Iron Lady


Adolfo Mesquita Nunes,

O jornal Expresso pediu-me que escrevesse umas linhas sobre o filme Iron Lady. Presumi, acho que bem, que o objectivo seria ter a leitura do filme por quem se identifica, e muito, com o legado político de Margaret Thatcher. Foi nesse pressuposto que escrevi o texto que se segue, e que foi publicado na edição de Sábado do suplemento Actual do Expresso –  e que não corresponde, por isso, a uma crítica de cinema (coisa aliás, como já aqui disse, que não sei fazer).

 

 

Um filme sobre Thatcher sem Thatcher

 
‘Iron Lady’ não é um filme sobre Margaret Thatcher. A sua figura é instrumental para os objectivos do filme: divagar sobre a perda (de poder, de faculdades ou de aliados) e moralizar acerca da irrelevância da carreira na hora da morte (ainda que, através dela, se tenha mudado a face do Mundo).

O filme é assim uma oportunidade perdida porque esgota a possibilidade de vermos, neste tempo de crise, o percurso e legado de uma mulher que chegou ao poder quando a Grã-Bretanha atravessava uma das maiores crises da sua história (o FMI, esse mesmo, tivera de entrar no país pouco antes).

Seguindo Hayek e não Keynes, Thatcher retirou o país da decadência e tornou a economia inglesa numa das mais poderosas do Mundo: derrotou a inflação, transformou os tecidos industrial e empresarial, elevou substancialmente o nível de vida, reduziu a opressiva carga fiscal e criou um novo modelo económico (que nem Blair repudiou) favorável à geração de novos empregos e à mobilidade social.

Mesmo para os seus detractores, a importância de Thatcher reside na forma como, com esse modelo, conseguiu transformar económica e socialmente a face do país, contribuindo decisivamente para a queda do muro de Berlim.

Sobre isto, que é tudo, o filme nada diz. Não assistimos a tomadas de decisão política de Thatcher, não conhecemos qualquer linha do seu modelo económico, não sabemos por que razão foi eleita três (!!) vezes, não percebemos o seu papel na queda do muro de Berlim, não vemos os (in)sucessos dos seus governos, e muito menos entendemos porque é que a sua profética desconfiança face à moeda única e ao modelo de governação europeia contribuiu para a sua queda.

De Thatcher fica apenas o retrato demasiado ambíguo de uma mulher que nunca deixou que a percebessem e que agora não é dona da sua vida, o que é coisa pouca para quem paradoxalmente tanto lutou para que os indivíduos e famílias pudessem ter maior controlo sobre as suas vidas.

12 comentários em “Iron Lady”

  1. Vi o filme há dias e tendo a concordar muito consigo. O filme vale pela soberba interpretação de Meryl Streep, uma vez mais.
    Fiquei a pensar com os meus botões na enorme injustiça que era reduzir assim uma grande figura da política mundial a uma pessoa perdida e desorientada, no ocaso da vida. Injusto, muito injusto.

    1. Não sei se considero injusto. Dentro do prisma do filme, penso que é um filme correcto. Apenas me pareceu uma oportunidade perdida já que duvido que, nos próximos, alguém se lembre de fazer um filme sobre Thatcher…

  2. É mais que natural a Inglaterra, o maior império de todos os tempos, hesite em largar a libra esterlina, moeda que já teve em tempos o papel de reserva que tem agora o dólar. Não foi por causa dessas dúvidas nem das do modelo de governação europeia que ela caiu. A razão imediata foi a poll tax, um imposto miserável em que queriam que a contribuição autárquica fosse função não do valor da propriedade mas do número de pessoas que viviam na habitação. Foi esse disparate que fez com que fosse corrida.

    1. Eu não disse que Thatcher caiu apenas pela sua posição quanto à moeda única e quanto à Europa. Disse que ficou por se perceber o quanto isso contribuiu para a sua queda – e contribuiu muito, como aliás se viu pela inflexão conservadora quanto à Europa.

  3. Precisamente. Confesso que não estava à espera que o filme focasse a actual demência de Thatcher, quanto mais passar parte do tempo a mostrar isso. Depois há um salto gigante no tempo entre a invasão das Falkland e a queda de Thatcher devido à poll tax. Cheguei ao fim com a sensação que faltava algo.
    Ainda assim vi umas parecenças entre o que Thatcher queria (e a oposição que teve) e a actual situação portuguesa. Tal como aconteceu no Reino Unido da década de 80 há actualmente em Portugal largas faixas do eleitorado que são incapazes de ver que muitos dos sacrifícios que enfrentamos são necessários. Na altura a oposição trabalhista chegou a atirar com uma farda de mineiro ao chão do parlamento como forma de protesto pelo encerramento das minas de carvão. Minas que eram ineficientes até ao tutano. Aqui vão fazer o mesmo: qualquer dia alguém do BE lembra-se de atirar ao chão da AR uma farda de motorista da Carris.

    1. Um dos paralelismos que encontro é a forma como os conservadores ingleses, antes de Thatcher, comungavam do socialismo, um pouco mais light bem sei, de tal forma que todo o debate político, e toda a alternativa ideológica, se encontrava dentro do mesmo quadro socialista. Por cá as coisas não foram muito diferentes.

  4. Creio que é hoje facto estabelecido que Thatcher não desejava a reunificação alemã.

    Quanto ao milagre económico inglês… muitos defendem que teria sido em grande parte um golpe de sorte pelo aumento do preço do petróleo ter coincidido com a exploração das reservas do mar do Norte. O que não o impediu de ser feito à custa de enormes desigualdades, atingindo o vergonhoso valor de 30% de crianças no limiar de pobreza no exercício de John Majors.

    A herança de Thatcher, na inglaterra de hoje, em grande parte abraçada, e até ampliada, por Blair (fracos créditos….), pode ser talvez melhor caracterizada em “Fantasy Island”, de Larry Elliot e Dan Atkinson.

    1. É facto estabelecido que a Thatcher não apreciou a forma como o processo de reunificação alemã nos termos, e no tempo, em que esta ocorreu.
      O milagre económico de Thatcher não dependeu dela, ou seria um contrasenso. Os estatistas é que acham que são eles a conseguir o milagre económico. O que ela conseguiu fazer foi criar o ambiente necessário para que os ingleses pudessem prosperar (e todos os níveis de rendimento subiram, e bem, com Thatcher, como aliás os próprios deputados trabalhistas reconheceram).
      Mas claro que o governo dela teve insucessos, e até fortes. Não me passa pela cabeça negar. E teve até contradições: o capitalismo popular de Thatcher, por exemplo.

  5. Já te tinha lido no Expresso. Baixaste-me as expectativas, o que talvez seja bom, assim ao menos não me decepciono e aproveito para apreciar bem a outra lady, a Streep. A avaliar pelo trailer, está fabulosa.

    1. Acho que o filme queria mostrar o lado humano, e penso que escolheu um prisma estranho para o demonstrar 🙂
      No 31 da Armada, não concordando comigo, o Francisco Mendes da Silva escreve um óptimo texto sobre o filme.

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