Fui ontem ver “Amigos improváveis“, acabado de estrear nas salas portuguesas. Confesso que ia de pé atrás: a história, por ser verídica e delicada, poderia facilmente resvalar para moralismos e lamechices insuportáveis: a amizade entre um milionário francês tetraplégico e um senegalês delinquente, dois mundos aparentemente inconciliáveis e cheios de contrastes chocantes. Mas não há moralismos nem lamechices, pelo contrário: o filme está repassado de um humor tão política e socialmente incorrecto que percebemos depressa que seria impensável no cinema americano, tão preso a limitações e preconceitos desta ordem. Essa liberdade é uma das razões por que gosto tanto do cinema europeu. O filme fala com descontracção e abertamente de alguns tabus relacionados com os deficientes, como o suicídio e o sexo. E chorei, mas… a rir. Porque as únicas lágrimas possíveis são devidas a cenas hilariantes, como por exemplo o primeiro impacto de uma ópera (A Flauta Mágica, escolhida não por acaso) no homem da rua que só ouvia Earth Wind and Fire aos gritos.
Eric Toledano e Olivier Nakache, os quase desconhecidos realizadores, viram com espanto o seu filme ser um êxito estrondoso de bilheteira, tornando-se no segundo mais visto desde sempre em França. Além disso, o filme consagra definitivamente o actor Omar Sy, num papel tão notável que roubou ao premiadíssimo Jean Dujardin (O Artista) o César para Melhor Actor. O sucesso foi tanto que está já na calha uma versão americana, como não podia deixar de ser. Não tenciono vê-la, por todas as razões que já referi. Last but not the least, a belíssima banda sonora de Ludovico Einaudi.
Um filme terno, inteligente e com uma saudável loucura, que recomendo a todos nestes dias cinzentos.


A poucos minutos de sair para ir ver precisamente esse filme, encontro este post e vou com as expectativas aumentadas – o que pode ser bom ou mau!
Logo conto. Obrigada, Ana.
Espero que goste, mas pelo menos sei que não fui a responsável pela sua escolha, Gi… 🙂
Gostei muitíssimo!
A Ana não foi responsável pela minha escolha, mas assim que saí do cinema recomendei-o a uns amigos que entravam sem ter ainda decidido o que iam ver. Espero que eles também gostem 🙂
Ah, que bom. O filme é delicioso.
Por todas as razões que a Ana aponta o filme (que fez um enorme sucesso também na Alemanha) merece muito ser visto e recomendado.
Curiosamente usei-o esta esta semana (no Brasil) numa sessão de formação de jornalistas para falar de estereótipos, do politicamente correcto versus liberdade, e técnicas de story telling.
Exactamente, Helena. Além de divertido, o filme é corajoso e muito didáctico. E também de um enorme bom-gosto, essencial quando se trata de temas tão delicados como este.
Estava decidida a não vê-lo. Fizeste-me mudar de ideias.
Eu também hesitei, mas ainda bem que fui vê-lo. Acho que vais gostar, Teresa.
Deixo-te um cheirinho do que vais encontrar, e do humor inteligente com que são tratadas as diferenças entre classes: logo no início do filme, o rapaz (acabado de sair da prisão) rouba um ovo Fabergé em casa do milionário, para levar de presente à mãe que mora num bairro miserável com uma filharada interminável. Não faz ideia do que está a roubar, claro, aquilo pareceu-lhe só vistoso e ele acha que a mãe vai gostar do bibelot. Reacção da mãe, furiosa: “Estás há seis meses sem pôr os pés em casa e agora apareces-me aqui com um ovo Kinder? Achas que é isso que nos faz falta?” A cara dela é um tratado, e uma lição de como tudo é relativo…
Ana, tivesse eu como ir já ao cinema, depois de ler o teu texto, pois ia a correr. E com música do Einaudi:) Obrigada pela sugestão. Beijos
Não o percas, querida. Deixa-nos muito bem dispostos, mas… a pensar, como convém ao bom cinema. E o Einaudi transforma tudo aquilo num requinte ainda maior. Bjs
É impossível não adorar este filme. Impossível. Deixa-nos bem dispostos:D
É verdade, Zeca. Deixa-nos de bem com a vida.