Açoriano, escritor e poeta, Antero de Quental nem chegou a completar 50 anos de vida, mas deixou obra e teve um lugar de destaque na chamada ‘Geração de 70′, no século XIX das reformas. Doente do foro psiquiátrico, escolheu morrer na terra onde nasceu, mas o País inteiro conhece o seu legado de intelectual e reconhece o seu empenho pelo reformismo.
I
Faz hoje 170 anos que nasceu (18 de Abril de 1842) em Ponta Delgada, na ilha de São Miguel, e foi logo baptizado a 2 de Maio, com o nome de Anthero Tarquínio de Quental, descendente de uma antiga e respeitada família açoriana. O pai, Fernando de Quental (1814–1873), também natural de Ponta Delgada — casado com Ana Guilhermina da Maia (1811–1876), nascida em Setúbal — era um veterano das lutas liberais e tomou parte no desembarque do Mindelo.
Antero começou cedo a aprender francês com o poeta romântico António Feliciano de Castilho. Tinha 10 anos, em 1852, quando se mudou para Lisboa com a mãe e ingressou num colégio, que fechou no ano seguinte e os fez regressar a Ponta Delgada. Entrou no Liceu Açoriano e recebeu lições de inglês com um preceptor britânico conhecido na ilha.
Aos 16 anos, rumou a Coimbra, onde cursou Direito e, ao mesmo tempo, começou a abraçar os ideais socialistas, aí fundando a Sociedade do Raio, agremiação que tinha por objectivo reformar o País através da literatura. Eram os princípios da “revolução intelectual”, a revolução pacífica que devia fazer-se por via das ideias publicadas e divulgadas como fruto da intectualidade.
Viu os seus primeiros sonetos publicados ainda antes de completar 20 anos e, em 1865, publicou as Odes Modernas, influenciado pelo “socialismo experimental” do filósofo francês Pierre-Joseph Proudhon.
II
Esteve na primeira linha da ‘Questão Coimbrã’, raiz da renovação ideológica do século XIX, movimento de jovens académicos e escritores que assumia ter assimilado novas ideias e que se opunha ao que entendiam ser o academismo vazio da geração anterior de intelectuais, no centro dos quais estava Castilho (que passou a atacá-los por provocarem a revolução intelectual).
A verdade é que a contenda durou, mas dela só sobressaíram as publicações arremessadas por Antero, de um lado, e Castilho, do outro. Em 1866, porém, Antero foi para Lisboa trabalhar como tipógrafo, experiência de vida operária que repetiu nos dois primeiros meses do ano seguinte, durante uma estadia em Paris.
Já em 1868, novamente na capital, formou o Cenáculo, tertúlia de intelectuais que procuravam prolongar em Lisboa aquilo que os movera em Coimbra e que integrou Eça de Queirós, Guerra Junqueiro e Ramalho Ortigão, entre outros.
Fez parte da fundação do Partido Socialista Português e fundou o jornal República com Oliveira Martins, em 1869, e a revista O Pensamento Social com José Fontana, em 1872.
III
Com a morte do pai no ano seguinte, Antero herdou uma fortuna apreciável que lhe permitiu passar a viver dos rendimentos. Em 1874, a tuberculose obrigou-o a descansar, em 1879 mudou-se para o Porto e, em 1886, publicou Sonetos Completos, considerada a sua melhor obra poética.
Entretanto, em 1880, tinha adoptado as duas filhas do seu amigo Germano Meireles, falecido três anos antes, e fora viver para Vila do Conde em 1881, aconselhado pelo médico, onde permaneceu dez anos (com alguns meses pelo meio nos Açores) e que ele próprio considerou o melhor período da sua vida: «Aqui as praias são amplas e belas, e por elas me passeio ou me estendo ao sol com a voluptuosidade que só conhecem os poetas e os lagartos adoradores da luz.» Em Vila do Conde, começaria assim um soneto: «Vozes do mar, das árvores, do vento!»
Em Maio de 1891, voltou para a capital e instalou-se em casa da irmã, Ana de Quental, mas não ficou muito tempo. Sofria de transtorno bipolar, que o levava de momentos de hipomania, hiperactividade e imaginação a estados de depressão, ansiedade e tristeza. A depressão foi-se tornando permanente e depressa achou que não estava bem em Lisboa: em Junho de 1891, decidiu voltar para Ponta Delgada. Pode dizer-se que, depois da primeira fase de juventude descoberta e após a fase da poesia como “voz da revolução”, tinha entrado na fase derradeira da inquietude madura: a poesia metafísica, a busca de um sentido para a existência.
A 11 de Setembro de 1891, sentado no banco de um jardim (ainda hoje assinalado, junto ao Convento de Nossa Senhora da Esperança e paredes meias com o Senhor Santo Cristo dos Milagres), Antero de Quental suicidou-se com dois tiros na boca. Aos 49 anos, quis acabar na terra que o viu nascer e onde procurava sem encontrar, de mão dada com a doença, o sentido da vida. Também quis ter a certeza de que acabava com ela. O segundo tiro era uma garantia de que lhe punha fim e o intervalo entre os dois disparos não o iluminou — uma conclusão que podemos tirar com aparente segurança.
Contudo, não viveu em vão. Afinal, é por isso que continua a ser estudado, lembrado e reflectido. Em 1942, o grande poeta brasileiro Manuel Bandeira escreveria: «Costuma apontar-se o Eça como o modernizador da prosa portuguesa. Basta, porém, a carta Bom Senso e Bom Gosto para provar que se houve reforma da prosa portuguesa, ela já estava evidente no famoso escrito de Antero.»
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Ilustrações
– Manuscritos e assinatura de Antero
– Antero (c. 1887)
– Retrato a óleo de Antero (Columbano Bordalo Pinheiro, 1889;
Museu do Chiado, Lisboa)
– O banco da morte (Campo de S. Francisco, Ponta Delgada)





Não sou apreciador de poesia, admito. Há para aí três ou quatro poetas que me fazem ler poesia com gosto. Um deles é precisamente Antero.
Ainda bem, John.
Como é que neste blogue, que defende o português puro e a sua imaculada ortografia, se escreve “Antero” um nome que, na verdadeira ortografia, é e sempre será “Anthero”?
O João Carvalho está relapso na sua defesa da ortografia!!!
Obrigada! sabe bem vir aqui.
Obrigado eu. Sabe bem ouvir isso.
Como é, pergunto, que uma pessoa se pode suicidar com dois tiros na boca?
É que um só tiro na boca, em princípio, destroi o cérebro o suficiente para que este nem tenha capacidade para coordenar um segundo tiro!
Enfim, não entendo.
Como é que uma pessoa se pode suicidar com dois tiros na boca?
Não morrendo ao primeiro!
O Luis é patetinha ? Por amor de Deus …
Uma excelente lembrança e um excelente texto aqui deixado, em memória a este grande escritor, poeta e jornalista, que se dedicou também à filosofia e à política e que em tudo foi brilhante.
Foi bem cedo considerado por Castilho, como “um poeta de génio”. Morreu também cedo demais.
O dia 11 de Setembro, é um dia húmido em S.Miguel.
À hora do crepúsculo, após ter comprado um revólver, arma que usaria pela primeira vez, Antero, senta-se num banco, junto do muro do convento da Esperança. Nesse muro, por cima do banco, um dístico em pedra lavrada mostra a palavra “esperança” escrita sobre uma âncora.
Antero sorri. Esperança e uma âncora que o segurem à vida, eis precisamente o que lhe falta.
Ouvem-se dois tiros.
Havia já escrito, em Maio de 1887, numa carta autobiográfica enviada a Wilhelm Storck, o tradutor alemão dos seus Sonetos: Morrerei, depois de uma vida moralmente tão agitada e dolorosa, na placidez de pensamentos tão irmãos das mais íntimas aspirações da alma humana e, como diziam os antigos, na paz do Senhor – Assim o espero.
Belo complemento a enriquecer este apontamento histórico.
Bela crónica, João, gostei imenso. O Antero é daquelas figuras que ainda hoje consegue ultrapassar a memória da sua dimensão literária e política, fica-nos sempre o Homem nas mãos. Muito contraditório, muito complexo, muito torturado. Lembra-me sempre o outro… só não lhe deu para os heterónimos. Apesar de tudo era demasiado equilibrado e ‘dominante’ (de têmpera activa) para isso…
É como dizes. Obrigado pelas tuas palavras.
Texto muito bom, João. Antero é muito cá de casa.
Obrigado, Ivone. E é bom saber isso.
Bela evocação, João. Os sonetos do Antero são maravilhosos. E eternos.
Concordamos.
“… Eça de Queirós nasceu para a literatura no Cenáculo de Antero de Quental.
Os leitores portugueses terão dificuldade em compreender o que foi o Cenáculo — tão extraordinário, tão maravilhoso, tão fenomenal, tão inexplicável era esse poderoso centro de espirito e de estudo, de fantasia e de ideias no meio da sociedade lisbonense, a mais incaracterística e mais banando mundo.
O Cenáculo era uam pequena reunião de rapazes em sessão permanente em casa de Antero. Uns passavam lá o dia.Outros iam ficar de noite. Todos ali tinham os melhores o livros, as suas notas, as suas provisões de tabaco. Cada um desses homens possuía, pelo menos, uma das ciências capitais que constituem as bases dos conhecimentos humanos : a Física e a Química, as Matemáticas, a Filosofia,o Direito, a linguística. Antero de Quental, cabeça verdadeiramente enciclopédica, um dos mais sólidos e profundos entendimentos que tem produzido este século, era como a lógica viva daquele foco intelectual”…
No Cenáculo
…” De outra vez discutia-se sociologia. Tinha-se falado das fontes do direito, das origens da propriedade, do socialismo, da revolução. Tinha-se feito análise de todos os programas, a critica de todos os sistemas. Tinha-se arrancado ao assunto quanto ele podia dar: factos ideias, ditos, gargalhadas, versos alexandrinos, caricaturas….” por fim houve uma resolução prática: pedir ao Estado a ilha das Galinhas e ir para lá o Cenáculo ensaiar formas de governo…”
Ramalho Ortigão
Farpas
A narração desses governos é fantástica… merecia um post.
Merecia vários posts, sim.
Um dos meus livros favoritos de poesia, há muitos anos, era precisamente o dos Sonetos de Antero. Numa edição antiga, em pele de carneira e papel bíblia.
Li e reli tantas vezes esse livro. E ainda hoje sei de cor alguns desses sonetos. Com destaque para este, de que transcrevo aqui as duas quadras:
«Na mão de Deus, na sua mão direita,
Descansou afinal meu coração.
Do palácio encantado da Ilusão
Desci a passo e passo a escada estreita.
Como as flores mortais, com que se enfeita
A ignorância infantil, despojo vão,
Depus do Ideal e da Paixão
A forma transitória e imperfeita.»
Um dos mais belos poemas da língua portuguesa.
Gostei de te ler, compadre. Em geral, Antero não precisa de assinatura para ser reconhecido.
Gostei muito de te ler, João. Beijo
Obrigado, Teresa. Beijo para ti.
Essa citação final do autor brasileiro parece provar que chegou além-mar essa pecha nacional de não conseguir fazer um elogio sem apoucar outrém.
Agora foi o Eça que levou…
Parece-me uma conclusão precipitada. O Eça é reconhecido, pese embora Manuel Bandeira considerar que o Antero já dava antes os primeiros sinais.