por saber que a casa, sendo ainda minha, está sempre aberta para me acolher.
Obrigado por este post, Pedro!
Por vezes sinto vontade de revisitar algumas das casas onde vivi, Carlos. Já me tem acontecido. Agora ando com vontade de voltar a Hereford, onde vivi um longo Verão, durante a adolescência, e nunca mais voltei. Como estará essa belíssima cidade britânica?
Um texto bonito. Que faz bem ler.
[Bolas. E eu a cuidar que tinha vivido em muitos lugares! Ainda assim soubesse eu os critérios para se considerar que se morou nun determinado local (tempo mínimo de estadia) e quase me atrevia a concorrer com os meninos, não em países, mas em lugares]
:))
Nalguns casos foram alguns anos, noutros poucos meses. Mas de todas as casas retive memórias intensas. E é bom que isso suceda, Maria do Sol.
Belo post, Pedro.
E o mais incrível é que a casa que inspirou o poema que citas (R. Serpa Pinto, n.º 6, 2.º Esq.) fica em Almada, casa onde vivi entre os dois anos e os 11. A poucas centenas de metros dessa Avenida D. Nuno Álvares Pereira que atravessava a caminho de escola e que conhecia como a palma das minhas mãos.
🙂
Espantoso, José Mário. Conheço bem toda essa zona, onde passei parte da infância e depois alguns anos, durante a adolescência. Conheço bem, concretamente, a rua Serpa Pinto. Gosto destas coincidências inesperadas, que têm sempre algum significado. E gostei muito do poema: de tal maneira que me suscitou este textinho.
Abraço
Caro Pedro,
este escuro fez-me lembrar a JSD: um vazio de ideias!
Acompanha a nova polémica nas eleições europeias, que envolvem curiosas acusações de copiar propostas:
http://www.jovemsocialista.org
Concordo e até escrevi a propósito
http://www.juventude-partidaria-em-fuga.pt
Caro Luís,
Isso não é já mania de meter a política em tudo? Nem só de política vive o homem, meu caro.
Nostálgico, intenso e sentido este teu texto. Gostei muito.
É raro pararmos para pensar nestas coisas, Teresa. E desta vez apeteceu-me mesmo reflectir nisto, por motivos vários.
Gostei muito, e já agora faço o mesmo exercício, nunca feito até hoje:
Leiria-Golpilheira (Batalha)-Coimbra-Coimbra-Coimbra-Göttin gen (Alemanha)-Enschede (Holanda)-Enschede-Maastricht.
Muito menos casas nestes anos. Resultado de uma família que não se mudou muito e de uma vida que me deu alguma estabilidade aqui e ali.
Ainda passo algumas vezes pela minha primeira casa. Melhor, não é tanto a casa que me marca, é mais a rua e o largo onde brinquei em criança. Esse é um largo que não me larga.
Obrigado, João André. É um bom exercício mental e emocional este de nos lembrarmos de todas as casas onde já vivemos. E também as ruas, os largos, as árvores, as luzes e as sombras. É como diz.
Caro Pedro, lindíssimo post . Ontem tinha deixado aqui um comentário, presumo que se perdeu. Tenho uma enorme saudade da casa onde vivi até ao final da minha adolescência em Nampula. Não sei se alguma vez a a voltarei a rever …
Obrigado, Ariel. Eu revi em 2004 as duas casas em que vivi em Timor nos anos 70. Pensava que tivessem sido destruidas pelo fogo ou outro motivo qualquer. Nada disso: lá estão, quase na mesma. Uma delas com as mesmas papaieiras ainda no quintal. Foi uma grande emoção revê-las.