“Não somos educados para a velhice”


Pedro Correia,

 

Prestes a fazer 60 anos, Isabella Rossellini – que chegou a ser um dos rostos femininos mais sedutores no mundo do cinema – confessa sem rodeios numa entrevista que já começa a sentir o peso da idade. E confirma aquilo que outras actrizes vêm referindo nestes tempos em que a imagem comanda a vida: há cada vez menos lugar para mulheres maduras na indústria cinematográfica, sedenta de semblantes imaculados. Inesquecível intérprete de Blue Velvet (1986), a filha de Ingrid Bergman e Roberto Rossellini afirma nesta entrevista ao El Mundo: “Não somos educados para aceitar a velhice.”

Nada mais certo. Gabriel García Márquez, hoje um respeitável ancião de 85 anos, escreveu em tempos que “o segredo de uma boa velhice é fazer um pacto honrado com a saudade”. Devíamos aprender com ele e alguns outros sábios contemporâneos. Para aceitarmos cada fase da existência como uma dádiva e não como um fardo. Infelizmente tudo à nossa volta nos induz em sentido contrário – a começar pelo cinema. “Envelhecer faz parte da vida”, sublinha Isabella Rossellini, protagonista de uma película estreada há poucos meses: Três vezes vinte anos, de Julie Gavras, com William Hurt também no elenco. Um filme que recorre à ironia para nos falar do envelhecimento. Talvez a melhor abordagem seja mesmo esta. Até porque tristezas não pagam dívidas. Nem apagam rugas.

 

Imagem: Isabella Rossellini e Kyle MacLachlan em Blue Velvet (1986)

10 comentários em ““Não somos educados para a velhice””

  1. Lembrei-me agora de uma frase de Tennessee Williams que li há pouco tempo e que era mais ou menos assim: “em vez de usarmos a sabedoria que a idade nos confere para resolvermos os nossos problemas, transformámos o envelhecer num problema”.

      1. Não sei se a soledad do G.G.M. não será mais solidão do que saudade, que para mim não são bem iguais. Mas a frase aí está, poderosa. E realmente estes países não são para velhos …
        Abraço

        1. Tem razão, Fernando: uma tradução mais rigorosa, em termos literais, levar-me-ia a optar por ‘solidão’. Mas a solidão está muito longe de ser monopólio da velhice: há, pelo contrário, muita velhice mais e melhor acompanhada do que tanta juventude. Neste contexto concreto tudo me sugere a palavra ‘saudade’ para ser mais fiel ao espírito da frase de GGM, que assim ganha um significado mais amplo e dilatado em português. ‘Soledad’, no fundo, é um misto de saudade e solidão. Tal como ‘nostalgia’, em espanhol, também não equivale em estrito rigor à nossa saudade.
          E dou-lhe toda a razão: estes países não são para velhos. O maior estigma, a mais implacável segregação recaem hoje sobre os velhos nestas nossas sociedades muito ‘urbanas’ e ‘civilizadas’.

        1. Julgo que sim, Cristina. O Tennessee Williams era uma pessoa cheia de dramas íntimos e teve o condão de transformá-los em arte. Assim foi um dos maiores dramaturgos do século XX.

  2. De facto não há grande respeito pela velhice mas esta de que aqui falas tem mais a ver com o aspecto físico do que com o resto. À medida que o tempo avança convenço-me que nos cabe a nós aceitar a decadência do corpo, faz parte, é inevitável. Não há nada de mais ridículo do que alguém de meia-idade fazer-se passar por novo e nada de mais lamentável do que um rosto carregado de plásticas. Patético. Cada coisa a seu tempo. Ser velho só nos tira no corpo, nada mais. Mas claro que para o mundo do trabalho estamos acabados e isso sim, é trágico.

    1. As mutações físicas, sobretudo quando se trabalha com o corpo, podem ser dolorosas e até traumáticas. Mas não faltam grandes actores que mesmo após os 60, 70 ou mesmo 80 anos se transfiguram em palco, recriando-se como intérpretes. Lembro-me de uma Katharine Hepburn e de um John Gielgud, por exemplo. De um Paulo Gracindo. Ou – falando de vivos – de uma Jeanne Moreau ou um Michel Piccoli. Ou uma Fernanda Montenegro. Uma Helen Mirren. Ou – falando agora de portugueses – uma Eunice Muñoz e um Rui de Carvalho.
      De maneira geral, no entanto, nota-se uma rejeição cada vez maior e cada vez mais cedo de todos os cidadãos ‘não jovens’ – aqueles que não surgem nos ‘clips’ publicitários.

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