Da crítica ao elogio


escafandro,

Se, como parece, a privatização da RTP passa por vender a RTP2 e manter a RTP1 em moldes próximos dos actuais, mais valia o governo estar quieto. O Estado não precisa de um canal generalista com novelas, concursos e programas de entretenimento similares aos dos canais privados que, a prazo, acabará custando o mesmo ou (o que sucederá à publicidade?) ainda mais do que a RTP tem custado. Mas percebe-se que não é fácil largar um certo controlo (ou, no mínimo, uma certa sensação de controlo) sobre a informação. Atendendo à arrastada e, desde o início, pouco ambiciosa reforma do mapa autárquico, as – difíceis, sem dúvida – reformas nas mãos de Miguel Relvas anunciam-se cortinas de fumo.

 

Comecemos com um exemplo: há cerca de uma dúzia de anos, usando dezasseis milhões de euros gentilmente cedidos pelos contribuintes, a Fundação PortoGaia (detida, na altura da criação, a 51% pelo Futebol Clube do Porto, tendo ainda participações da Câmara de Vila Nova de Gaia, da empresa Águas de Gaia e das freguesias de Crestuma e Olival) construiu o Centro de Estágios do FCP. Pelo usufruto deste, o clube, que detém os direitos de superfície por um período de 50 anos, paga à PortoGaia uma renda mensal de quinhentos euros (assegurando também – Pinto da Costa está a ficar soft – a manutenção das instalações). Como quinhentos euros por mês são insuficientes para uma fundação digna desse nome sobreviver, só entre 2008 e 2010 a PortoGaia recebeu ainda 4,234 milhões de euros de fundos públicos.

O exemplo serve para que se perceba a utilidade do relatório sobre as fundações, apresentado na passada Sexta-Feira. Há nos critérios de avaliação pontos discutíveis, porque altamente subjectivos («Fundamentos para a manutenção dos apoios públicos concedidos», por exemplo) mas o trabalho é, ainda assim, de elogiar. Falta agora o mais importante: anunciar cortes e encerramentos. Sem favorecer colegas de partido, amigos da escola ou aqueles vultos da sociedade que, por um motivo ou por outro, se revelam sempre intocáveis.

 

Na sequência do cancelamento do financiamento público à sua atrasada fábrica de produção de painéis solares, Alexandre Alves, o Sr. Fnac (a dos anos oitenta e noventa, fabricante de aparelhos de ar condicionado, não a francesa dos livros e discos), garante que o projecto vai avançar e que não convidará o governo para a inauguração. Tudo digno de elogios: que a empresa avance, que Alves não convide o governo – e que este não meta fundos públicos no projecto.

15 comentários em “Da crítica ao elogio”

  1. Obrigado Dr Mário Soares… por nos lembrar e relembrar o nosso direito à indignação:
    –

    Estou indignado com a dinheirama que as fundações (plural) Soares& Barrosos , recebem do estadão…

    Ó ti Alfredo, diga lá qualquer coisinha à gente no próximo frente-a- frente da SICN!
    E já agora a nossa recente eleita Branca de Neve…

    ò Clarinha… também levas algum!

    1. Não é das que levam mais, am, mas ainda assim foram quase 1,3 milhões nos três anos em análise (mais isenção de tributação em 268 mil euros de património). E, como outras que talvez não convenha afrontar, tem notas altamente discutíveis em alguns pontos (p. ex., “Criticidade dos fins/objecto da Fundação”, “Fundamentos para a manutenção dos apoios públicos” e “Custo-eficácia das principais actividades”).

  2. Não sei porque há televisão estatal.
    Ou tem uma programação concorrencial e faz o mesmo que as outras: telejornais dramáticos, com reportagens sobre acidentes de viação, assuntos sexuais, telenovelas e futebol: Fado, Futebol e F(sexo).
    Dá prejuízo (podia não dar, mas dá) e não tem qualquer valor estratégico em termos de equilíbrio social. Pode é servir para propaganda do partido do governo.
    Ou tem uma programação “cultural” em que meia dúzia de telespectadores vêm à vez, dá necessariamente prejuízo e é paga por todos nós, contribuintes.

      1. jaa
        Estou no intervalo de duas tarefas agrícola, a transpirar, e vim à net.
        Não fui ver o que escreveu à 1 ano, verei mais tarde.
        Quanto ao “Mas não tem que ser caro”, digo-lhe uma máxima da economia: “não há almoços grátis!”.
        Portanto, se o consumidor não paga tudo, os outros contribuintes (que não vêm essa programação) pagam o resto.

        Abç.

        1. Menezes:

          Primeiro: tenha juízo, está demasiado calor para tarefas agrícolas.

          Segundo: claro que não há almoços grátis e, num canal público de acesso livre, os contribuintes pagam sempre (mesmo que não vejam). A minha observação de que não tem de ser caro prende-se apenas com o facto de a RTP ter vindo a receber duzentos e muitos milhões de euros por ano do Estado. Um canal com a tal programação cultural (e note-se que “cultural” não quer dizer apenas teatro – mas porque não há teatro na RTP2? Custa assim tanto comprar peças estrangeiras ou, ainda melhor, gravar as do D. Maria ou as do São João? -, ópera e similares mas também programas de apelo mais geral ligados à cultura popular, ao turismo, à vida selvagem e ao património) poderia funcionar com muito menos, mesmo sem publicidade. Afinal, a SIC e a TVI sobrevivem com receitas abaixo dos duzentos milhões…

          1. Mas há canais privados de acesso livre que conseguem receitas de publicidade e o consumidor não paga. Não creio que se consiga isso em programação destinada precisamente a minorias.

            Quanto à tarefas agrícolas, são feitas devagar, davagarinho, sem pressas. Mas transpiro na mesma.
            Pode crer que aqui na aldeia, pelo facto de ser professor, sou dos que menos transpiro nestas tarefas. Não vivo disto.

  3. Não houve “cancelamento do financiamento público” porque nunca chegou a haver qualquer financiamento público. O projeto do sr Alexandre Alves nunca recebeu nada do Estado. O governo limitou-se agora a denunciar um contrato que, no entanto, nunca tinha chegado a ser implementado. Ou seja, foi apenas uma denúncia formal; na prática, ficou tudo na mesma – não havia financiamento público e continuará a não haver.
    Ou seja, tratou-se apenas de uma não-notícia, lançada pelo governo com o objetivo, presumo, de fingir que está a ser muito estrito com as finanças.

    1. Luís: eu sei que não chegou a ser entregue dinheiro público. Já quanto a quem lançou a notícia, não faço ideia – nem me interessa muito. Suponho que, sendo dele a decisão, o governo teria que a anunciar aos interessados. E, a existirem ganhos de imagem, faz bem em aproveitá-los.

  4. Pois, parece mesmo apenas fumaça, uma vez que não chegou a haver dinheiro do estado envolvido, tirando o do município que expropriou os terrenos para os emprestar ao projecto. Não percebo como é que a comunicação social lança primeiro a “bomba” e depois é que vai investigar se é verdade….

    1. Não percebo: “fumaça”? Ainda bem que não chegou a haver dinheiro público envolvido. O ponto é precisamente esse: desta vez, para variar, um governo conseguiu recuar antes de usar dinheiro público.

  5. Concordo completamente com o primeiro parágrafo: se querem privatizar um canal de televisão (e acho muito bem que o façam), privatizem o canal 1, que já tem uma programação largamente idêntica à dos canais privados. Mas mantenham o canal 2, que é o único que presta algo que se possa classificar como serviço público – de que é exemplo a atual transmissão, dos Jogos Olímpicos, de modalidades desportivas ainda pouco populares em Portugal.

  6. Pena foi que não tivesse incluído a Câmara municipal da capital do Império nas suas observações….deveria ter igualmente, honras de destaque em alguns “negócios” de qualidade duvidosa com certos clubes por lá sediados.

    1. Rebelo: estou certo de que há muito para criticar na gestão das autarquias na zona de Lisboa, incluindo nas relações com algumas fundações (o tema em apreço), mas não faço esse tipo de equilíbrios; este caso tem a ver com a Câmara de Gaia e não precisa de ser suavizado com a referência a quaisquer outros.

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