Sugestão: um livro por dia


Pedro Correia,

 

Fernando Pessoa – uma quase autobiografia, de J. Paulo Cavalcanti Filho

(edição Porto Editora)

25 comentários em “Sugestão: um livro por dia”

    1. Este não li, Ivone. Foi só por palpite. Mas tenho curiosidade em ler. Já lá vão muitos anos desde que li, aliás com muito gosto, a biografia de Pessoa feita pelo João Gaspar Simões, que procurava dissecar a psique do poeta à luz dos conceitos freudianos que o levaram a hipervalorizar poemas como ‘O menino de sua mãe’.

  1. Não li o livro, mas ouvi a entrevista de J.P. Cavalcanti na RTP2 e achei tudo o que ele disse um absurdo de arrogância e megalomania. Além disso, tenho acompanhado a polémica com a Teresa Rita Lopes e acho que ela tem toda a razão nas suas críticas.

    1. Também não li, mas é uma obra que me desperta curiosidade. O facto de ser polémica ainda me deixa mais curioso. São raríssimas, hoje em dia, as polémicas no meio literário português.

      1. Lá isso é verdade, e faz muita falta. Mas este homem acha-se uma espécie de encarnação do Pessoa, ou, o que é ainda pior, o seu maior amigo e confidente. Inventou 597 (estou a exagerar, mas não muito) novos heterónimos e fala com a propriedade de quem tem a palavra final sobre o assunto. Confesso que não tenho grande paciência para esse género, achei-o um chico-esperto sem muito que fazer e com muito dinheiro, que aliás faz questão de apregoar.

  2. Não sei se será maldição, sou muito pouco espírita, mas fico perplexo com as constantes dicussões à volta de Pessoa, como não sucede em mais nenhum outro – nem entre camonianos e ó se havia matéria para birras.
    Não é que se discuta o poeta, tão ricas e obscuras são as suas letras e a sua vida, mas é o facto de as brigas assumirem logo à primeira curva a forma de lutas pela legitimidade hermenêutica. Mutatis mutantis, lutas pelo poder. E depois ficam como os velhos dos marretas: “o meu Pessoa é mais verdadeiro que o teu!”, “Eu é que o percebi, tu não!”, blah, blah, blah, grrrr. Tanta gente em bicos dos pés e tão impante, caramba… Olha que rebentas!

    1. Pessoa – como noutros tempo Camões e Eça – foi sendo apropriado por sucessivas vagas de “pessoanos”, cada qual considerando-se uma espécie de guardião do templo. O primeiro foi o Gaspar Simões, que aliás o conheceu pessoalmente e escreveu aquela que é até hoje a mais influente biografia do poeta nascido precisamente num 13 de Junho (de 1888). Uma biografia escrita na óptica “psicologista”, muito em voga nas décadas de 40 e 50, que procurava interpretar toda a obra de um autor à luz do seu percurso biográfico. Obra polémica, portanto. Mas se uma biografia gera polémica já está de algum modo a cumprir a sua missão.
      Acontece que Pessoa é um autor universal. Demasiado grande para permanecer à mercê de um guardião do templo, por mais qualificado que ele (ou ela) seja.

  3. A biografia não li, não sei. Mas a Teresa Rita Lopes exagera. Acho que chegou a um ponto em que quer ser mais Pessoa que o próprio Fernando, enfim… dizer que nunca ninguém viu o Fernando Pessoa bêbado?! Fernando Pessoa, genial ou não, era uma pessoa, não era um deus…

      1. É fácil fazer-se passar por Álvaro de Campos para afirmar «Está para nascer a pessoa que tenha visto o Fernando publicamente bêbado ou a namorar com um homem!» O próprio Fernando Pessoa se fazia passar por Álvaro de Campos. Mas por mais que fosse o Álvaro de Campos quem bebia, era o Fernando Pessoa, coitado, que se embebedava. Sinceramente (e gosto muito da obra de Teresa Rita Lopes publicada sobre Fernando Pessoa), a Teresa Rita Lopes já há algum tempo (anos) que passou para além das marcas no endeusamento/falsificação da biografia de Fernando Pessoa. Esta suposta carta de Álvaro de Campos que lhe foi comunicada «mediunicamente» ultrapassa todos os limites. Porque tenta passar uma falsa ideia, e lançar confusão, utilizando um expediente do próprio Fernando Pessoa, para fugir a questões que este não conseguia enfrentar. (Por isso, fazer o mesmo, é quer ser mais Fernando Pessoa, que o próprio Fernando Pessoa) Não será por acaso que o Álvaro de Campos aparecia para: acabar a relação com Ofélia Queiroz; ir ao encontro dos amigos (Almada Negreiros e João Gaspar Simões), quando o estado alcoólico em que se encontrava já não permitia encontros…

        Isto tudo independentemente da qualidade ou não que a biografia do José Cavalcanti possa ter (e que ainda não li).

        1. André, estou como o Pedro: qualquer tentativa de apropriação da personalidade de Pessoa é abusiva, seja de quem for. Se nem o próprio conseguia resumir-se a uma só pele, como pode ousar alguém fazê-lo por ele?
          Eu não li o livro do Cavalcanti, como já disse. Mas vi uma entrevista dele que me deixou muito mal impressionada, porque estava cheio de certezas sobre teses que são puras especulações. Não gostei, mas ainda hei-de ler o livro para tirar teimas.

          1. Também eu ainda não li, e concordo com o Pedro Correia, claro. Agora a TRL esteve mal, e eu esperava que não estivesse… Quando li a «carta» ainda pensei que era ironia, e estava bem. Mas depois li o artigo do Público, e ela está a falar mesmo a sério! Então critica o José Cavalcanti por usar versos para fazer deduções biográficas – e depois faz exactamente o mesmo…? É como se estivesse a dizer «Eu é que tenho o dom de interpretar os versos do Pessoa. As minha interpretações é que estão correctas.»

            Quanto a «inventar» heterónimos (só por curiosidade) na minha opinião a Teresa Rita Lopes foi justamente a primeira «pessoana» (que eu tenha conhecimento) a fazê-lo…

            Enfim, o Fernando Pessoa dá para tudo. E é de todos, mas nunca será de ninguém…

          2. De facto, o Pessoa dá para tudo. E por isso mesmo não deve ser apropriado por certos “pessoanos”. Quanto à utilização de versos do poeta para fazer deduções biográficas, nada de novo debaixo do sol: o Gaspar Simões fez isso mesmo há mais de meio século. Ainda me lembro das considerações que produziu em torno do célebre poema ‘O menino de sua mãe’ a propósito da possível relação traumática entre Pessoa e a progenitora…

          3. Confesso que também achei que era pura ironia a carta da TRL. Mas tem razão: o Pessoa dá para tudo mesmo, é a sina dos muito grandes.

    1. Obrigado pela hiperligação, André. Através dela cheguei enfim ao tal artigo crítico de TRL, a que Cavalcanti responde praticamente sem responder. Bem, na minha opinião.
      Desta polémica, retive sobretudo dois pormenores:
      – Aparentemente, TRL critica uma obra que não leu. Se assim foi, parece-me errado;
      – «Em Portugal os intelectuais enfrentam-se dando cotoveladas» (palavras que TRL terá dito a Cavalcanti). Se assim foi, parece-me correcto.

  4. Não cometa a Ana Vidal o erro de julgar livros pelas entrevistas que seus autores dão. O Cavalcanti até pode ser um biltre, um batráquio homossexual, um mar de arrogância, etc., mas isso nada me diz de sua obra.

    Li a coisa em questão e gostei. Talvez peque por abundar excessivamente em minudências, quiçá ao cúmulo da obsessão. De resto, é uma excelente biografia, bem documentada, incluíndo aturadas averiguações, espraiadas num Português escorreito. Enquanto substância de investigação, é certamente colossal.

    Quanto a essas tricas, são laterais e, como tal, pasto fértil para a masturbação intelectual e o habitual exercício de verrina em que se atolam as nossas Letras.

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