O tamanho do mundo


enlil,

Andrew Wyeth, “O mundo de Cristina”, 1948

 

Se existisse pintura, Wyeth não existiria. A pintura são os quadros, fora deles não passa de uma ideia, bem capaz de ter o defeito supremo de ser platónica. Na verdade Andrew Wyeth só pintou um quadro; tudo o mais que fez, é pouco mais do que irrelevante, nem chega a ser redundante. É como se não tivesse obra, ou seja, pintura, mas apenas uma obra. Mas apesar deste suposta insuficiência, este quadro concentra tanto em si, que podemos considerar Wyeth um artista com obra feita.

Nunca lá estive mas sei que sopram na pradaria uns ventos perpétuos capazes, dizem, de enlouquecer as mulheres. Ter o horizonte todo redondo num círculo perfeito à nossa volta e a terra ser chata até ao limite do olhar, há-de trazer uma enorme fadiga ao espírito. Uma pessoa desanima se não puder guardar segredos, estando tudo desarmado à vista. Pior se o ar nunca estiver quieto e às vezes mostrar a sua cólera em forma de tornados.

É esta sensação de desalento e alarme, que tão profundamente captura o espírito das gigantescas pradarias do midwest americano (estados inteiros assim: Kansas, Nebraska, Oklahoma), aquilo que vigorosamente emana de “O mundo de Cristina”. Numa paisagem semelhante, na ravnina russkaya, os exércitos de Napoleão desesperaram: dias a fio a caminhar, com a sensação de nunca saírem do mesmo sítio. Agora vemos porquê. Aquela casa tão perto mas já tão inalcançável, quando as distâncias se confundem desmesuradamente, por adivinharmos que para lá daquela colina prosseguem as searas até ao fim do mundo.

Mas tudo isto que podemos, e é suposto, sentir perante o quadro de Wyeth é um mero efeito produzidos pelas nossas próprias emoções. Na verdade ele só quis pintar a impotência de Anna Christina Olson, prostrada na pradaria, vítima de poliomielite, arrastando-se até casa. Vendo melhor, aquele braço, cujo cotovelo se dobra em primeiro plano, é magro demais para uma pessoa saudável. E a imensa pradaria foi afinal pintada num recanto do Maine, típico pela sua costa recortada e pelas florestas nativas.

6 comentários em “O tamanho do mundo”

  1. Respeitando, obviamente, as suas divagações poéticas, não vislumbro muito bem essa relação entre Wyeth e as pradarias – Wyeth pintou sobre o mundo rural de Filadélfia e as casas de verão da Nova Inglaterra, inspirado sobretudo por Thoreau e Robert Frost. E discordo dessa tese de que Wyeth só tem um quadro; este é o mais famoso, mas não é superior a outros também com a mesma relação de figuras e espaço circular – onde há uma certa intenção de superar definitivamente a fotografia: entre outros, o seu esforço de detalhe tem esse motivo, a meu ver. Por causa disso, tecnicamente é quase insuperável.

    1. Se na restante obra de Wyeth não há qualquer alusão à pradaria, neste quadro é evidente (e não estou sozinho a dizê-lo)(bem sei que argumentos de autoridade são improcedentes) a “ilusão de óptica”. Quanto à sua opinião em relação aos ulteriores méritos pictóricos de Andrew Wyeth, que graça teria conversar sobe arte se estivessemos de acordo?

  2. Eu não vislumbro neste quadro qualquer desespero, desalento ou alarme. Pelo contrário, olhando para ele, vejo esperança, vejo uma mulher que ambiciona chegar a uma casa, vejo progressão, vejo um objetivo. Os sentimentos que o J.N.A. experimenta perante este quadro, e que até diz que todos deveríamos sentir, eu não os sinto de forma nenhuma.

  3. Zé, ela acaba de ver um disco voador descolar. Levaram-lhe a pick-up e os bezerros num light beam vulgo flashada que a deixou speachless.
    O pintor estava lá e for the record registou. O Mundo de Cristina não é fácil. Para provar a minha teoria lá está a terra queimada e o rodado da carroça.

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