Ganas? Não temos


Teresa Ribeiro,

Acusam os portugueses de cobardia, ou na melhor das hipóteses de falta de nervo quando os comparam com os gregos, os islandeses e os irlandeses. Evocam os conhecidos versos do O’Neill para confirmar, desconsolados, que o tempo passa e a natureza lusa permanece mansa, quase vegetal. Os portugueses abstractos continuam a vergonha dos portugueses concretos. A indignação é pública e notória quando os portugueses concretos, agitadamente sentados à mesa de tertúlias televisivas ou a derramar as suas prosas incendiárias em colunas de jornais, fustigam os portugueses abstractos clamando por mais agitação popular. 

Não fosse esta saudável esquizofrenia e talvez o desespero já tivesse incendiado as nossas ruas. Chamo-lhe saudável não porque gera esta paz podre, mas porque nos salvaguarda de um mal maior, que é o da identificação pessoal com um colectivo que não funciona. Não é a cobardia nem a lassidão que nos tolhe, mas a falta de fé no todo que formamos, essa doença endémica que a História, a política recente e as estatísticas do Eurostat, da OCDE e outros organismos competentes, ajudam a explicar. Até a raiva precisa de esperança. 

11 comentários em “Ganas? Não temos”

  1. Muito bom texto, Teresa.

    É caso para dizer que enquanto uns protestam, manifestam-se, comentam -senão mesmo, argumentam e contra-argumentam-, os outros, bem.. os outros estão ocupados a trabalhar, ou a procurar trabalho. E atenção que nem me refiro à procura de emprego com o fatalismo a que nos habituamos a ouvir e ler; apenas se chama a isso “andar para a frente”.

    1. Obrigada. Os que se manifestam estão no seu direito, CeC. Se não têm emprego ou o sentem em risco não lhes falta bons motivos para desabafar. Já os querrilheiros de gabinete que invectivam contra “os portugueses”, demarcando-se da sua bestial apatia, irritam-me bastante.

  2. É verdade, Teresa. Até a raiva precisa de esperança, mas a raiva consome muita energia e neste momento toda a que temos é pouca para conseguirmos sobreviver. Só os “portugueses concretos” (eu chamar-lhes-ia diletantes) que incendeiam tertúlias e jornais todos os dias bramando contra a apatia dos “abstractos”, podem dar-se ao luxo de gastá-las em vibrantes mas estéreis argumentações. Porque esses têm emprego, e geralmente muito bem pago.

  3. Boa reflexão, Teresa. A nossa atitude também depende da nossa circunstância. Escrevo estas linhas enquanto leio uma notícia com o seguinte título: “Juros de Espanha regressam à zona de risco e arrastam Itália”. Por mim, subscrevo estas palavras de António Vitorino que escutei no ‘Prós e Contras’ (RTP) de ontem à noite: «O caso grego não é um bom exemplo: haver apenas raiva e revolta não é solução.»

    1. Pois é, Pedro. Nós somos nós e as nossas circunstâncias, como dizia Ortega Y Gasset. Os factores contextuais dos portugueses implicam, penso eu, uma reserva que emana do cepticismo e da maturidade que op cepticismo sempre traduz. Por outras palavras, acredito que não é a cobardia que nos amansa, mas a sabedoria de quem já se habituou há muito a viver com baixas expectativas.

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