O comentário da semana


Pedro Correia,

«Esta questão do «acordo ortográfico» serve, acima de tudo, para aquilatar do estado da literacia em Portugal, incluída a democrática, e de como uma campanha de propaganda gizada por especialistas e executada por uma organização discreta com membros proprietários de órgãos de comunicação, na banca e no estado, permite impor concepções de ortografia caducas desde há muito (a da aproximação da escrita à fala, é, hoje em dia grotesca: fala e escrita são, desde há mais de 70 anos concebidas como media autónomos de um mesmo sistema, como nota A. Emiliano – o que as neurociências apenas têm confirmado), que envolvem uma violentação de uma intensidade inaudita dos hábitos de escrita e de um factor maior da identidade de uma comunidade.
Serve, também, para ver o conservadorismo anquilosante dos meios intelectuais portugueses (e brasileiros) que se permitem atitudes de um incrível paternalismo colonialista para com países como Angola e Moçambique.
Por último, e o mais doloroso, para verificarmos como a democracia é ainda, em Portugal, uma formalidade, que, no que deveria ter de substancial, não encontra expressão nas instâncias do poder. De facto, o pensamento político português é, na prática, o despotismo esclarecido: o “acordo”, visto por políticos (a maioria deles gente de poucas letras) como um avanço da razão é imposto ao povo – que não sabe bem o que quer, e que, se o soubesse, havia forçosamente de aquiescer…).
Tudo isto por causa das ambições políticas de um país estrangeiro com 75% de analfabetos…
É demasiado mau para ser verdade, mas é assim mesmo.»

 

Do nosso leitor VSC. A propósito deste texto do Luís Menezes Leitão

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