Abomino ping pong. Estão para ali uns matulões fechados numa saleta, de volta de uma mesa de jantar a atirar uma bolinha minúscula ping para lá ping para cá. Isto para dizer que ontem estive pregado ao televisor 3 horas a ver o épico Portugal Coreia do Sul. E a culpa foi do comentador Virgilio Nascimento. Ele guinchava de exaltação patriótica? Pelo contrário, chegou a pedir desculpas aos espectadores por se emocionar. Naquelas 3 horas fiquei com a impressão que aprendi tudo o que havia para saber acerca deste famigerado desporto, descobri que no ténis de mesa (nunca mais lhe chamarei ping pong) há táctica, perspicácia, requintes técnicos.
O mesmo já se tinha passado com actividades desportivas tão exóticas com os saltos para água, um nome tão ridículo que só os comentários de César Peixoto poderiam dignificar; o tiro com arco (como levar a sério um desporto que se pratica de chapéu?) pela voz de Pedro Vaz ou o halterofilismo, uma coisa de brutamontes transformado por António Caeiro numa arte de equilíbrio balético.
Há mais, muito mais, destes fa-bu-lo-sos comentadores desportivos, disseminados entre a RTP e a Eurosport, capazes de nos contagiarem (pior: convencerem) com a sua sapiência, com a sua capacidade de nos esclarecerem sobre os detalhes do que estamos a ver utilizando uma linguagem leiga, subsumindo a opinião sob o rigor descritivo, com uma sabedoria segura, paciente e entusiástica. Na verdade, eles trabalharam, estudaram e empenharam toda uma vida naqueles desportos que só vêm a a luz pública de 4 em 4 anos, para virem até nós mostrar que vale a pena.
Fica-se mesmo com a impressão que foi de propósito: todos os histéricos, os línguas de pau, os incapazes tecnicamente, os opinativos insensatos, foram desaguar no comentário futebolístico. E, no entanto, seria tão fácil: bastava escolher gente deste calibre…

“subsumindo”?! Que raio de palavra é essa?
(Creio que vi uma vez algures uma lista de propósitos em que este blogue se declarava defensor da boa língua portuguesa.)
Para sua informação e, se possível, formação: x?pal=subsumir
http://www.priberam.pt/dlpo/default.asp
Para além de gabar os comentadores – todos eles, creio, atuais ou ex-praticantes das modalidades que comentam – cumpre gabar a RTP 2, não só pela escolha desses comentadores, mas pela própria profusão de transmissão dos Jogos, incluindo em modalidades que em Portugal rarissimamente podem ser televisionadas. Com esta decisão a RTP 2 está a dar um enorme apoio a múltiplos atletas portugueses, que assim vêem as modalidades desportivas que praticam ser publicamente reconhecidas como tal.
Sem pretender denegrir muito, há “alguns” reparos.
Os da natação e atletismo falam demais sem dizer coisa alguma. Então o da natação adora criar cenários e conversas imaginadas, só para não se calar um pouco.
A do volei de praia é especialmente irritante. Deixei de ver a modalidade porque não atino nem com a voz dela nem com a sua monocordia.
O da canoagem é “perfeitamente” sexista: as provas femininas são para cumprir calendário; e derrotista para as equipas portuguesas: “não têm grandes hipóteses, o último lugar já é uma honra”.
Talvez hajam mais!
Trata-se, como eu disse, de atuais ou ex-praticantes das modalidades que comentam. É natural que nem todos tenham boa voz, uma conversa desenvolta e interessante, etc.
Quanto ao derrotismo, é possível que o comentador em questão seja alguem que, nestes Jogos ou no passado, se viu preterido na seleção da equipa olímpica portuguesa, e esteja despeitado e a desejar a derrota dos eleitos… não me admiraria nada!
Quanto a as provas femininas serem para cumprir calendário, essa era, até há não muitos anos, a ideia genérica dos organizadores dos Jogos Olímpicos. Só recentemente é que as provas femininas começaram a ter quase tantos assistentes e adeptos quanto as masculinas, e muitos dos organizadores ainda as encaram como financeiramente pouco atraentes.
Não sei se estaremos a falar do mesmo comentador de atletismo – Luís Lopes, na RTP 2. Trata-se apenas do melhor comentador desportivo nacional, com anos de experiência, e que revela em pormenor a carreira de cada atleta participante. Pode falar muito, mas sabe do que fala e demonstra-o numa linguagem acessível, sempre com pormenores interessantes, ao contrário dos comentadeiros do pontapé na bola.
Caro Rui
Não sei o nome do comentador. Tenho a impressão que é sempre o mesmo. A minha crítica é “ligeira”.
Acho apenas que devia falar menos, não só porque me cansa mas também para que as informações importantes se destaquem.
É apenas uma opinião não muito importante.
Um abraço
Subscrevo na íntegra, José.
Passei a tarde colada ao grande ecran. Era a 2, o 12 e no meu remoto o 130. Canais que eu ‘zapava’ à medida do evento.
Nunca gostei tanto de ver Ping-Pong como ontem. Eu também torci e gritei, o que me fez lindamente. De vez em quando apetecia-me diminuir o volume dos comentários mas perdia o ping e o pong que gosto de ouvir.
Mas aquela coisa, caro Zé, dentro de água sincronizada com as meninas sempre a mostrarem os dentes é que não. Foi mais forte. Desliguei tudo!
😀
bjs
Mas até esses desportos “difíceis” pela voz de quem as comenta assim parecem cativantes. XXOO
Senti exactamente o mesmo, José…
Numa das provas de equitação (trote):
“- Notem, no alinhamento em paralelo perfeito das orelhas da égua”…
As coisas que aprendemos nos jogos Olímpicos!
Infelizmente não consigo recuperar o nome, mas o melhor comentador de sempre é, para mim, um senhor, creio que coronel de cavalaria, que nos jogos de Barcelona 92, dissertava arrebatado, sobre os cavalos, as famílias dos cavalos, o palmarés dos cavalos, referindo en passant o nome dos cavaleiros. Frases do género: “ahh, lembro-me muito bem desta égua quando a vi no Estoril há dois anos, muito bem disposta, muito elegante…” O entusiasmo dele, a sabedoria e a clareza eram quase comoventes.
Justíssimo – e a qualidade dos comentadores está reproduzida no seu comentário.
Concordando na generalidade….. há algumas nódoas a manchar a alvura do pano 🙂
O comentador dos saltos para a água, que tecnicamente me parecia competente (não percebo nada da coisa) não conseguia disfarçar uma clara preferência pelas atletas chinesas 🙂 Ainda as senhoras não tinham saído da prancha e já o senhor enaltecia as qualidades dos saltos 🙂
Os comentadores da natação quase tinham orgasmos em directo, à conta do percurso aquático dos americanos 🙂
E, a cereja no topo do bolo….. o comentador da final masculina de ténis que sai com esta pérola:
“murray é natural de dumblin na escócia.” Sim, Dublin passou a Dumblin e realocou-se na Escócia 🙂
Jonas, não terá ouvido bem. Murray é efectivamente escocês, nascido em Dunblane. Daí talvez a confusão fonética.
Será que entre o sotaque pobre do comentador e o meu ouvido (eventualmente duro :), Dunblane virou Dumblin?
É muito possível. Vou ver se recupero Aquela parte do comentário 🙂
Grande trabalho do comentador e do canal2 sem duvida mas uma grande desilusão do serviço da RTP na internet a RTPPlay com stream próprio para os jogos olimpicos.
Assistia eu ao jogo por equipas no suposto stream para os Jogos aquando da reviravolta portuguesa e empate a 2 quando a emissão é interrompida sem qualquer explicação e começa a dar o estado de graça programa de humor num stream dedicado aos Jogos Olímpicos !!! Mas que falta de respeito para os telespectadores , desportistas e comentador. Obviamente por vários motivos nem toda a gente tinha acesso ao canal 2 aonde a emissão seguiu, como eu, e assim viu se privado de acompanhar até ao fim. Fiquei desolado e revoltado gosto do desporto e raramente tenho oportunidade de ver ténis de mesa ao mais alto nível e ainda para mais a selecção nacional. Serviço publico da treta.
Lamentavél.
Concordo em absoluto.
Já o comentador do tenis de mesa feminino, está a léguas de distância, colocando o nacionalismo. acima do comentario tecnico
Pelas reacções que tenho visto pela Net, apercebo-me que muita gente viu o encontro de ténis de mesa, que foi espectacular. Gostava apenas de sublinhar que o comentador (Virgílio Nascimento) sabia perfeitamente interpretar como o jogo decorria, dizendo aquilo que os jogadores deveriam fazer para conseguir ultrapassar os adversários. Para um país sem qualquer tradição no ténis de mesa, podemos hoje considerar que, em termos colectivos na Europa, apenas a Alemanha está claramente à nossa frente. Estes atletas e esta federação não esteve à espera que a atenção e os apoios caíssem do céu, e agora estão a colher os frutos do seu trabalho. Para que um desporto possa ter algum tempo de antena, também são necessários resultados. E no passado assistimos a um grande investimento em formação no Judo, por exemplo, graças a boas prestações no olimpicos.
“Para um país sem qualquer tradição no ténis de mesa”
Esta é mais uma daquelas frases bombásticas que não tem sentido algum. Portugal já praticava ténis de mesa ainda nem havia constituições salazarentas…
Sempre foi um desporto muito popular.
O que podia não haver era condições para os nossos atletas evoluírem a nível mundial. E mesmo assim, você sabia…
que em 1952 Rosa Duque chegou aos quartos-de-final do Campeonato do Mundo?
Muito bem, Zé. Inteiramente de acordo.