Cadáver esquisito (7)


modosdever,

1. UM LIVRO, 2. CA…… SARKIS G……..N, 3. OLHOS, 4. ESCAVAR, 5. IN VINO VERITAS, 6. TO THE LEFT, AS PERNAS DE STELLA

7

O MEDALHÃO

 

Eduardo não pregou olho, atento ao relógio de ponteiros brilhantes e ao trinco da porta da rua, ruído que conhecia bem por motivos que não vêm agora para o caso.

À hora que se arrependia de não ter ido também aos Freixos, desesperava João com as instruções amorosas da bifa – to the left, to the left – e pela tardança que se fazia para as escavações das ruínas, donde lhe chegava agora um gemido de vem, vem, vem, a que, num salto, decidiu acudir; ao sinal luminoso da torre juntava-se o sonoro.

– Sorry, tenho de ir.

– What the fuck? – queixou-se Stella.

Por isso, quando ouviu o trinco, e logo a seguir outro, Eduardo saiu para o corredor e entrou sem bater no quarto de João, que obviamente não o esperava às 4 da manhã:

– FO-FO-DA-SE, PÁ! – soltou o recém-chegado.

– Shuuuuuu! Caaalma!

Valeu aos dois que o interesse de Eduardo em saber como tinham corrido as pazadas correspondia à ânsia de João em mostrar o espólio da noitada; há dias que era só torrões, uma chatice. Até tinham encontrado um clip.

– Olha – convidou, num tom de tensa expectativa, o cavador.

Despejando os bolsos tirou uma moeda de 5 escudos, uma chave ferrugenta, talvez de um cofre, e um medalhão de São Rafael Arcanjo, patrono dos cegos, dos viajantes e dos encontros felizes, que aberto nas costas mostrava um retrato desfigurado pela humidade.

– Tenho de mostrar isto a Vivelinda – disse João.

Tarde. À porta, acordada pelos pequenos ruídos e sussurros que as noites aumentam, a criada, desgrenhada e de camisa de noite, com os olhos esbugalhados postos no medalhão, levou a mão ao peito, deu um grito que arrepiou o solar e caiu como um saco.

 

(Este é o sétimo capítulo do nosso ‘cadáver esquisito’, explicado aqui. A próxima mão a embalar o cadáver é da Helena Sacadura Cabral.)

11 comentários em “Cadáver esquisito (7)”

  1. Pois claro, um cadáver que se preze tem de ter sempre um medalhão misterioso! Muito bem, Fernando. E agora sempre quero ver como a Helena vai acordar a Vivelinda… 🙂

        1. Ó Fernando eu faço quase tudo num fôlego…
          Mas como se aproxima a Páscoa, resolvi pegar no teu texto e arranjar uma complicaçãozinha à Ivone.
          Hesitei entre o indecoroso e o misterioso. Mas depois lembrei-me que mãe de políticos tem alguns espartilhos em canal aberto como é o DO. E fui para o misterioso. Vais-te rir porque criei uma encrenca!
          Há gente para tudo como vês…e medalhões dão panos para mangas, ó se dão!

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