"SEJAMOS HONESTOS E DECENTES"
Esta noite, houve outro debate sobre as europeias, desta vez na TVI 24. Um debate reduzido a cinco: foi, de longe, o pior dos quatro já realizados. Os candidatos falavam uns por cima dos outros, ao jeito dos pregoeiros de feira – nenhum debate deste género consegue ser eficaz para diminuir a gigantesca abstenção que se prevê para 7 de Junho.
Será isso mesmo que se pretende? Às vezes parece-me que sim.
Fica o registo das frases que me pareceram mais relevantes e uma breve apreciação das prestações dos candidatos.
FRASES
Miguel Portas. "Nós podemos, com o voto, mudar alguma coisa. Com a abstenção não mudamos nada."
Ilda Figueiredo. "Os principais responsáveis desta construção capitalista da União Europeia são os grandes responsáveis pela abstenção."
"Não é por acaso que sou a deputada responsável por mais perguntas à Comissão Europeia."
Vital Moreira. "Não faz sentido nenhum submeter 600 páginas [do Tratado de Lisboa] a referendo."
"Sejamos honestos e decentes."
"As pessoas, quando votam [em referendos], votam contra."
"A posição do PCP e do BE relativamente ao referendo não é tolerável em termos de discussão democrática."
Miguel Portas. "[Vital Moreira] Revela uma cultura totalitária face à Europa."
Vital Moreira. "Eu não tolero ofensas verbais."
Paulo Rangel. "Compreendo que os portugueses se abstenham. Quando estamos aqui há dez minutos a falar do referendo…"
Nuno Melo. "Choca-me um bocadinho que o candidato Vital Moreira evoque as vantagens fiscais dos países que integraram recentemente a UE quando representa um partido que tem aumentado todos os impostos."
Ilda Figueiredo. "Porque é que não acabaram ainda com os paraísos fiscais?"
Paulo Rangel. "Ó Ilda, tenha paciência, não pode monopolizar o debate."
"É chocante a falta de execução dos fundos comunitários, por responsabilidade do Governo português."
Vital Moreira. "Vocês garantem que ficarão no Parlamento Europeu?"
Nuno Melo. "Eu não sou um candidato de faz-de-conta."
Paulo Rangel. "Vital Moreira tem candidatos faz-de-conta na sua lista."
Nuno Melo. "Se Elisa Ferreira quer ir para o Porto não tem que ir primeiro ao Parlamento Europeu ‘dar o nome."
Miguel Portas. "O grande problema do nosso país são as elites que gostam de fazer piscinas com ondas com os subsídios europeus."
"Esta crise está a ser paga por quem não tem culpa."
Vital Moreira. "Silvio Berlusconi fez uma proposta que atenta contra a cidadania europeia. Gostava de saber se vocês [PSD e CDS] não se sentem envergonhados. Isto é contra a dignidade humana."
Paulo Rangel. "O PSD não recebe lições do candidato Vital Moreira nem do PS. Votámos em Portugal a mesma lei da imigração."
Nuno Melo. "A Turquia não é Europa. (…) A curto prazo pode ser o país mais populoso da Europa."
Ilda Figueiredo. "A Turquia continua a ocupar um país que é estado-membro da UE, o Chipre."
CANDIDATOS
Ilda Figueiredo. Usa e abusa de frases feitas. Tem o péssimo hábito de não se calar quando outro candidato começa a falar. Utilizou o melhor dos argumentos para se opor à entrada da Turquia na UE (a ocupação ilegal de Chipre).
Miguel Portas. Sabe demarcar-se com eficácia da lógica argumentativa dos restantes candidatos. Neste debate foi o mais apagado, provavelmente por algum problema de ordem física (estava bastante rouco).
Nuno Melo. Voltou a aludir com habilidade às bicandidatas que integram simultaneamente a lista socialista ao Parlamento e já fazem campanha autárquica pelo PS. Baralhou-se ao falar da Turquia: é ou não um país europeu?
Paulo Rangel. A calma que evidencia contrasta com o nervosismo de Vital Moreira. Mas foi incapaz de se demarcar das propostas xenófobas de Silvio Berlusconi, parceiro do PSD no Partido Popular Europeu.
Vital Moreira. Parece estar sempre à beira da exasperação, em particular com os seus concorrentes de esquerda, o que contraria a política de alianças natural do PS. Saiu-lhe bem a crítica à nova política de imigração do Governo italiano.


Não vi, Pedro. Já calculava que poderia ler aqui a tua excelente descrição do evento. Em contrapartida vi uma excelente entrevista do Zeinal Bava à Judite de Sousa.
Devia ser “leitura” obrigatória para todos os empresários e políticos deste país.
Sem dúvida.
O Zeinal passou-me ao lado por ‘imposição’ das europeias. Mas confio nos vossos conselhos: não perderei a próxima (as televisões costumam fazer estas entrevistas por atacado).
Também não vi. Estive a ver outra tourada.
Obrigada, mais uma vez, por este serviço público para preguiçosos como eu.
Obrigado, Ana. Desta vez garanto-te que não perdeste (quase) nada.
Eu diria que, dos muitos argumentos contra a integração da Turquia, a ocupação “ilegal” de Chipre é o menor de todos.
Chipre é um problema entre nacionalistas turcos, que são umas bestas, e nacionalistas gregos, que são outras bestas. Não há qualquer razão válida para que a União Europeia apoie e dê cobertura às segundas bestas. A União Europeia deve lutar por um Chipre unido e multi-étnico. Não deve favorecer o Chipre que os nacionalistas gregos desejam.
Um argumento válido contra a integração da Turquia é o caráter distitamente não-europeu de uma boa parte da população turca, com as suas tradições, por exemplo em matéria de tratamento das mulheres, distintamente não europeias (refiro-me em particular ao Curdistão). Istambul é uma cidade largamente europeia, mas boa parte do resto da Turquia não o é. Outro argumento válido é a pobreza da Turquia, que tem um PIB per capita que é metade do da UE. Onde é que vai haver fundos estruturais para apoiar a Turquia?
Surpreende-me que a questão da possível adesão turca esteja a ser tão pouco debatida na pré-campanha, pelo menos em Portugal. Os argumentos que invoca no seu comentários merecem, sem dúvida, análise séria, nomeadamente a questão dos fundos estruturais: estaremos dispostos a financiar a adesão turca? Quanto a Chipre, discordo: é uma questão de princípio. A Turquia ocupou a parte norte da ilha à revelia do direito internacional e desrespeitou várias resoluçoes da ONU. Isto não pode merecer a mínima transigência dos países membros da UE no plano dos princípios.
“Sejamos honestos e decentes” foi uma frase que lhe saiu bem. “Eu não tolero ofensas verbais” é que foi pior: parece que está a pedir mais ofensas corporais como no 1.º de Maio!
“Sejamos honestos e decentes” é um bordão do professor Vital, há muito em uso no Causa Nossa. “Sejamos sérios” e “Um pouco mais de rigor” são outras frases dele que também o perseguem desde há muito. De facto, como bem dizes, o adjectivo ‘verbais’ está a mais: rima e é verdade.
Vital Moreira um gatinho? E a Ilda uma gata? O Nuno Melo e o Miguel ainda vá, mas chamar ao Rangel um gato? Não arranjas uns bichinhos mais adequados para fazer este papel?
Ainda pensei em cinco pinguins, Hot Legs. E outros animais que agora não menciono. Fiquei-me pelos gatinhos para não pôr leões, que seria manifestamente exagerado, ou águias, não fossem ficar tão depenadas como a do Benfica.
Águia?? Aquilo não é águia…!