Se eu fosse só uma, como poderia contar comigo mesma?Terei todo um universo no meu interior? engolido à nascença por inteiro ou que se move e cresce sem aviso?
Se eu sou só uma, com quem dialogo internamente? Não deveriam os nossos pensamentos ser mais lentos, não nos sentiríamos prisioneiros da nossa própria mente?
Se eu nasci para ser só uma, porque não me encontro facilmente? Porque me angustiam as minhas próprias decisões, mesmo aquelas que tomo apenas na minha mente?

Porque nunca somos apenas só um, somos muitos, como diria Pessoa :))))
Felizmente somos 🙂
Somos muitos e somos muito variados. Mas a questão das decisões enrubesceu-me a cara. As vezes tomo decisões muito rubras. Confesso.
(E não estou a falar de futebol.)
Caro Bruno, agradeço a leitura e o comentário. Por vezes há decisões que me angustiam. Na realidade, são cada vez menos. Mas, e talvez daí a inspiração, antigamente era uma constante.
A angustia das decisões não se deve maioritariamente a um certo orgulho. Quando erramos numa decisão, porque não dar um passo, ou dois, atrás e recomeçar a caminhada de novo?
É verdade, nunca somos só um/uma. Somos, pelo menos, dois/duas: o ser que nasceu e aquele que os pais e a sociedade fabricaram. Porque todos nós temos uma herança, ao nascer, e não falo apenas da herança genética, ou material. Falo dos defeitos e virtudes, alegrias e tristezas, satisfações e frustrações daqueles que nos criam.
Mas, por vezes, é bom encontrarmo-nos com o nosso ser básico, a nossa verdadeira essência. Estou convencida de que a nossa “voz interior” é esse ser que ainda não foi corrompido. Podemos tentar estabelecer a comunicação com a criança que fomos, os resultados podem ser surpreendentes. Se, numa altura de indecisão, pegarmos numa fotografia da nossa infância e perguntarmos àquela criança o que faria no nosso lugar, a resposta surge-nos.
Saramago disse algo como isto: “quando eu morrer, não transporei a barreira sozinho. Fá-lo-ei de mão dada com a criança que fui”.
Se pensarmos assim, se tivermos essa criança sempre a nosso lado, nunca mais nos sentiremos sozinhos.