Eros & Thanatos (como de costume)


enlil,
Julie, 1994

Julie, 1994

Tecla, 1994

 forcado, Forte da Casa, 2000

 forcado, Montemor (?), 2000

 

A realidade é complicada, o retrato por exemplo. Uma pessoa vê a máquina fotográfica e põe-se logo em pose; o que fica dela acaba por ser um híbrido entre o que quis mostrar e o que dela se conseguiu ver. Como fazer com que alguém que esteja em pose deixe de posar?

Uma das maneiras mais simples de evitar o problema é fotografar o instante. Mas aí, não é o retratado que fica, mas apenas o que dele sobrou do momento em que o captámos. Outra maneira é apelar a expressões como “essência” ou “alma”, mas estas são provenientes da fantasia platónica, que em boa verdade procuram pouco e encontram menos. Talvez o próprio grego tenha percebido o embuste que criou, ao declarar com a humildade dos sobranceiros que “o belo é difícil” – é que a essência nunca está onde quer que seja.

A fotógrafa Rineke Dijsktra (n. 1959) tem um processo sagaz: fotografar os seus retratos quando as pessoas acabaram de passar por um grande esforço. Quer apanhá-las desarmadas ou frágeis? Nem tanto; quer que elas estejam demasiado fatigadas para se preocuparem com a pose.

Numa das suas séries Dijkstra fotografas mulheres que acabaram de dar à luz: Julie, uma hora antes de ser fotografada, Tecla, um dia depois do parto. Para outra série, Dijkstra veio a Portugal fotografar forcados, captados pouco depois da pega. O que se obtém é o retrato de pessoas no seu estado humano mais radical, o de quem acabou de sobreviver à natureza.

8 comentários em “Eros & Thanatos (como de costume)”

  1. Sobreviver é um acto natural. Alterar a natureza é mais que natural, é humano. As 2 primeiras são actos naturais, os forcados desafiam a natureza para demonstrar bravura. Só um humano a compreende.
    Só para contrariar, e demonstrar a natureza esquecida, costumo afirmar que só desafio (fisicamente) quem é mais fraco do que eu (fisicamente), senão fico mal. Se retirar os parentesis, fica mais normal no mundo cão.

  2. Adoro fotografias, Mas odeio ser fotografada, porque me roubam um instante de vida que, sendo meu, não o é!

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