Eram 9.00 horas, deu o toque final e centenas de alunos entraram para mais uma aventura no maravilhoso mundo dos exames nacionais. Estranho é como Isabel Alçada ainda não se inspirou nesta verdadeira epopeia a que nos sujeitam a todos com ares de distribuir competência e rigor.
Seriam umas 9.15 quando me trouxeram a prova de Alemão. Folheio-a, deito-lhe um olho, perscruto-a de várias perspectivas e começo a resolvê-la. Além do grau de dificuldade mais elevado que nos dois anos anteriores, e acrescento desde já que não viria daqui mal ao mundo, este ano tínhamos mais uma novidade: só um verdadeiro Zatopek no que a língua alemã diz respeito conseguiria fazer todas as tarefas obrigatórias com calma e tempo para reflectir, um maratonista cheio de fôlego, um Schuhmacher a lutar pela pole position. Zatopeks não temos, Schumachers idem e até o Carlos Lopes já pendurou as sapatilhas há muito tempo, mas Usain Bolt teria dado jeito hoje. Podemos preparar muito bem os alunos, podem até ser todos excelentes, aplicados, empenhados, interessados mas não os podemos preparar para estas ‘idiossincrasias’ do Gabinete de Avaliação Educacional, GAVE para os íntimos. Se é a isto que chamam rigor devem estar equivocados. Aquilo era uma prova de maratona. Só os que têm fôlego se salvarão, não necessariamente os que sabem.
E serve tudo isto para dizer que não, os exames nacionais não são fiáveis, não têm coerência alguma de ano para ano, uns anos são assim, outros assado e outros nem por isso, apesar de serem exactamente os mesmos programas. Servem propósitos vários mas não aquilo para que alegadamente foram instituídos. Dizia Nuno Crato que o Ministério da Educação devia ser implodido, isto antes de se tornar eminente Ministro da Educação, porque agora, fazendo parte do sistema, faz o que outros antes fizeram: muito pouco de jeito. É pena. É preciso ter fôlego.
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Por coincidência, acabo de ler o teste nacional de matemática do segundo ano a que este ano todos os alunos foram sujeitos. (Não é um exame, serve apenas para avaliação do ensino.)
Concordo enfaticamente com a Leonor. Aquele teste é uma vergonha, cheio de perguntas redigidas num português arrevezado e manhoso que induz os alunos em erros. Incluía um raciocínio por analogia – que não é raciocínio lógico – e perguntas difíceis até para um adulto, quanto mais para crianças de oito anos.
Fiquei pura e simplesmente enojado. Se todos os exames nacionais são assim, muito mal vai o país.
Ena, Luís, finalmente concordamos! Não consigo entender que equipas são aquelas e por que razão os exames não têm qualquer coerência de ano para ano. Outro exemplo: o de Inglês, código 550, nacional também. Nos dois anos anteriores o exame era disparatadamente fácil e curto. Este ano era muito mas muito mais difícil e não me pareceu totalmente adequado mas este ainda só vi de raspão. Não sei o que pensam aquelas cabeças iluminadas. Acaba tudo por ser uma questão de sorte, é o que me parece às vezes, sorte de ser mais curto, adequado ao nível dos alunos e bem elaborado. Nada disto faz sentido e mancha todo o processo. Também aqui, nós, todos, cidadãos, devíamos exigir qualidade. Por todas as razões.
Eu sou da opinião que, precisamente porque os testes têm todos graus de dificuldade diferentes, eles deveriam ser classificados apenas em termos relativos, isto é, não se dava ao aluno uma nota absoluta (14/20, por exemplo), dizia-se apenas que percentagem dos alunos tiveram pior nota do que o aluno em questão. Por exemplo, o Zezinho seria classificado com 68% se 68% dos alunos que tivessem feito aquele teste (não outros) tivessem tido pior classificação do que o Zezinho. A meu ver, essa forma de classificar testes seria a única verdadeira, honesta e que não enganaria quem lesse os resultados.
No teste de matemática a que me refiro, o que me chocou não foi tanto a duração do teste, mas sim o português arrevezado em que algumas perguntas estavam escritas e a complexidade de alguns raciocínios exigidos, incluindo ratoeiras.
O que eu acho é que os exames deviam ser bem elaborados, com questões claras, linguagem correcta e que fossem fiáveis também na testagem de conteúdos. Contesto como digo no post a sua validade nos moldes como são feitos. O grau de dificuldade e a extensão dos exames é arbitrária. O problema é que, apesar da diabolização dos jovens de hoje em dia, a vida deles depende em parte do exame.
No jornal Expresso desta semana tinha uma conjectura que me pareceu interessante: quando muda a cor política do governo a dificuldade dos exames aumenta para mostrar como era facilitista e errada a política de educação do governo anterior. Passado um ou dois anos aliviam a exigência para mostrar como é correcta e dá frutos a nova política de educação. Aguardemos pelos próximos exames…
Não duvido dessa conjuntura. O problema é que no meio de tudo isto há alguém que sofre com esse ‘spinning’. Para o ano as escolas vão ter mais benefícios quanto menor for a diferença entre a classificação interna, a que tiveram durante os dois ou três anos de uma disciplina, e a classificação de exame. Três ou dois anos de trabalho contra 120 minutos onde só conta a escrita e nada mais. Provavelmente o grau de dificuldade irá aumentar. Nada é feito ao acaso mas isto já é muita teoria da conspiração. Deixei de acreditar no governo e no Ministério como pessoas de bem. Não o são.
Cibernética.
Essa engenharia de que fala JJAmarante, se acontece, é simplesmente nojenta.
Teresa, é claro que não se pode afirmar tal a 100% mas restam-me muitas poucas dúvidas. Basta ver o que aconteceu no Básico com a Matemática. Há que desacreditar tudo o que foi feito antes, disso não tenho dúvidas. Somos peões no meio de tudo isto. Não há critério nos exames. É tudo uma questão de sorte ou azar: sorte de calhar com um ano em que as coisas são menos mal feitas ou azar de calhar com um ano em que supostamente se quer mostrar algo. Este é ano mau evidentemente.