O CDS/PP.


Luís Menezes Leitão,

 

Prossigamos a nossa análise ao estado dos diversos partidos políticos, fazendo referência agora ao caso do CDS/PP, que tem estado na berlinda nos últimos dias. Trata-se talvez do partido ideologicamente mais complexo que existe em Portugal, o que explica grande parte das reviravoltas em que tem estado envolvido.

 

Podem encontrar-se no CDS três linhas políticas diferentes. A primeira é uma linha democrata-cristã, de catolicismo social, inicialmente representada por Freitas do Amaral e Amaro da Costa, e hoje claramente protagonizada por Assunção Cristas. A segunda é uma linha de liberalismo económico, inicialmente defendida por Lucas Pires, e hoje protagonizada por Pires de Lima. A terceira é uma linha nacionalista e conservadora, representada inicialmente por Adriano Moreira e Manuel Monteiro, e hoje protagonizada por Ribeiro e Castro. Este conflito torna o CDS um partido ubíquo, já que a primeira linha situa-o entre o PS e o PSD e as outras duas linhas à direita do PSD. Por isso os objectivos políticos do partido também variam de acordo com as suas linhas. A primeira linha pretendia que fosse um partido charneira, semelhante aos liberais na Alemanha, fazendo e desfazendo coligações. As outras linhas aspiravam a torná-lo uma grande partido de direita, semelhante ao PP espanhol.

 

A linha democrata-cristã corresponde à matriz inicial do partido, na altura da sua fundação. Essa linha é claramente de esquerda, salvo em matéria de costumes, devido à ligação à Igreja Católica. Por esse motivo, defende uma forte intervenção social do Estado, não se importando de aumentar impostos para obter tal fim. As posições de Freitas do Amaral a defender o aumento da tributação dos mais ricos ou a de Cristas a querer taxar ferozmente as grandes superfícies são coerentes com esse propósito. 

 

A grande contradição do CDS começa precisamente no momento em que é criado. Sendo um partido colocado ao centro, devido à proibição pelo MFA dos partidos à sua direita (como o MIRN e o PDC) acaba por receber todo o eleitorado da direita do regime. Esse eleitorado apercebia-se, no entanto, de que havia algum problema com o partido, a quem acusava de ter complexos de esquerda. Curiosamente, a melhor votação do partido (quase 16%) foi logo a seguir a ter votado contra a constituição, a única vez em que esteve de acordo com o seu eleitorado.

 

Esse eleitorado viria, no entanto, a entrar em estado de choque quando o CDS se coliga com o PS no governo. Para a linha dirigente, a coligação fazia todo o sentido. Para o eleitorado dos dois partidos era um escândalo, já que os militantes jacobinos do PS dificilmente podiam aceitar estar juntos com os saudosistas do antigo regime. O CDS entra assim numa prática que depois se lhe tornou comum: desfazer coligações. Os ministros do CDS saem do Governo e Mário Soares é demitido por Eanes.

 

O CDS ensaia então pela primeira vez a aproximação ao PSD, aceitando o convite de Sá Carneiro para formar a AD. Na AD o partido fica claramente unido, uma vez que uma coligação de direita agrada ao seu eleitorado e às linhas liberal e nacionalista. Mas Freitas do Amaral ambiciona liderar a coligação, quase o conseguindo num momento fugaz, logo após a morte de Sá Carneiro, em que no PSD órfão se chegou a admitir que a AD pudesse ser liderada por Freitas. Eleito Balsemão, o seu governo soma desastres sucessivos, o que leva Freitas a tentar novamente a liderança na AD, quando após as eleições autárquicas, exige mudanças. O PSD responde com a demissão de Balsemão e Freitas, já a sonhar com Belém e achando o partido muito pequeno para o seu ego, demite-se de todos os cargos políticos. Nova destruição de uma coligação pelo CDS.

 

O CDS é então liderado por Lucas Pires que abandona a matriz democrata-cristã para o que na altura chamou de “nacionalismo liberal”. Sendo a única oposição de direita ao Bloco Central, o CDS sonha destruir o PSD nas eleições subsequentes surgindo como o grande partido de Direita, à semelhança do que em Espanha o PP tinha feito à UCD. As sondagens davam na altura ao CDS valores colossais, o que, quando Cavaco Silva chega ao poder no PSD, leva Lucas Pires a afirmar que só haveria coligação com o PSD se houvesse paridade entre os dois partidos. O eleitorado de Direita cai, porém, nos braços de Cavaco Silva, Lucas Pires é substituído por Adriano Moreira, e o CDS fica reduzido ao partido do táxi. A oposição de Direita ao cavaquismo transfere-se para o jornal O Independente de Paulo Portas.

 

Paulo Portas foi claramente o novo fundador do CDS. Inicialmente decidiu tomar o partido por intermédio de Manuel Monteiro, o que representou um triunfo claro da linha nacionalista e eurocéptica do CDS que até levou Freitas do Amaral ao Parlamento para votar a favor de Maastricht. Toda a gente percebeu, no entanto, que Manuel Monteiro era uma criação de Paulo Portas, dizendo-se que enquanto outros partidos tinham jornais, no CDS um jornal tinha um partido. Quando Manuel Monteiro rompe com Paulo Portas, ficou claro que era Manuel Monteiro que acabaria por sair. Surge assim uma cisão oficial do CDS, com a Nova Democracia que, no entanto, não tem sucesso algum. Aliás, as cisões do CDS foram muito comuns, tendo Lucas Pires ido abraçar o PSD e o movimento Humanismo e Democracia saltado para os braços do PS.

 

Paulo Portas tem um extraordinário sentido político e soube dar todas as piruetas que eram precisas para tornar o CDS um partido de poder. Passou de eurocéptico a eurocalmo e, quando Marcelo Rebelo de Sousa o quis armadilhar, trucidou-o completamente numa entrevista televisiva. Conseguiu assim fazer o CDS voltar ao Governo, após o colapso de Guterres. Quando Durão Barroso entregou o Governo a Santana Lopes, Paulo Portas viu aí a oportunidade para atingir a estratégia há muito sonhada pelo CDS de destruir o PSD. O CDS ia-se distanciando dos disparates de Santana Lopes e quando o Governo caiu às mãos de Sampaio apareceu com cartazes a dizer que o CDS era o “voto útil” da direita. O eleitorado castigou, no entanto, os dois partidos igualmente e Paulo Portas achou por bem demitir-se. Falhou, no entanto, a sua estratégia de governar o partido por intermédio de Telmo Correia, pois o partido escolheu Ribeiro e Castro. Por isso, logo a seguir Paulo Portas regressou.

 

Com as novas eleições após o colapso de Sócrates, Paulo Portas consegue um enorme peso no Governo, em face da teimosia de Passos Coelho em querer manter o Governo reduzido, e apelar a uma série de independentes. Percebendo perfeitamente que o Governo iria ser queimado no lume brando do Memorando da troika, escolheu para si o cargo em que menos probabilidades tinha de ser chamuscado: o de Ministro dos Negócios Estrangeiros. E a estratégia continua a ser ir-se distanciando cada vez mais do Governo para permitir ao CDS conseguir finalmente atingir o objectivo de ser o grande partido da Direita, reduzindo o PSD à sua expressão mais simples. É por isso que o CDS, perante o disparate do século cometido por Passos Coelho, já ontem se veio demarcar claramente. O partido passará a dizer todos os dias que é contra as medidas delirantes que Gaspar inventa e que só o PSD é por elas responsável. Como, com a estratégia que está a seguir, o PSD arrisca claramente transformar-se no PASOK português, pode ser que o CDS, pela mão de Portas, venha desta vez a realizar o objectivo que desde sempre almejou.

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10 comentários em “O CDS/PP.”

  1. Não concordo. A política vai mudar no Ocidente e é dúbio que algum partido resista.

    Falou de Marcelo, na verdade o CDS lembra o oportunismo, tricas de Marcelo Rebelo de Sousa na melhor das hipóteses. Na prática é pior, é um partido que mente ao seu próprio eleitorado.
    É um partido que diz não aos impostos e está sempre em Governos que os aumentam, é um partido que se diz favorável a empresas e apoia medidas que as asfixiam e mais e mais regulação, é um partido que se diz contra o aborto e faz todos pagarem abortos via estado.
    É um partido fundamentalmente desonesto. E para começar desonesto consigo e os seus.

  2. O país continua à beira da bancarrota, embora um bocadinho mais longe, e em Portugal continuamos a brincar à baixa politica.
    Concordo que PPCoelho teve uma enorme falta de tacto pela maneira desastrada como anunciou as medidas; mas as medidas são inevitáveis, e dêem-lhe as voltas que quiserem, a sua não inclusão no OE/2013 tem como resultado imediato a não libertação dos quase 5000 milhões da tranche do empréstimo relativos à 5ª avaliação.
    Paulo Portas sabe isso muito bem, mas isso não o coíbiu que fazer o “numero” que fez, e deixou o 1º ministro a cozer em lume brando durante uma semana.
    Daqui prá frente a unica coisa que podemos esperar da coligação é um ambiente de pantano que não é bom para ninguem, e o melhor é acabar já com isto.
    O PR que patrocine um governo com os que têm contestado as medidas negociadas com troika, até para ficarmos a saber como é que eles resolvem os problemas. Tenho lido e ouvido nos media tanta gente a dizer que existem alternativas a estas e outras medidas, mas ainda não vi quais são. Ficamos portanto a aguardar.
    Ninguem deve ficar surpreendido com o comportamento politico de Paulo Portas nos ultimos dias porque ele foi igual a si próprio.

  3. Paulo Portas esteve quase quase lá. Tivesse-se limitado a traduzir o apelo do CDS à reponderação e dito que iria comunicar ese apelo ao Governo teria ganho. Mas a soberba traiu-o e ao divulgar publicamente a sua posição pessoal relativamente às medidas deixou cair a máscara de estadista e cometeu um erro fatal.

  4. Donde se conclui que, nas mãos dos partidos, o país é a circunstância de projectos autónomos.
    A canalhice do Portas, a presunção balofa do Seguro com as suas soluções inexprimidas ou pífias, levam-me – coisa que dificilmente poderia antecipar – a ter simpatia pelo PPC!
    Mas muito me enganarei se ele e o seu partido resistirem a entrar no jogo de partidos a que chamam Política!

  5. Excelente análise e uma boa lição de história. Uma pergunta, se for possível responder: onde andou o jovem Portas e quais foram as suas posições no xadrez político da direita antes do cavaquismo e do Independente? Creio que foi do PSD, saiu e, depois, esteve na campanha para as presidenciais de Freitas. Quais foram as suas posições perante a AD de Sá Carneiro e, depois, de Balsemão, assim como perante o PSD do bloco central (Mota Pinto e Rui Machete) e o CDS de Lucas Pires? Obrigado.

  6. O seu texto é uma viagem no tempo, mostrando o quão inconsequente tem sido esse trajecto do CDS até ao PP, que ainda não conseguiu ser.
    Não creio que o CDS alcance o objectivo que tanto almejou, porque de mãos dadas com o “diabo” só se pode acabar na “fogueira”.
    “Não se pode servir a dois senhores, ou se odeia um e se ama o outro ou…”.

  7. “O país continua à beira da bancarrota, embora um bocadinho mais longe”

    O país está na bancarrota e mais perto, a dívida continua aumentar.
    Só ainda não fizemos o default – aliás o que o default do Estado fará aos bancos portugueses é uma história que ninguém toca -porque temos um tio europeu que foi à maquina de imprimir notas.
    – Isto não é mais que jogar com o tempo esperando pelo mítico crescimento, não vai funcionar.

  8. Parabéns ao autor pelo texto, porque a memória, e a memória política, é uma coisa que apesar do seu valor intrínseco tende a ser desvalorizada pela esmagadora maioria, sempre atrás do “aqui e eagora”, que logo passa a “ali e outrora”. Mas tenho duas notas discordantes.

    Não acho sinceramente que Adriano fosse assim tão nacionalista, antes diria que se encaixava entre a corrente depois assumida por Manuel Monteiro e a Democracia Cristã de Freitas. Do mesmo modo, acho que Ribeiro e Castro também segurou o legado de Freitas do Amaral, embora um pouco mais à direita.

    Depois, queria chamar a atenção para o facto de Lucas Pires ter falhado o crescimento do partido muito por culpa desse meteoro eanista chamado PRD, que roubou votos a todos e só poupou o PSD.

    Que Portas espera portodas as oportunidades para qubrar o PSD, mais a mais agora, é claro como a água. Só há dúvidas se terá mesmo êxito, porque as bases laranjas são mais fiéis ao seu partido que as do CDS – basta ver a evolução autárquica ao longo dos anos.

  9. Concordo. Quanto a Portas, é como diz aquele ditado: “quem faz um cesto faz um cento”. Nada que não fosse esperado. Se, como afirmou, tivesse considerado em primeiro lugar os interesses do país, não teria aguardado uma semana para salvaguardar os do partido.

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