Cadáver esquisito (13)


enlil,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA, 7. O MEDALHÃO, 8. O SEGREDO, 9. LABIRINTOS, 10. FRAGMENTOS DE HISTÓRIA, 11. UMA VIAGEM, 12. REVELAÇÕES E MAIS DÚVIDAS

13

NÃO PODES APAGAR UM FOGO COM CUSPO

 

– Os meninos já se deitaram?

Vivelina enquanto vertia o chá da lua cheia, pálido e fumegante:

– Tudo nos conformes, o menino João Cosme com a bifa – detestava-a e não conseguia tratá-la de outro modo – a retemperar das agruras do dia. Que bem os oiço resfolegar como dois coelhos. O rapaz desde que abriu os olhos parece que os abriu todos à uma.

– Os coelhos não resfolegam – cortou seca a madrinha ao queimar a língua na borda da chávena. Ordinarices na minha casa é que não, santa paciência…

– O Eduardo, esse não ata nem desata, já ronca.

Pobre, pobre, Eduardo que não ata nem desata. À falta de melhor ideia, a madrinha apreciava repetir os ditos pícaros da Vivelina.

Jantar e frugal. De portadas cerradas. Tudo na cama nem que fosse até à hora do lobo – e depois era com cada qual, entregue ao que o destino lhe reservava. Assim determinou a velha senhora madrinha, já basta o que basta.

– E o professor?

– Ainda está na cama a ler. Derreado desde de manhã. Pudera.

A manhã fora um circo, qual telenovela mexicana em que, como toda a gente sabe, o interesse do espectador é acicatado por uma intriga trôpega, de passo trocado, às cabeçadas e aos esses.

A inspectora lívida com o repente do professor, ainda o corpo etéreo de Valeriya não tocara no chão e os circunstantes também eles de boca aberta, tão inédita fora a cólera que eriçou as suíças e congestionou as maças do rosto de um homem por demais habitual:

– Viu o que fez? A senhora ou diz ao que vem e que provas tem contra nós ou aqui só volta com mandato. Muitos telefonemas hão-de correr antes disso, esteja certa.

E lá abalou a inspectora pela esquerda baixa, apanhada em flagrante falta de prova de delito sem, no entanto, deixar de franzir o cenho anunciando ser este assunto agora pessoal.

João Cosme a desanuviar:

– Aqui está uma que sabe mais do que diz.

– Enquanto o pau vai e vem folgam as costas. – Isto era o professor cada vez menos em anticiclone, abaixando a pressão sanguínea no rosto – rondam, vasculham, interrogam e depois não encontram nada que faça prova, é o costume. É da maneira que se acabou o telefone, vão pôr-se à escuta, tão certo como eu me chamar José Augusto.

Vivelina soltou uma gargalhada, débil, ainda lhe doíam os miolos, mas acintosa quanto baste.

E numa voz álgida, vinda doutras épocas, de velhas alianças e em tom semi-bíblico, o professor proferiu direito a ela:

– Դուք չեք կարող տեղադրել կրակ դուրս թքել.

Ao que Vivelina dobrou a cerviz como os meninos nunca a viram dobrar:

– Այո Ձեր պատիվ.

“Eh lá!” exclamaram os irmãos Cosme: João estupefacto, Eduardo arregalado.

– Tratem disto, andem – bateu a madrinha com a bengala no chão à moda dramática que em nova vira nos palcos de Paris, uns dramalhões de condes, marquesas e cocheiros embrulhados até ao último acto. Apontava para o persistente desmaio de Valeriya – vocês querem ver que…

 

De noite outra vez, outra vez a madrinha para Vivelina:

– E o que lhe fizeram?

– Jaz morta e arrefece. Deixaram-na amortalhada na cave.

– Ó deus, que mau gosto vir com ironias poéticas numa hora destas. Só você, mulher…

E subiu ao quarto, a deitar-se na cama longamente aquecida por José Augusto.

Ninguém tocara entretanto nas medalhas esquecidas sobre a mesa da cozinha.

 

(Este é o décimo terceiro capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é a do João Carvalho.)

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