Um retrato é a forma de perpetuar a presença de uma pessoa – é, em si, um desafio à morte.
Bem pode ter sido este o pressuposto de Walter Schels e de Beatte Lakota, (ele fotógrafo, ela editora da secção de ciência da Der Spiegel) ao organizarem em 2008 a exposição “Noch mal leben” (“Viver novamente”). Era propósito fotografar de cada pessoa um momento terminal em vida, e um primeiro momento após a morte, e colocar os dois instantes frente a frente. Frágil e dificílima proposta, que poderia ser subvertida pelo pudor e pela elegância, ambos grandes inimigos da verdade, tanto ou mais do que a crueza, porque esta, ao menos, procura o excesso e não as balizas da moral.
O resultado foi, no mínimo eloquente no seu delicado silêncio, e dele dir-se-ia que resulta uma afirmação capaz de pôr em causa um dos mais graves conceitos da nossa civilização: um rosto humano preserva toda a sua dignidade, mesmo depois de ter sido abandonado pela alma.
Beate Taube, 44 anos
1ª foto: 16.01.04 ; morte: 10.03.04
Heiner Schmitz, 52 anos
1ª foto: 19.11.03 ; morte: 14.12.03
Jannik Boehmfeld, 6 anos
1ªfoto: 10.01.04 ; morte: 11.01.04
Michael Lauermann, 56 anos
1ª foto: 11.01.03 ; morte: 14.01.03




A única conclusão a tirar dessas 4 fotos é que não capturam a morte. Bem poderiam estar a dormir.
O longo sono.
A propósito: estás a pensar escrever alguma coisa sobre o William Brasse?
*Wilhelm.
Confesso: fui à internet ver quem era. Depois vi que era o senhor polaco das fotos de Auschwitz. Isso é toda uma outra morte. Fico-me por estas mais domésticas, menos maléficas…
Estou fascinada com esta tua série (sim, as questões em volta da morte fascinam-me sempre, ao mesmo tempo que me intimidam). Mas não concordo com a tua conclusão. Pelo menos nestes casos das fotografias, acho que a dignidade foi inteiramente preservada.
Então é não é isso mesmo que digo?
Ah, ok, então fui eu que percebi o contrário…
O retrato perpetua a presença de um pessoa num pedaço de vida,perpetuando na nossa memória,a imagem de uma vida que nos foi querida, que nos “pertenceu”, que faz parte do que somos, depois de a alma lhe ter deixado o corpo, é nisto que acreditamos, é por isso que tiramos retratos, é por tudo isto que os guardamos até perderem a cor original. Guardamo-los. Temo-los por perto, “vivos”, nas gargalhadas que ficaram registadas, que existem, apenas, naquele bocado de papel, luz, sombra e tinta que as fixou. Quem não guarda imagens felizes dos seus “mortos”?
O desafio apresentado nestes quatro retratos nada tem de tétrico, mórbido, triste ou doentio. Então por que não o fizemos antes? Por que não nos lembrámos e não registámos num quadrado de papel os rostos dos que amamos, no momento em que a alma se foi? Será porque preferimos perpetuar o”retrato vivo” dos nossos mortos? Não será essa imagem, apenas, o registo de um momento, um único momento da vida e, por isso, incompleto e fictício? Não fará parte do que somos, também a imagem que a morte em nós desenhou? De facto, tal ideia nunca me ocorreu, não sou fotógrafa, nem tenho sensibilidade para fixar o que os meus olhos veem sem atraiçoar o que estou a ver. A sentir. Não sei fazer isso. Não aprendi.Não aprendemos a olhar para a morte deste modo, sem tabus, sem medo, sem culpa… mas se o fizermos, preservando o”silêncio” e a “elegância”, no primeiro momento em que “a alma abandona o corpo”, não só registaremos a dignidade de uma vida humana, como estaremos a registar, também, a verdade de um ciclo que se fecha. Sem a subversão de moralismos de sacristia. Sem a perversão da banalidade. A dignidade da vida humana não o permite.
(Estou em crer que o trabalho deste fotógrafo e desta editora ainda fará correr muita tinta, passo o lugar-comum, a mim, inquietou-me – obrigada Walter Schels e Beatte Lakota).