Na morte de Santiago Carrillo


Pedro Correia,

 

Certos homens tornam-se figuras quase míticas ainda em vida. Aconteceu assim com Santiago Carrillo, o histórico líder dos comunistas espanhóis. Figura destacada da resistência à ditadura franquista, durante o longo exílio que se sucedeu à sangrenta guerra civil de 1936-39, desempenhou um papel essencial no regresso do país vizinho à democracia. Foi um processo atribulado, cheio de sobressaltos e que várias vezes esteve à beira do colapso. Acabou por ser bem sucedido, inaugurando o mais longo período de paz e prosperidade da história de Espanha, em grande parte graças à sabedoria e à sagacidade do então secretário-geral dos comunistas, em sintonia com o Rei Juan Carlos.

Já em 1956 a Direcção do Partido Comunista de Espanha inflectira a sua posição tradicional, apelando à “reconciliação nacional” entre as diversas famílias políticas do país que se opunham à ditadura. Consciente da necessidade de enterrar de vez os fantasmas da guerra civil, ultrapassando o perigoso mito das “duas Espanhas” irredutíveis, aceitou a bandeira monárquica e o Rei como Chefe do Estado. Em troca, viu o seu partido enfim legalizado no Sábado Santo de 1977 pelo primeiro-ministro centrista Adolfo Suárez – outro destacado obreiro da transição, tal como o conservador Manuel Fraga Iribarne (falecido há escassos oito meses) e o socialista Felipe González.

São inesquecíveis as fotografias coloridas dessa época, em evidente contraste com as imagens a preto e branco da decrépita Espanha dos legionários de Franco. Adversários de toda a vida, como os ex-franquistas Suárez e Fraga, perfilavam-se ao lado de Carrillo e González, recém-surgidos da clandestinidade. No centro, como figura pendular, o Rei Juan Carlos, hábil negociador que foi capaz de fazer sentar velhos iniimigos à mesma mesa. Daí nasceram os pactos da Moncloa e a Constituição de 1978, símbolos da Espanha moderna e progressiva que superava as dilacerantes memórias das décadas anteriores.

 

 

Carrillo soube distinguir o essencial do acessório, integrando os comunistas na democracia plena sonhada por pensadores como Ortega y Gasset, Salvador de Madariaga e Gregorio Marañon. Na linha da orientação estratégica que imprimira ao partido desde 1956, quando delineou a política de “reconciliação nacional” entre os espanhóis de todas as tendências que se opunham à ditadura e do corte com as práticas estalinistas. Doze anos mais tarde, quando os blindados do Pacto de Varsóvia invadiram a Checoslováquia, fez críticas desassombradas a este acto criminoso, considerando-o indigno de países que se reclamavam do socialismo.

Já na Espanha democrática, quando os militares nostálgicos do franquismo invadiram o Parlamento durante a tentativa golpista de Fevereiro de 1981, deu outra prova de integridade ao recusar atirar-se ao chão, contrariando as ordens do tenente-coronel Tejero Molina e dos seus guardas de assalto, armados até aos dentes. Só dois outros homens recusaram igualmente cumprir tal exigência, proferida na sala das sessões naquela tarde arrepiante em que a democracia esteve por um fio: Adolfo Suárez e o vice-primeiro-ministro Gutiérrez Mellado.

Santiago Carrillo morreu esta tarde, durante a sesta, aos 97 anos. “Esteve lúcido até ao último momento e apagou-se sem dar por isso”, revelou o filho aos jornalistas, enquanto o monarca espanhol destacava o “papel fundamental” que o ex-secretário-geral do PCE desempenhou na transição.

Por amarga ironia, Carrillo desaparece no momento em que nacionalistas radicais e extremistas de esquerda vociferam contra a lei fundamental e o espírito de conciliação que caracterizou as últimas décadas da política espanhola. Com isso, procuram destruir o admirável legado de lucidez e tolerância que Santiago Carrillo soube legar aos seus compatriotas. Consciente de que as fogueiras do passado podem sempre regressar, lançando cinzas irreversíveis sobre a Espanha do futuro.

 

Imagens. Em cima: Carrillo enquanto deputado na década de 70. Em baixo: Fraga Iribarne e Carrillo em Fevereiro de 2011

8 comentários em “Na morte de Santiago Carrillo”

    1. Isso mesmo, Teresa. Sacrificar todas as manobras tácticas em função dos grandes desígnios estratégicos. É isso mesmo que faz a diferença entre um político medíocre e um político de excepção.

    1. As cronicas sobre a sua participação na guerra civil não abonam muito a seu favor – ao que parece, terá feito parte de brigadas responsáveis pelas mortes de Paracuelos de Jarama. Mas a verdade é que em tal guerra havia um ambiente colectivo de morte, e ninguém era inocente. Carrillo soube reconciliar-se com os adversários e desempenhar um papel muito importante Transição e na democracia espanhola. Pormenor curioso, o homem fumava com uma chaminé e viveu quase até aos cem anos.

      1. Caro João Pedro, é precisamente como você diz: naquela guerra não houve inocentes. Como refiro em resposta ao Monge Silésio, interessa-me essencialmente valorizar o papel de Santiago Carrillo como pacificador e construtor de pontes durante a exemplar transição espanhola de 1976-78 em que passou da clandestinidade em Paris (com uma breve prisão em Madrid) a deputado constituinte, tornando-se um dos impulsionadores da actual lei fundamental espanhola. Ficou célebre a intervenção que fez na assembleia constituinte, a 5 de Maio de 1978, e em particular esta frase-chave: “Enquanto a Monarquia respeitar a Constituição e a soberania popular, nós [comunistas] respeitaremos a Monarquia.”
        Manteve-se fiel a este importante compromisso que selou com os espanhóis, representandos na figura de D. Juan Carlos. De poucos políticos, dessa época e de outras, se pode dizer o mesmo.

    2. Caro Monge: não ignoro o morticínio de Paracuellos del Jarama, provavelmente a maior atrocidade cometida pelos republicanos durante a guerra civil, nem o de Torrejón de Ardoz. Foram crimes repugnantes que a História condena sem remissão e chocam qualquer pessoa bem formada, seja qual for o seu quadrante ideológico. Mas foram crimes cometidos numa guerra particularmente dilacerante da qual ninguém saiu com mãos limpas.
      É certo que Carrillo nunca esclareceu devidamente o seu papel em Paracuellos, enquanto conselheiro de ordem pública em Madrid, e o tema era-lhe visivelmente incómodo.
      Mas na hora da sua morte preferi naturalmente valorizar o relevante papel desempenhado pelo antigo secretário-geral comunista enquanto promotor activo da reconciliação entre espanhóis das mais diversas tendências nos difíceis e duros anos da transição. Uma posição que aliás antecipara na resolução do Comité Central do PCE em 1956 ao apelar ao diálogo com católicos e dissidentes do franquismo.
      É este espírito que importa valorizar num momento em que alguns fanáticos pretendem ressuscitar os fantasmas da mais sangrenta guerra civil de que há memória em solo europeu.

  1. No antípodas de Cunhal.
    Não sei se é verdade ou lenda o que se contava dele, em que certa vez, numa reunião do comité internacional, algum centro-europeu mimoseava a procissão à Virgem (em Espanha) com vitupérios… E ele, de um salto, atravessou-se com qualquer coisa como “- No soy creyente pero en la Virgen de España no la tocaréis!”.
    Voilà… 🙂

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