Os dentes na mala


Patrícia Reis,

Ninguém sabe, é como um segredo, sem o ser.

Na mala, a mulher traz os dentes da mãe. Os dentes postiços que o hospital não quis. A mãe olhou para o lado enquanto tirou os dentes e aquelas coisas que são os dentes dela, que servem para falar e comer, que são apenas dela, da sua privacidade, foram parar à mala da mulher. A mãe passou a ter outra cara, os ossos comeram-lhe a cara, os dentes esvaziaram-lhe a cara e ela odeia isso, a exposição, a ausência. A mulher, por ser filha, por ser mulher, sabe.

Agora, no café, se a mala cair, moedas, canetas, blocos, um livro, cairão também os dentes da mãe e talvez alguém se interrogue. Ou não. A mulher não sabe.

As horas passam, o telefone do hospital está sempre livre, toca, toca, toca e depois uma voz que não diz nada, não se passa nada, a mãe continua sem dentes, numa marquesa qualquer, sem pijama, vestida apenas com aquela coisa azul com atilhos do hospital, e os dentes dela dentro da mala a passear pela cidade. Sentido? Nenhum.

13 comentários em “Os dentes na mala”

  1. Nos hospitais privados, dispensam uma caixinha de plástico com a forma de semi-circulo, precisamente para que os dentes sejam guardados.
    Quer dizer… dispensam… não será o termo certo a aplicar, porque na conta, a bela da caixinha vem debitada, mas prontos… isto pode ser visto um pouco na optica das antigas “casas-de-passe” onde até se dizia “sai mais caro, mas é outro asseio”.

  2. Muito bom e muito inquietante este teu texto, Patrícia. Porque se aplica aos nossos mais queridos e mesmo a todos nós, mais tarde ou mais cedo. A humanização das condições nos hospitais é um tema eterno e uma preocupação que tem de ser de todos os dias. Beijos

    1. Aqui há anos tive que trazer 2 alianças, uns óculos, um relógio… embrulhados num branquíssimo lenço de uma enfermeira. Não voltaram a ser usados. ( não é verdade: o relógio trago-o eu…)

      Ah, Patrícia … ( muito bom…eu é que sou piegas…)

  3. A tua historia é tão verdadeira que se compara à de uma amiga minha que foi operada e a quem desapareceu de uma gaveta a prótese dentária que havia lá guardado antes de ir para a cirurgia…
    O que é intimo deveria poder permanecer sempre connosco.

  4. Patrícia,

    Bolas, que texto! Obrigado…
    Mesmo parecendo que não tem nada que ver, há uns tempos vi uma exposição de Michael Wolf, onde incluía algumas fotografias do projecto “Tokyo compression” (tiradas no Metro de Tokyo). A partir de uma dessas fotografias, dei início a uma série no blog “sentido de ser”, onde escrevi “simplesmente” isto:

    Às vezes penso:
    a linha entre a humanidade e a desumanidade é muito ténue.
    http://oinsecto.blogspot.com.es/2011/11/o-sentido-de-ser.html

    Com este seu texto, vê-se que essa linha pode ser uns “simples” dentes.

    Um Abraço e, uma vez mais, obrigado!

  5. Podemos ler neste post muitas coisas, desde a humanização/desumanização dos hospitais, passando pelo cuidado com estas coisas devem ser tratadas (veja-se como fazem no tal hospital privado, quando facultam (vendem) caixinhas apropriadas para dentaduras), até à estória da senhora que emprestou a “ferramenta” à vizinha, para ela ir a um casamento e, depois ela, de tão satisfeita que estava com o novo visual, teimava em não a querer devolver…
    A mim, todavia, o que mais me choca e eu saber de antemão o que me vai acontecer, se tiver necessidade de ser operado: dentuça fora e envelhecimento instantâneo em mais dez anos, no mínimo, pouco me importando que a dentadura fique escondida numa caixinha, arrumada na mesinha de cabeceira ou dentro da mala ou do bolso de um meu descendente. O que eu não queria é ter de usar aquele utensílio, mas não tenho dinheiro paras implantações…

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