A notícia do despedimento de cerca de 50 trabalhadores do Público, trinta e seis dos quais jornalistas, dá origem aos mais variados comentários que vão desde a preocupação justificada com a situação das pessoas em causa até às dúvidas sobre o futuro da imprensa ou ao sublinhar dos perigos que pairam sobre o direito à informação, a liberdade de expressão e a própria democracia. Todos estes aspectos são pertinentes. Todavia, há a propósito disto pelo menos duas perguntas a formular:
a) quem, de entre os que se pronunciam sobre o assunto, compra o Público com um mínimo de regularidade?
b) vale a pena comprar o Público?
Pessoalmente, respondo a ambas as perguntas com um não. Há anos que não compro o Público e há anos que deixei de achar que valia a pena. O Público foi o único periódico a que, em algum momento, chamei o “meu jornal”. Enquanto andei na Universidade, era compra diária. E foi no Público que li o anúncio daquele que viria a ser o meu primeiro emprego. Depois, a nossa relação de amizade deteriorou-se. Nestas coisas, há sempre razões de ambas as partes. Mas, se me perguntarem, direi que não mudei muito desde que nos conhecemos e que foi o Público que se foi tornando irreconhecível com o passar dos anos.

O Belmiro gosta de gastar dinheiro com jornais de esquerda, ainda por cima maus. Mesmo assim, está vários graus acima do Expresso.
Creio que a questão fundamental é mesmo a qualidade. Pode ser-se de esquerda ou de direita e ter qualidade.
Pode-se ser de esquerda e direita e ter qualidade, diz. Poderá, embora a esquerda seja relativista e para o marxismo a objectividade é um assunto de classe.
O que não deixa de ter graça é que uma empresa privada pague um jornal que é agora o arauto do BE… e onde se podem ler artigos que não ficariam mal no Avante.
Sim, é verdade que o marxismo e a objectividade nunca se encontram.
eu não me pronunciei sobre o jornal, mas posso dizer que compro regularmente.
Registado, Daniel.
Sorriso pela empatia, pelo texto…melancólico sempre porque foi também em tempos longínquos “o meu Jornal”;
JMF iniciou o tempo em que me afastei, com imensa pena do “meu Jornal”.
Hoje? Hoje não tenho nenhum jornal, que considere meu, aquele Jornal.
Abraço Rui
Compreendo bem, David.
Rui, o mermão deve a sua vida profissional ao Público. Faça o favor de investir no jornal para evitar despedimentos.
Num certo sentido, é verdade. Se não fosse aquele anúncio lido no Público, a minha vida teria sido certamente diferente.
Qual o interesse de ler o Público nos dias de hoje? Saber o que pensa o BE sobre a situação actual? Não entender como se escreve português? Doa a quem doer e a mim doi-me, porque já foi o meu jornal, e hoje não é, o Público fazia um grande favor ao país se hoje simplesmente desaparecesse…
Percebo o que diz, António.
Já houve vários jornais a que chamei “o meu jornal”. Por diversos motivos, desde logo porque dirigi dois. No caso do ‘Público’ também assim foi por ter feito parte da equipa fundadora e ali ter assinado largas dezenas de artigos durante os três primeiros anos de vida deste diário que revolucionou no melhor sentido a imprensa portuguesa. Com uma equipa brilhante de jornalistas encabeçada pelo Vicente Jorge Silva, a quem considero um verdadeiro mestre da profissão.
Não me surpreende esta notícia, embora a lamente, tanto mais que tenho vários amigos no ‘Público’ – que é uma sombra do que foi, concordo, aliás como sucede com outros títulos relevantes da imprensa portuguesa. Mas o jornalismo, tal como o conhecemos, tende a acabar por diversos motivos – desde a concorrência imparável da internet à crescente proletarização das estruturas redactoriais, com profissionais dispensados aos 40 anos por serem “velhos e caros” e jovens mal saídos das faculdades que trabalham cada vez mais horas por cada vez menos dinheiro, no papel e no ‘on line’, muitas vezes sem contrato, a recibo verde, como se fossem “profissionais liberais”.
Não sucede só em Portugal – longe disso. Um jornal tão importante como ‘El País’, apesar do seu impressionante número de vendas, prepara-se para despedir pelo menos um quarto da redacção – e uma parte significativa dos que ficarem sofrerão uma considerável redução do salário. O mesmo está a suceder, por exemplo, no ‘El Mundo’ e no ‘New York Times’.
Desde 2008, fecharam 57 órgãos de comunicação e oito mil jornalistas perderam os empregos em Espanha.
É uma página que se vira. Não sabemos ainda bem o que se seguirá. Mas nada ficará na mesma.
Partilho o diagnóstico, Pedro. E imagino o tipo de sentimentos que este tipo de notícias deve despertar em quem, ao contrário de mim, não foi um mero leitor.
Sou algo mais novo Pedro, e como tal o Público envolveu-me aquando do período académico; encantou-me e inebriou-me, na sua génese sob VJS.
Obrigado (nunca lhe dei este obrigado) por ter feito parte de tal momento; por ter feito parte do “meu Jornal”; o único que tive até à data.
Pedro, espero que esses profissionais que são despedidos, em particular esses que dizem ser “velhos” (estupidez de país), possam constituir-se numa espécie de sindicato e produzir um jornal online, tentando sobreviver com receitas de publicidade. Hoje também é possível constituirem-se como correspondentes de outros jornais ou órgãos de informação estrangeiros através da internet. Pensem bem, meus caros, pensem bem nisto. Se necessário constitua-se aqui um forum para debater os critérios de um jornal desta natureza para que todos ajudemos todos, em particular os profissionais da informação também desempregados, a edificar esta ideia.
Bye, bye papel. Já tínhamos conversado sobre isto… O problema é que num mercado estreitinho como Portugal os leitores não se deslocaram em massa para outros suportes. Além de que padecemos de uma originalidade: somos o único país NO MUNDO com 3 canais de notícias generalistas no cabo. Provavelmente deixou de haver lugar para jornais.
Sim, ainda hoje pensei nisso. Não é so a net que tira mercado. Com tanto programa de comentário e debate e derivados, que espaço fica?
também já foi o meu jornal (por coincidência, também na faculdade) e deixou-o de ser quando passou a ser director JMF. e deixou de ser um jornal quando este conspirou, através de uma mentira encomendada, para tentar derrubar um governo em funções. um verdadeiro jornal nunca faria aquilo. nesse dia, morreu como jornal…
História muito mal contada, é verdade.
Boa noite. Para perceber ainda melhor o post, penso que seria interessante saber que jornais lê o autor e se compra algum.
Obrigado.
A resposta é fácil: não há nenhum jornal português que compre ou leia com regularidade em papel. Os únicos de que fui leitor fiel e reiterado foram o Público e o Expresso. Deixei de comprar o Expresso há um bom par de anos. Com o Público cortei há mais.
existe algum jornal portugues no seu ponto de vista, que seja de qualidade ainda? É que.. o correio da manhã vende, mas não podemos dizer que seja melhor
Não. Devo confessar que não encontro motivos para entusiasmos em nenhum título.
Pois, isto começa a bater nos jornalistas de grande auditório…
Já há algum tempo é assim noutros setores.
E em marcas que pessoalmente gostava e que era reconhecida a qualidade.
A economia funciona.
Também, MS.
Good old times…
É curioso porque o que escreveu é exactamente o mesmo sentimento que tenho, em relação a outro jornal, no caso um semanário o Expresso.
Compreendo, JF.
Meus jornais já foram o DN – comecei a ler era quase do meu tamanho, no formato grande. O Diário Popular – na altura com o suplemento Aerospaço que ainda tenho arquivado.
Fora dos generalistas o Autosport. Esse parei de ler porque 3 vitórias seguidas da Ferrari com Alain Prost, altura nunca chegaram à primeira página, quando um GP F1 tem sempre direito à primeira página.
Foi um claro caso de bias dos jornalistas do Autosport em favor de Senna e deixou de ser o jornal.
Depois o Publico por um breve período nos anos 90 e o Expresso até ao ano 2000 intermitente até 2002-3 aí farto da monocultura crescente e da mentira pura e simples dos jornais – não acredito que ninguém seja capaz de ir a uma Jane’s e ver quem forneceu armamento ao Iraque, já para não falar de pesquisar na web – e deixei de comprar.
Praticamente como eu relativamente ao Público e ao Expresso.
Talvez esteja na hora de os jornalistas começarem a ter sites pessoais ou colectivos com publicidade (why not, se um jornal tem), com uma pequena equipa técnica. No fundo, tornar os blogues “pro”. Como trabalho em webdesign e etc, acho até uma boa saída para criar empregos ainda que numa linha muito freelance.
Yeap.
Caminha-se para aí, claro. Há todo um caminho a explorar nessa matéria. O que nada tem a ver com o que ficou para trás.
Falta ainda referir que uma das causas e a mais grave é o facto de os jornalistas se terem enganado em quase tudo na última década.
Uma pessoa compra jornais para ficar mais informado e uma das razões mais importantes para se estar informado é para conseguir prever o futuro.
Ora os jornalistas na última década fruto da sua monocultura deram ênfase a tudo menos com o que importa. É só comparar o investimento que fizeram no CO2 e Aquecimento Global por comparação com o Endividamento. Hoje 50km a Norte de Israel há mais 100 mortos por dia, já não há notícias, por cá em primeira página tivemos um falso massacre de Jenin. Acordos de Kyoto, os delírios da Estratégia de Lisboa e a própria “Europa” foram outras bolhas que rebentaram.
Tudo actividades de governos fortemente instigadas ou apoiadas por jornalistas.
Vasco: ainda há pouco estava a ler isto sobre Matt Drudge http://www.businessinsider.com/drudge-re port-is-worth-2012-10
Exacto, lucklucky. Era aí que eu queria chegar. Obrigado pelo link.
Entendo a sua posição. De facto, o Público vinha perdendo qualidade e independência de dia para dia. E falo com a autoridade que me dá o ter comprado, até hoje, quase todos os jornais que saíram, o que, na sua opinião, não será muito abonatório. Para mim, claro…
Confesso que o editorial da Bárbara Reis, por altura da saída do José Manuel Fernandes, fazia temer por este desfecho: a partir daí, embora todos os dias lesse o editorial, ficava frequentemente chateado por não saber quem tinha escrito “aquilo”, se o Manuel Carvalho, se a Bárbara Reis, se outros. Sendo aqueles textos não assinados, quando discordava deles, o que me acontecia muitas vezes, ficava sem saber a quem “pedir responsabilidades”, e isso é coisa de que não gosto…
Por outro lado, a Secção “Cartas à Directora”, na minha opinião, bem podia mudar de nome e chamar-se, antes, “Cartas de Alguns Leitores”, tantas vezes ali se tem dado voz aos mesmos, quase todos com as mesmas ideias dos autores dos editoriais…
E assim se deu cabo de um jornal que foi, como sugere, um jornal de referência, transformando-o num jornal de causas…fracturantes. E, ao que tudo o indica, a fractura está quase a ficar exposta…
Creio que está mesmo, TA.
Passaram-se 20 anos.
Agora tem a Net e os Blogues e, afinal de contas, 20 anos são diferentes de 40. Talvez o público não seja assim tão diferente, mas o Rui é. Tenho a certeza.