Reduzir José Hermano Saraiva a um “ministro do Estado Novo” é de uma enorme falta de bom-senso. Para a minha geração fica a memória de um grande comunicador e de um homem apaixonado pela história do nosso país. Não nos devemos esquecer do seu passado político, mas só a cegueira ideológica o rotularia de “mero fascista”.
Um homem não cabe num rótulo
josegomesandre,

Zé, ninguém lhe nega as qualidades como historiador embora, mesmo nesse campo, ache que fica a quilómetros de Oliveira Marques ou José Mattoso. O que não pode acontecer é permitir-se que o País esteja lavado em lágrimas, esquecendo a meia idade do Avô simpático que narrava a história de Portugal na televisão. Não é ideologia, é memória.
Um abraço.
Compreendo e até concordo, André, mas ao mesmo tempo… os factos que relatas ocorreram há quase 50 anos. O homem tem um passado feio? Pois tem. E faz sentido falar disso. Mas não podemos reduzir uma pessoa a isso. Isto faz lembrar a história da caça aos nazis, que agora se concentra num tipo de 97 anos.
Não estou a falar em “perdão”, mas sim em contextualizar as coisas. O homem que hoje se homenageia não é “JHS, o ministro do Estado Novo”, mas sim o que ele foi depois disso. E foi muita coisa depois disso, caro André.
Abraço forte!
Zé, não pretendi reduzir JHS àquela situação. Escrevi aquele texto num momento em que abri facebook , Twiter e blogs e vi muito Portugal lavado em lágrimas. Acho, sem rodeios, que JHS não as merece como outros, de todos os quadrantes políticos, que deixam uma história cheia de coisas boas, e apenas boas.
Achei por bem realçar aquilo que também é importante recordar e que, no meu caso, é o que mais guardo dele. Como te dizia, o Avô simpático a narrar a história de Portugal não me fez esquecer o Ministro da Educação Nacional, que defendeu Salazar com unhas e dentes e que, entre outras, foi responsável por uma onda de violência exercida sobre Jovens, muitos deles nossos familiares, que só se queriam expressar.
Acho que todos contextualizamos JHS , cada um naquilo que lhe tocou mais. Um abraço com amizade!
Deixa-me só esclarecer que o meu post não foi uma resposta ao teu. O que me motivou as referências foi uma abordagem estranhíssima nas redes sociais justamente contra o JHS. O teu texto estava bem interessante, aliás.
Abraço!
“Mero fascista” chamar-lhe-ão aqueles que só por abrir a boca para isso, já não serão dignos de falar dele. Terão um visão muito limitada do que este homemfoi e lutou. E fosse quem fosse…ideologias ou credos à parte foi um homem enorme, com um amor enorme pelo seu país, que elevou o seu nome com orgulho e exemplo. Perdoe-me a emotividade mas eu adorava o senhor. Um bfsemana!
Quem escreve isso tem falta de memória e falta de visão, meu caro. JHS foi um talentoso divulgador da história de Portugal e um grande defensor do nosso património histórico e cultural. Livros seus, como a ‘História Concisa de Portugal’ e ‘A Vida Ignorada de Camões’ foram ‘best sellers’ em Portugal na década seguinte ao 25 de Abril, e transmitiram pela primeira vez a centenas de milhares de portugueses o gosto pela História. Bastaria isto para salientar a importância de JHS.
Mas foi mais do que isso: foi também um comunicador ímpar – um dos maiores nomes de sempre da RTP e, por via disso, da televisão portuguesa. Curiosamente, quem chamou pela primeira vez a atenção para este facto, na sua inesquecível coluna do ‘Diário de Lisboa’, foi o Mário Castrim. Comunista, insuspeito de simpatias políticas por JHS, mas capaz de reconhecer o mérito a quem o tinha. Além de ser o melhor crítico de TV que tivemos: deixou um lugar que nunca foi preenchido.
É também esse o caso de José Hermano Saraiva. Com as suas luzes e sombras, ele era uma figura inconfundível, irrepetível. Faz falta a Portugal, nos tempos que correm, haver personalidades assim. Como a Saraiva, como a de Castrim. Pensassem o que pensassem, tinham um dom cada vez mais raro: o da eloquência.
Pedro, o bom não apaga o mau, da mesma forma que o mau não apaga o bom. Tudo o que dizes é verdade e são factos, da mesma forma que são factos aquilo que narrei. Um abraço!
André, só há pouco li o que escreveste, lá mais para baixo – e já tive ocasião de comentar também.
Considero que um homem, no balanço da sua vida, deve ser julgado pelo conjunto das suas luzes e sombras – e não por um episódio da sua biografia, por mais lamentável que seja. Sou um adversário acérrimo das penas perpétuas. Considero, também por isso, que não deve haver anátemas cívicos perpétuos. Isso seria uma barbaridade.
Hermano Saraiva, no pós-25 de Abril, foi demitido compulsivamente da função pública e deixou de leccionar no liceu onde era efectivo, salvo erro o Gil Vicente, em Lisboa. Foi pena mais que suficiente por ter exercido o cargo de ministro da Educação durante escassas semanas durante o consulado de Salazar e o primeiro ano e meio de vigência do consulado de Caetano. As opiniões políticas que tinha eram dele, assumidas e expressas com firmeza e convicção: isso é apanágio dos homens de carácter, pensem o que pensarem. A superioridade da democracia em relação à ditadura é saber reconhecer este simples facto.
Também tive ocasião de ouvir muitos lamentos durante o dia de hoje pela sua morte. Nada mais natural: ele foi um dos maiores comunicadores de que há memória em Portugal, manteve presença assídua durante 40 anos na TV portuguesa (quase todo o tempo após 1974), cativou três gerações de portugueses para os seus programas, que eram excelentes introduções à História. Sem academismos, sem pompa, numa linguagem simples e directa que todos entendiam.
Faço-te notar que entre os que hoje lamentaram a sua morte, com palavras sentidas, figuram dois ex-presidentes da República, claramente situados nos antípodas políticos de Saraiva. Soares, que o considerou “um grande homem de cultura”, e Sampaio (que foi seu aluno no Passos Manuel a meio da década de 50), que lembrou o ex-professor que “deixou em todos nós [seus alunos] uma memória extraordinária”.
Um abraço amigo.
Lindo! Nunca me enganou …
Um grande beijo meu, por cada palavra que aqui
escreveu…
Eu ou o Zé André (agora fiquei confundido…)?
Como nesta matéria não sou poupada, sou mesmo uma
mãos largas, também deixo Um Grande Beijinho para o
José Gomes André!
Depois do que o Pedro disse, penso que mais nada há a acrescentar.
Verdade seja dita, ao longo destes tempos e da actual conjuntura, não foram poucas as vezes me passou pela cabeça sobre o interessante que seria ver o José Hermano Saraiva a comentar.
Parece que já não vou ter tal oportunidade…
Eloquência e conhecimento. Uma coisa é dizer que não primava pelo rigor académico, outra é dizer que o homem era um ignorante que só dizia disparates. Não entendo.
Grande comentário, Pedro. Faz-me o favor de converter isto já em post 🙂
Abraço!
Assim farei, José. Um abraço.
Pedro querido, não me queria meter neste conversa, mas olha que “A vida ignorada de Camões”, apesar do sucesso, nunca será uma obra de referência para os estudos camonianos: está eivada de mirabolantes considerações não fundamentadas. Basta ler a recensão arrasadora que foi feita, na altura, por Américo da Costa Ramalho, esse sim uma figura de relevo no estudo da cultura renascentista portuguesa.
Uma grande capacidade comunicativa, e histriónica, disfarça muito bem fragilidades científicas.
O que digo não se prende, de modo algum, com questões ideológicas e reconheço-lhe o mérito na divulgação da História nacional, junto de um certo público, friso: junto de um certo público.
Os dinossauros de plástico com que os miúdos brincam fizeram mais pela Paleontologia do que séculos de estudo em gabinetes sombrios. São assim as coisas da vida.
🙂
Ivone, nunca o considerei um modelo de academismo. E quanto ao Camões ainda está para nascer o investigador que diga ou escreva algo incontroverso sobre o nosso maior poeta, sabendo-se como se sabe tão pouco da sua vida em termos documentais (o próprio local e a própria data de nascimento são postos continuamente em causa). Por ignorância minha de que me penitencio, não conheço esse professor que invocas, mas confesso-te que gostaria de ter tido como professor o José Hermano Saraiva: pensei isso ao escutar a comovida evocação que dele fez o seu ex-aluno Jorge Sampaio, quase 60 anos depois. Esta vocação pedagógica de JHS não é uma das menores facetas dele, embora tenha ficado quase por completo obscurecida no seu obituário agora vindo a público. E como os nossos bons pedagogos andam carecidos de reconhecimento na sociedade portuguesa…
Num rótulo nunca cabe, tens a razão, mas vê-lo tecer loas ao Estado Novo dá-me náuseas. O resto resume-se a um excelente comunicador e entertainer (sim, matem-me). Ao que parece nem sempre havia rigor no que dizia mas ia entretendo as massas. Teve uma vida longa. Que descanse em paz, se é que isso existe.