Hoje tive de viajar de comboio até uma cidade do centro do país, tratar de um assunto e voltar no primeiro comboio de regresso. Acabei, todavia por não conseguir ser tão célere quanto pretendia e fiquei, ainda, um belo bocado à espera. Quando olhei em volta só vi gente feia, a começar obviamente por mim, de cabelo em desalinho e outros desmazelos. Parecíamos todos ter saído de quadros de Frans Hals (1580-1666), um pintor flamengo ainda da estética barroca, mas já com um pé na pincelada impressionista. Os seus retratos pouco convencionais (e estes aqui não são dos piores) mostram uma gente que entristeceu, se desamazelou, se desalinhou e se deixou andar. Nos quadros riem, ainda, os de hoje de manhã não o faziam.
Já não é a primeira vez que tenho esta percepção de estar, rodeada de iguais, dentro de um quadro de Hals. Como se preocupações e tristezas transbordassem, sem diques nem cuidados, para o exterior e de um modo que me parece demasiado rápido.
Estamos feios e, intercalando um t entre as duas sílabas, também.

Ele há coincidências, Ivone. Não é que hoje comentei com outra pessoa este mesmo assunto? As mulheres parecem menos cuidadas, os homens mais fei(t)os.
Não é, Teresa?
Estranho…Portugal está mais rico que nunca.
A Dívida -directa- do Estado feita em nosso nome pelos políticos que têm todo o poder sobre a economia das pessoas já vai em 188 mil milhões de Euros.
188 mil milhões de Euros entraram em Portugal, dos quais 90 mil milhões só nos últimos 7-8 anos…
Por mim já há algum tempo que noto que as miudas giras por cá só raramente andam de transporte publico. Só se vêem nos transportes grandes cidades…emigraram?
🙂
Como eu gostaria de saber onde param, ou estão aplicados, alguns desses M€, é que a minha (modesta) vidinha não descambou a ponto de eu me ter endividado tão disparatadamente. Ele há coisas …
Tal qual (o segundo parágrafo, pelo menos).
E isto faz-me lembrar duas coisas:
1) Numa época em que andava muito para cima e para baixo no Sud-Express (as mais das vezes el lugar sentado, sem couchette) adquiri a firme convicção, que mantenho, que todos os políticos deviam jurar que respeitariam a Constituição e que fariam X horas por mês de transportes públicos.
2) Contaram-me uma vez uma saída muito politicamente incorrecta mas oh quão profunda da mãe das manas Avillez-Nogueira Pinto, com quem insistiam para que arranjasse um chófer (isto na sequência da venda do terreno onde foi construído aquele mamarracho mastodôntico ao fim do Campo Grande): “E quando é que eu vejo os pobres?”
É uma realidade, Ivone. Estamos em regressão neste domínio, sem a menor dúvida.
Olha, Pierre, é é tão deprimente …
E se estamos feitos a sequência será: feios, porcos e maus.
Vamos ver se a maus não chegamos e que entre fealdade e maldade possa haver desvio.
Num oito? Ou num oitenta e oito?
Não sei, Tiro, mas sei que é mau.
Sim, Ivone, tens razão. Estamos feios. Feitos sempre estivemos, acho que é a nossa natureza, infelizmente. Bj
És capaz de ter razão, PP, a coisa bom bem ser intrínseca e houve tempos em disfarçámos melhor.
Ivoninha consola-te porque também estamos muito menos exigentes… infelizmente!
Capacidade de adaptação, Helena? É o que nos vale …