Na discussão aqui em baixo acerca do Acordo Ortográfico, José Navarro de Andrade classificou o assunto como “de somenos” quando comparado com “a indiferente sonolência perante o achincalhamento diário da gramática”. Se o assunto é ou não de somenos, cada qual decidirá. Mas há um ponto que me parece óbvio: o Acordo ajudará a aprofundar o achincalhamento. Porquê? Simples. De forma geral, concorde-se ou não com as suas ideias e prioridades, os opositores ao Acordo preocupam-se com a língua portuguesa. Obrigá-los a usá-la numa forma que os agride é convidá-los a desinteressarem-se de tudo o resto.
Achincalhamento
escafandro,

Ora aí está alguém que, inteligentemente, põe o dedo na “ferida” sobre o suposto “acordo ortográfico”! Parabéns pelas oportunas palavras!
Machado Costa
(Um tipo que quer continuar a escrever Português)
Obrigado, caro Machado Costa.
É uma técnica conhecida e velhinha, menorizar a questão.
E se esta precisa de ser menorizada! A mudança, por motivos puramente ideológicos, da grafia de milhares e milhares de palavras, é, verdadeiramente, uma fantasia totalitária digna de Staline!
Para se ter a noção da coisa, o acordo ortográfico da Língua Castelhana, muda a grafia de 9 (nove) palavras e, mesmo assim, é facultativo por respeito aos utilizadores da língua…
O que se passa aqui é um crime de inculturação de uma gravidade extrema, um genocício cultural imposto pelo estado à sua população e que é altura de se começar a denunciar nos grandes fóruns internacionais.
Caro jaa,
Pq é q se sente agredido pelo uso “tactear” (aquela muda não abre o ‘a’, como “supostamente” deveria fazer) e não se sente agredido por não usar “occidental”?
E, já agora, pq é q não se sente agredido qd escreve “especular” sem precisar de nenhuma muda p/ lhe abrir aquele ‘e’?
Mas mais importante que tudo, pq é q não pede o regresso de todas as mudas etimológicas perdidas em 1911 que, como se sabe, fazem tanta falta como aquelas que agora se perdem? Sabe, isso, sim, faria sentido, teria lógica e seria intelectualmente honesto. Tudo o mais, tem apenas dois nomes: ódio ao Brasil e outra coisa que eu n escrevo p n me censurarem o comentário.
De resto, pode escrever o seguinte: Daqui a um par de anos ninguém se vai lembrar que contração se escrevia com um ‘c’ mudo. E se o JAA disser que sim, q escrevia, e q faz mta falta, alguém lhe vai perguntar se inflação tb se escrevia com uma muda, ou pq é q “atuar” tinha uma muda e “contrato” não tinha, já q etimologicamente tb deveria ter, além do que um ‘c’ mudo em “actuar” tem tanta influência fonética como um “c” mudo em “contractar”, isto é, nenhuma.
Caro P. Porto:
Concordando consigo, sou obrigado a discordar no ponto em que teme censurarem-lhe o comentário. Como se pode verificar por este post de jaa, não é hábito nesta casa. Supondo, porém, que não cairia no insulto despropositado.
Não aceito este Acordo, por que ele não decorre da evolução natural da Língua. É, simplesmente, artificial! Por outro lado, não sejamos tão paternalistas com os brasileiros. Desde quando é que um brasileiro ou outro cidadão qualquer da Comunidade Lusófona tem dificuldades em perceber o que lê em português de Portugal ? Se me disserem que os brasileiros, muitas vezes, não entendem o que se diz, aí estou completamente de acordo. Mas essa falta de entendimento não deriva da nossa grafia , mas sim da nossa pronúncia. Será o próximo passo mudar a pronúncia? O que estará por a motivar tudo isto? Interesses económicos ou pura estupidez? Todos sabemos que a língua evolui, mas, já agora, que seja naturalmente e nunca por imposição!
Curioso, os países de língua inglesa parecem ter mais com que se preocupar!
Totalmente de acordo. Eu tenho uma teoria para as motivações: académicos que têm de justificar o lugar e desejam ficar na História ligados a um projecto importante, políticos que adoram tratados internacionais e produtores de dicionários que salivam à ideia de toda a gente ter de se atualizar ” (bom, produtores de dicionários e não só, pois como há dias referi a versão em Blu-ray do Casablanca que se pode comprar na Fnac – ou, acrescento agora, do Seven – já só tem legendas em português do Brasil, com todas as consequências lexicais e de construção frásica que isso acarreta). Mas é só uma teoria.
E todas essas reformas, de 1911, de 1945, de 1973 e de 1990 são, certamente, as grandes responsáveis pela ridente da escolarizaçao do país.
Afinal, temos apenas 20% de analfabetos, estamos na cauda da Europa.
E o Brasil também está próspero, quase, quase a apanhar o Zimbabué em índices de alfabetização.
As reformas e os acordos eram, afinal, para quê?
P.S. Ah, não se preocupe, que ninguém esquece como se escreve. Além do acordo brasileiro não poder ir para a frente (afinal, o Prof.Salazar e Getúlio Vargas já morreram) basta escrever inglês – essa pobre língua cheia de problemas, como diz Bechara – para encontrar todas as consoantes que a maçonaria e os fascismos – brasileiro e português cortaram (a par com a democracia e o estado de direito).
P.Porto: não teria qualquer problema em escrever conforme se fazia antes de 1911. Como se sabe, o uso do ‘ph’ (por exemplo) cria imensos problemas na aprendizagem do inglês, essa língua atrasada. Por cá, sempre preferimos tentar impor as regras por decreto – de cima para baixo. Na língua, como em quase tudo o resto, temos os resultados que merecemos.
E a ortografia que usou no seu comentário é um excelente prenúncio de que depressa surgirá a necessidade de mais um acordo, talvez daqui a dez ou quinze anos.
Ah, mais uma coisa: como suponho não ser uma declaração minha garantindo que não nutro qualquer ódio pelo Brasil que o convencerá do facto, nem vou dar-me ao trabalho. Processos de intenções ficam com quem os faz.
Ora, caro JAA, temos então um ponto em comum, tb n me incomodaria voltar aa etilomoligia clássica.
Onde divergimos é que a mim incomoda o apego ao pechisbeque etimológico que sobrou (erradamente) de 1911. Há que escolher: etimologia simplificada ou etimologia estrita (clássica); agora, fazer uma caramunha e antever o “fim da pátria” por causa da eliminação das sobras bacocas e ígnaras de 1911, nem pensar.
Fica outra questão; a etimologia no inglez, por regra, tem transposição fonética, ao contrário da etimologia nas latinas. Assim, escrever theatre ou teatre em inglez não é a mesma coisa. Já theatro ou teatro em portuguez, tem fonética igual, o que dificulta a escrita face ao inglês.
Outra; em inglez, as consoantes dobradas influenciam por rega a abertura da vogal anterior, ao contrário do português clássico. Assim escrever committee (cómiti) não poderia ser escrito comitee (câumáiti). Já committé em português tem fonética idêntica a comité. “Apple” tem fonética diferente de “Aple”, apesar do habitual erro de leitura dos portugueses.
E isto muda mt a habitual observação de que “em inglês usam a etimologia clássica e eles aprendem a ler na mesma”. Certo. Mas a etomologia em inglês tem, por regra, uma consequência fonética, o que torna a ortografia inglesa (pelo menos a este respeito) mais acessível do que a ortografia clássica portuguesa.
Faz-me confusão um ponto: sendo já quase impossível regressar à ortografia clássica, aceita-se o abastardamento progressivo? Em direcção a quê? Se levado até às últimas consequências, o primado da fonética gera resultados absurdos.
Temos três opções para a ortografia: etimológica clássica (francês), etilomógica simplificada (espanhol) ou fonética (italiano).
Em Portugal, há 100 anos optou-se pela segunda hipótese. Parece-me também impossível regressar aa etimlogia clássica.
Aquilo que é ridículo é saber que se está na simplificada mas diz-se que se morre sem o pechisbeque São tiques de pelintra bacoco, de nobre falido.
“São tiques de pelintra bacoco, de nobre falido.”
Pronto, ganhou. Não tenho réplica à altura deste argumento.
O governo de um país que se intitula uma democracia e um estado de direito não tem legitimidade para mudar a ortografia.
A ortografia está fora das atribuições dos governos.
Em Portugal, a pretexto de facilitar a aprendizagem já houve 2 mudanças impostas por regimes ditatoriais: em 1911 e 1945, mudanças que, para além de não se justificarem pelos princípios não produziram – como seria de esperar – qualquer dos efeitos benéficos apregoados.
Chega!
Simples.
Creio que chamará pechisbeque às sequências de consoantes latinas e gregas.
Fernando Pessoa – que fez mais pela Língua Portuguesa do que toda esta gentalha – chorou o desaparecimento desse pechisbeque e classificou a “reforma” de 1911 como um crime.
Mas é conhecido o pendor de Pessoa para o bacoco.
Já de si vê-se ser pessoa de gosto e muito brio.
Treuze, Lesboa, Menistro, Tíu, Ríu, Beneficiência, Stúbal… estarão no próximo Acordo, esperemos.
(E ah, esperem lá um coche, “desporto” passa a escrever-se “benfica”)
Você parece nem saber distinguir “por que” de “porque”, para quê continuar e tentar convencê-lo de que os exemplos que aqui trouxe são errados?