Houve uma vez um homem chamado Johann Friedich Struensee. O início não é este mas podia ser. O verdadeiro início é:
Johann Friedich Struensee foi nomeado médico real do rei dinamarquês Christian VII no dia 5 de Abril de 1768; quatro anos mais tarde foi executado.
Começa, pois, com a eliminação de todas as esperanças. Claro que o relato é histórico (há páginas na Wikipedia sobre as personagens) mas é também pouco conhecido – e o leitor poderia esperar um final feliz. Enquist, escritor sueco nascido em 1934 e – como podemos andar tão distraídos? – quase desconhecido em Portugal, faz questão de esclarecer imediatamente que tal não sucederá.
Ao assumir o trono dinamarquês, Christian VII é um miúdo de dezasseis anos saído de uma educação severa. Está assustado, tem períodos de demência, provavelmente é esquizofrénico. Sente atracção pelas ideias iluministas e chega a corresponder-se com Voltaire, dando esperanças ao francês de que a mudança possa começar naquele pequeno e atrasado país da Escandinávia. Mas Christian é demasiado inconstante e demasiado fraco. Os seus períodos de lucidez são raros. Aceita casar com a prima Caroline Matilda (ou Mathilde, como ficou conhecida na Dinamarca), irmão do rei inglês George III (ou Mad King George). Ela tem quinze anos e um espírito forte. O casamento é uma série de mal-entendidos. Por desinteresse e medo de Christian, só é consumado ao fim de vários meses. Mesmo depois, Christian anda mergulhado numa melancolia feroz. Numa tentativa para que lhe passe, levam-lhe uma prostituta, Anna Catharine Beuthaken, conhecida como Bottine Caterine por ter como padrasto um sapateiro. Christian apaixona-se. Isso é inaceitável e ela é forçada a afastar-se de Copenhaga. Numa tentativa atabalhoada para a encontrar, Christian parte em viagem por vários países europeus. Em Londres tenta assistir a uma representação de Hamlet mas tal é evitado pois seria demasiado arriscado confrontá-lo com um príncipe dinamarquês tombando na loucura (acaba por ver Richard III). Em Paris encontra-se com Diderot mas não com Voltaire. É nesta viagem que Struensee está pela primeira vez ao seu lado. Diderot explica a Struensee que talvez o rei não seja louco mas, se o for, então a doença deixa um vazio no centro do poder. Quem quer que ali entre tem uma oportunidade maravilhosa. Struensee sabe que as palavras lhe são dirigidas. Que é ele quem pode «entrar».
Médico, iluminista, viera para ser o médico do rei. Acaba a controlá-lo. Torna-se seu primeiro conselheiro. Redige decreto após decreto que o rei assina quase sempre sem ler. Envolve-se com a rainha. São dois seres inteligentes e fortes, perdidos numa corte hostil. As cenas de sexo são – bom, nos livros as cenas sexo são sempre ridículas, não é verdade?
Ele deixou-se ficar imóvel dentro dela, esperando pelo bater da sua pulsação.
Pouco a pouco começara a perceber que o prazer mais intenso era encontrado quando esperava pelo bater da pulsação nas profundezas dela, quando as membranas de ambos respiravam e se moviam ao mesmo tempo, suaves, pulsantes. Era maravilhoso. Ele gostara de aprender a esperar por ela. Ela nunca precisara de dizer nada, ele aprendera isso quase de imediato. Podia ficar deitado quase imóvel, durante muito tempo, com o seu membro profundamente dentro dela, ouvindo as suas membranas, como se os corpos de ambos tivessem desaparecido e apenas permanecessem os sexos. […]
Ele dormira com muitas mulheres, e ela não era a mais bela. Mas nenhuma o ensinara a esperar pelo ritmo das membranas e pelas pulsações mais íntimas do corpo.
Ou talvez não, talvez nem sempre sejam ridículas. Numa entrevista, Enquist garantiu que, ao escrever as cenas de sexo, estava tão bem informado que era como se partilhasse o quarto com eles. Talvez sim, talvez não. O que importa?
Struensee avança mas sabe que está perdido. Avança certo de que o farão parar. É em parte por isso que não avança para a reforma mais importante: a que aboliria a servidão. Legisla a abolição da lei contra o adultério, a abolição da pena de morte para crimes de roubo, a proibição da tortura, a criação de um fundo de protecção para filhos ilegítimos, a redução das pensões supérfluas dos funcionários públicos («supérfluas» está no livro), a transferência das tarifas de Øresund do Tesouro Real para o Estado. Redige e faz o rei assinar centenas de decretos – mas não o mais importante de todos. Ainda assim, sabe que está perdido. Não só por questionar os poderes instituídos mas também porque aqueles que pensa estar a defender não o compreendem. E, na verdade, Struensee age como um déspota – um déspota iluminado mas um déspota. Seria possível de outra forma, vários anos antes da Independência Americana, vinte anos antes da Revolução Francesa?
Guldberg é a quarta personagem principal. Pequeno, pouco atraente, filho de um cangalheiro, julga-se guardião da pureza numa corte atolada em deboche. Imagina relatos históricos começados com a frase “Houve uma vez um homem chamado Guldberg”, ao jeito das sagas islandesas, onde a grandeza de um homem não é avaliada pela sua aparência. Detesta a rainha. Detesta-a particularmente desde o dia em que ela, casada mas ainda à espera da visita do marido, dando crédito a um rumor antigo segundo o qual Guldberg fora castrado em criança, o questionou sobre como era viver sem desejos. O rumor é falso. Perante a jovem rainha de ombros nus e «seios quase expostos», Guldberg sente-se humilhado. Ela julga-o um ser incompleto. Guldberg não lhe perdoará. Nem a Struensee, que ela aceita na cama. E que condena, ao fazê-lo. Porque é mais fácil eliminar Struensee por manter relações sexuais com a rainha do que por causa das reformas políticas. A História é quase sempre o resultado de lutas menores – pelo poder individual, pela paixão, pelo prazer da vingança, pela vaidade. Guldberg sabe-o. Enquist também. É por isso que este livro, sendo um romance histórico, é acima de tudo um romance. Centrado nestas quatro pessoas. Tudo o resto vem por acréscimo. Um romance em que o conhecimento da maioria dos factos (repito-o: estão disponíveis na net e Enquist não os esconde logo de início) em nada diminui o prazer que se obtém ao lê-lo.
Pensei em terminar com uma piada, escrevendo que, duzentos anos depois de Shakespeare escrever Hamlet, algo continuava podre no reino da Dinamarca. Mas seria patético, uma forçada tentativa de humor. Parece-me mais significativo mencionar algo que Enquist refere cedo: que ainda hoje, duzentos e quarenta anos decorridos sobre os acontecimentos, não existe nenhum monumento dedicado a Struensee na Dinamarca.
Per Olov Enquist, A Visita do Médico Real. Edição Ahab (em português pré-AO), tradução de Mário Semião e Maria João Freire de Andrade.


Gostei muito de ler, meu caro.
Obrigado, João. Ainda que, não obstante ser baseado nos factos, possa conter uma razoável dose de liberdade poética, o livro é muito bom e Enquist um autor que vale a pena descobrir.