Homens e bichos


Pedro Correia,

 

Acho um absurdo ver mais pessoas a mobilizar-se por um animal do que por um ser humano. Desde a difusão mundial dos filmes produzidos por Walt Disney com as suas personagens antropomorfizadas, criou-se a convicção que os animaizinhos, coitadinhos, são iguaizinhos a nós. Rejeita-se a natureza em função da dimensão “cultural” dos bichos, fecha-se os olhos a essa evidência que é o instinto primário, faz-se de conta que nunca foi sequer inventada a palavra feroz – algo que soa a um inaceitável primitivismo.

Alarga-se o conceito rousseauniano do “bom selvagem” aos animais, que imaginamos imunes à contaminação do mal. E desembocamos nisto: 30 mil almas sensíveis em defesa de um enternecedor ão-ão que se limitou a “atacar” um bebé de ano e meio (o verbo “atacar” funciona aqui como eufemismo para iludir os factos) e ao qual deve ser concedida uma “segunda oportunidade” (tese quase obscena neste caso, pois cão que mata uma vez pode matar duas ou três).
Eis a doutrina Padre Américo em versão animal, com uns pós de Brecht: não há cachorros maus. A culpa não é do rio, mas das margens que o comprimem. Aliás, se o conceito de “reabilitação social” vigora para os seres humanos, porque não haveremos de lhe atribuir uma interpretação extensiva, colando-o às feras?

A propósito desta história com um final tão infeliz, interrogo-me: se o pitbull de Beja fosse poupado ao abate por um inesperado indulto, que espécie de futuro dono poderia dar guarida, sem o menor sobressalto de consciência, a um cão que levou uma criança à morte?
Apetece dizer-lhes que se vão catar. Não às bestas, mas aos bípedes.

 

Alterei o texto inicial, no penúltimo parágrafo, e actualizei o número dos peticionários

46 comentários em “Homens e bichos”

  1. E permita-me ser um tanto tétrico. Seria bom que esses assinantes todos (e calculo que muitos nunca levantaram um dedo pelos animais que apodrecem em canis sem o mínimo de condições) vissem as fotos da pobre criança depois do ataque da besta. Eu não vi nem preciso de ver.

  2. Atacar é mesmo um eufemismo, Pedro. Gostava que dessas tais vinte mil pessoas que assinaram a petição saber quantas a assinariam se vissem o seu filho a ser morto da forma como foi esta criança. O cão abocanhou a cabeça do bebé e simplesmente a desfez.Parte do cérebro do menino deverá ter ficado entre os dentes deste animal.
    Mas é com toda a certeza um boby que eu gostava de reabilitar e dar aos meus filhos, como parceiro de brincadeiras. Haja paciência para tanta estupidez.

    1. Obrigado por trazer aqui o texto do Rodrigo, Isabel. É verdade que os donos devem ser responsabilizados e punidos, o que não invalida esta evidência: há animais maus. Selvagens, bestas, feras. Muitos atacam os próprios donos, mesmo bem alimentados, mesmo bem tratados. Faz parte da sua condição. Sobretudo quando derivam de manipulações genéticas. Entendo, por isso, que devem ser aplicadas medidas muito restritivas – dede logo a esterilização – contra a proliferação de raças animais programadas para cometer actos violentos.

  3. Infelizmente, creio que é ainda pior do que o Pedro descreve.
    A humanização dos animais visou mais a bestialização dos homens.
    Para isso contribuiu a pseudo-ciência darwiniana, que mistura a evidência que os mortos não sobrevivem, com a ignorância de que há uma diferença entre o bicho empalhado e o vivo. A matéria pode ser a mesma, mas não é “por acaso” que um morde e o outro não.

    Se por um lado houve um tratamento mais humano dos animais, essa confusão bestial levou também a que os outros humanos sejam mais facilmente vistos e considerados como bestas.
    A pseudo-teoria darwiniana legitimou a eugenia, ou seja, um apuramento de uma certa mentalidade medieval que queria ver na nobreza um apuramento da espécie, e a restante “populaça” como animais… Aliás poderia ser mais tolerante com os seus canídeos ou equídeos do que com os seus camponeses.

    Estamos em presença de um movimento desse tipo, e a sua génese parece-me que se encontra na confusão das bestas.

    1. Gostaria que me explicasse que é isso da “pseudo-ciência Darwiniana”. Aprendi a teoria da evolução proposta inicialmente por Darwin e refinada ao longo dos tempos por muitos outros cientistas, mas essa da pseudo-ciência Darwiniana não conheço. Deve ter a ver com alguma seita australiana.

      1. Pois, mas se sabe a história do assunto, perceberá que as evidências fósseis mostravam saltos evolutivos, e não uma depois propalada continuidade. Há uma descontinuidade fóssil entre vegetais e animais – aquisição de sistema nervoso.

        A selecção genética é anterior a Darwin, e tem como exemplo as diversas raças de cães que se produziram… mas não deixaram de ser cães, por muito diferente que fosse o aspecto. Darwin e seguintes não apresentaram até hoje provas da passagem de espécie de cão, ou outro animal, só de raça… por isso, quando não há provas, é pseudo-ciência.

        Também é claro que pode considerar que um animal congelado e um animal vivo têm a mesma matéria, e por isso é só uma questão “de sorte”, para ele voltar a viver depois de reaquecido.
        Há “seitas” desse género…

  4. “Estralhaçou”? Quer dizer que o senhor já conhece os resultados da autópsia? Estralhaçar é diferente de atacar. Aliás, nem atacar será a palavra correcta. A criança caiu, a reacção do animal foi agarrá-la (leu as notícias antes de escrever o post?). Com os dentes porque é assim que fazem com as crias. Infelizmente um cão não tem a mesma inteligência que nós: reage por instinto e desconhece as consequências do seu acto.

    E não foi em Évora, mas em Beja.
    Leia com atenção.

  5. Pedro Correia, só comento o seu texto porque o “Delito” merece o meu maior respeito.
    Fui uma das almas que assinou a petição, não para dar uma 2ª oportunidade, mas sim porque não aceito a morte de algum homem, assim como não aceito a morte de algum melhor amigo do homem. Concordo que este cão é um perigo, como tal nunca mais poderá estar perto de alguma criança e dos adultos só devidamente açaimado. Aplique-se a lei e verifique-se, se os cães considerados de raças perigosas têm licença e seguro e principalmente que não se permita a sua reprodução. Quanto a si, e aqueles que querem a morte do cão, será que se querem desresponsabilizar? Esta petição em boa hora vem chamar à colação o real problema, passará a dar-se a devida atenção à fiscalização dos cães e responsabilização dos donos, ou esperar que aconteça outro caso para em seguida culpar o cão e a seguir matá-lo?
    Uma palavra de pesar para a família e amigos e uma oração pela criança.

    “A grandeza de uma nação pode ser julgada pelo modo que seus animais são tratados.”
    Mahatma Gandhi

    1. Estou de acordo com o essencial do que escreve: cumpra-se a lei. Que é clara nesta matéria (o problema em Portugal é termos leis óptimas pessimamente aplicadas). E o essencial aqui é partilharmos da dor da família, não tornar nossas as supostas dores do cão.

  6. 1º O CÃO NÃO ESTRILHAÇOU A CRIANÇA….A CRIANÇA MORREU DE TRAUMATISTO E NÃO TINHA UMA UNICA DENTADA NO CORPO…. ( INFORMÇÃO DA AUTOPSIA JÁ UBLICADA…)

    1. Susana, não conheço o texto do Daniel Oliveira mas seguindo a hiperligação que aqui deixou li o seu texto sobre esta matéria. Estou em profundo desacordo consigo. Você fala na morte de “dois inocentes”, equiparando o bebé ao animal que o matou!
      Por isso mesmo escrevi o que escrevi…
      Sem ir mais longe, peço-lhe que releia o seu texto e atente neste pormenor, para mim chocante: a criança nunca é tratada pelo nome, só o ‘pitbull’ tem direito a nome próprio. Nome de gente, ainda por cima.

      1. Pedro, quando escrevi o meu texto ainda não tinha sido divulgado que o nome do menino era Dinis. Não sou jornalista e se houve um erro neste sentido foi sem dúvida dos jornalistas.
        Reli o meu texto várias vezes antes de o publicar e sinceramente não mudaria nada neste momento. A minha opinião é a mesma… aguardo com alguma ansiedade que se apurem verdades… porque se houve negligência em manter um animal de grande porte, não desejado, num local sem condições para o mesmo e sem vigilância tendo em conta a presença deste bebé, não me espanta que a negligência dos adultos envolvidos, possa ir mais longe…

        1. Susana, a negligência dos seres humanos é criticável e eventualmente punível. Isso não invalida que existam animais cujo convívio com os seres humanos se torna impossível – e totalmente inaceitável do ponto de vista ético. Refiro-me, obviamente, à ética humana, pois não existe uma ética animal.
          Os animais geneticamente programados para cometerem actos violentos são uma aberração. Fruto do erro humano, e da maldade humana, sem dúvida. Mas isso não pode levar-nos a negar as evidências. E a verdade é que este cão não se limitou a “atacar”, como dizem os promotores da petição: este cão matou.
          Segundo a autópsia, a morte da infeliz criança deveu-se a ferimentos provocados pela mordedura do ‘pitbull’. Aqui não há que inventar nada: há que cumprir a lei. Este cão não pode matar outra vez.

          P.S. – O seu blogue passou a constar da barra lateral do Delito.

  7. Eu acho que, mais do que um resultado dos filmes de Disney, este comportamento traduz uma crescente anglicização da cultura portuguesa.
    Esta mania de proteger e amar os animais acima dos seres humanos é uma caraterística da cultura anglossaxónica que, tal como as outras caraterísticas dessa cultura, se está a expandir em Portugal. Portugal, anteriormente uma colónia cultural da França, é hoje uma colónia cultural anglossaxónica.

  8. Estou a catar-me fervorosamente desde ontem… Será que já posso parar?

    E tudo porque um ser senciente e potencialmente violento foi colocado, por alguém consciente, em contacto com um bebé. Será assim tão difícil assumir que os culpados por tudo isto são os donos do cão?

    Sejamos práticos: se a única medida que tomamos quando uma situação destas acontece é o abate do cão, não conseguimos fechar a torneira a novos casos. Temos de chegar às origens, agir preventivamente, ao invés de punir o objecto (cão, neste caso) que de antemão se sabe que é dotado de uma determinada natureza. Não tem nada a ver com a “fofura do bicho”. Todos os cães que até agora atacaram pessoas foram abatidos. Pararam, os ataques? Não, não pararam. Se em vez de um cão, estes pais tivessem um leão em casa? Abatiam-no? Não, provavelmente ia para o zoo.

    Eu respeito a vida. Coloco, obviamente em 1º lugar a vida humana, os meus semelhantes, mas a dos outros seres também merece o meu respeito. Se podem ser perigosos para nós, que se estabeleçam fronteiras. Agora, puni-los por agirem de acordo com a sua natureza, não vale. Que se puna quem os deslocou para locais incompatíveis com essa sua natureza.

    1. Quero com isto dizer que a A está cheia de razão: quem esteve mal foi o bébé, que se atirou para cima do “zico”, um cão com o apelido do meu avô, logo boa “pessoa”. Além do mais, o animal não esfrangalhou a criança, limitando-se a esmagar-lhe o crânio, que é coisa bem diferente, convenhamos.
      Se 22.000 pessoas assinaram a petição, tenho de concordar que o “zico” merece outra oportunidade de “apertar” outra criança, mesmo que de forma diferente do que as cadelas fazem aos seus filhotes.
      Quem assim não pensa, ou é tolo ou é desumano. Mais nada!

  9. Desconfio que metade dos signatários não teria assinado a petição se o dito ão-ão tivesse “atacado” um gatinho bebé…

  10. Até que enfim que vejo alguém que coloca as coisas onde devem estar. Excelente texto, Pedro. Certeiro, sem tabus. Pois parece-me que é quase tabu tocar na questão animal, muitas vezes. Aplaudo, sinceramente. Também escrevi sobre isso, aqui:

    http://aefectivamente.blogspot.pt/2013/01/a-mae-que-sofria.html

    Inacreditável, a petição. Anda mesmo tudo doido. (Apreciei igualmente a posição do jornalista Daniel de Oliveira, claro.)

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